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NOVO BALANÇO FINANCEIRO DA ELETRONUCLEAR REVELA O ALTO CUSTO DA INDECISÃO E DA APATIA DO GOVERNO PARA RETOMAR AS OBRAS DE ANGRA 3

Última reunião do CNPE: nada de decisão sobre Angra 3

O setor elétrico viu novamente o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) reunir-se na última semana para deliberar sobre diversas pautas, mas deixando de lado  – mais uma vez – a discussão sobre a retomada das obras de Angra 3. Por si só, a indefinição de uma obra desse porte, que se arrasta há décadas, já é motivo de desgaste para a imagem do país. No entanto, além do sentimento de frustração, mais grave ainda é o efeito econômico que essa apatia do governo sobre o tema está gerando na Eletronuclear, principal companhia do setor nuclear brasileiro. O último balanço financeiro da empresa, divulgado na semana passada, traz alertas claros sobre o tamanho da asfixia financeira gerada pela indecisão em relação a Angra 3.

A empresa afirma, no documento, que entende não haver aspectos de natureza operacional que possam indicar risco de descontinuidade das usinas Angra 1 e 2. Porém, a estatal ressalta a necessidade de retomar as obras de Angra 3 para garantir seu reequilíbrio financeiro. A Eletronuclear avalia que a conclusão da construção da usina, em condições sustentáveis, depende, entre outras questões, “de uma nova estruturação financeira”, dado o montante significativo de investimentos (custos diretos) ainda a realizar. Estima-se que o custo para terminar a obra seja de aproximadamente R$ 24 bilhões.

Angra 3: obra se arrasta há décadas e ainda está sem definição sobre sua continuidade

Acontece que a Eletronuclear afirma que “não possui garantias disponíveis para conseguir novos financiamentos”, visto que todos os seus ativos já estão comprometidos nos créditos existentes. Em 2024, a Eletronuclear conseguiu negociar a suspensão do pagamento de principal e juros das dívidas com a Caixa Econômica e o BNDES por seis meses, entre julho e dezembro. Diante das sucessivas postergações do CNPE sobre a retomada de Angra 3, a empresa reapresentou pedidos de “waiver” para estender o prazo primeiro até dezembro de 2025 e, mais recentemente, até dezembro de 2026. O pleito, no entanto, foi negado pelo BNDES, justamente pela indefinição sobre o projeto.

Diante desse cenário, a Eletronuclear se viu forçada a tirar recursos próprios para manutenção dos equipamentos do empreendimento. “Mesmo com a suspensão das amortizações dos financiamentos junto ao BNDES e CEF em 2024 e a redução de dispêndios pela Diretoria de Angra 3 ao mínimos necessários para a manutenção do empreendimento até aprovação da retomada, em setembro de 2024, houve o esgotamento dos recursos do caixa restrito de Angra 3, levando ao emprego de recursos do caixa da Eletronuclear até que haja novo evento de liquidez específico para o projeto”, detalhou o relatório financeiro da companhia.

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Ao longo de 2025, novas tentativas de extensão dos waivers foram feitas, sem sucesso, diante da exigência dos bancos por uma decisão favorável do CNPE. A retomada de Angra 3 já foi analisada três vezes no conselho desde 2024, com voto favorável à conclusão por parte do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, presidente do Conselho, mas seguido, em todas as ocasiões, por pedidos de vista coletiva dos demais conselheiros.

Levando em consideração apenas os últimos quatro anos, estima-se que os gastos com manutenção do projeto de Angra 3 tenham alcançado a cifra de R$ 4 bilhões – valor equivalente à construção de mais de 30 mil casas populares.

Diante do impasse sobre Angra 3, a Eletronuclear teve de montar um “plano de ação” para para mitigar possíveis riscos associados à liquidez de curto prazo e à continuidade operacional. Entre as medidas tomadas, está o saque extraordinário de R$ 400 milhões do chamado “Fundo de Descomissionamento” – espécie de “conta poupança” onde a empresa guarda dinheiro que será usado no futuro para o processo de descomissionamento das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2. Segundo a Eletronuclear, o saldo atual é da ordem de R$ 3,3 bilhões.

Por fim, a Eletronuclear reconhece que “há incerteza relevante sobre a situação financeira da companhia no que tange a adimplência de seus compromissos de curto prazo”. Todavia, a empresa afirma que o êxito nas ações contidas no plano de ação “tende a mitigar os riscos de liquidez de curto prazo e de continuidade operacional da companhia”.

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Drausio Lima Atalla
Drausio Lima Atalla
23 dias atrás

A Eletronuclear fornece entre 30 e 40%da eletricidade do Estado do Rio de Janeiro há 25 anos, com interrupção de um punhado de dias que não alcançam dois dígitos, atende uns oito milhões de clientes cidadãos do segundo PIB do país. Angra 1 pode aperar até a segunda metade do século XXI e Angra 2 pode auxiliar na celebração da chegada do século XXII. A natureza seu do seu produto, eletricidade, a maior alavancadora da produtividade, aquilo que separa homens de animais, seu giro estonteante de mais de 15 milhões de MWh por ano, seus custos operacionais que apesar de… Leia mais »