FECHAMENTO DE ORMUZ AMEAÇA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS COM FALTA DE FERTILIZANTES. PAÍSES CORTAM IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO, MAS BRASIL NÃO
Uma segunda grave consequência do fechamento do canal do Estreito de Ormuz paralisa o comércio de fertilizantes, causando um efeito cascata na segurança alimentar. No Brasil, essas consequências são imediatas, porque o Irã é um dos grandes fornecedores para a nossa agricultura. Os preços tiveram um aumento de 20 a 30% e ameaça a segurança alimentar mundial no primeiro mês do conflito. O tráfego de navios-tanque por Ormuz, responsável por cerca de um terço do comércio global de fertilizantes, caiu mais de 90%. Agricultores da Índia ao leste da África agora tomam decisões sobre o plantio para a próxima safra em condições que não existiam há 60 dias. O Brasil também se ressente. Os governos dos países que dependem dos fertilizantes cortaram os impostos de importação. No Brasil, o corte foi apenas no diesel e do PIS e Cofins. Com o aumento dos preços dos fertilizantes e a escassez de oferta, os agricultores enfrentam uma escolha simples: usar menos ou pagar mais. As consequências aparecerão mais tarde, nas colheitas.
Segundo a Lloyd’s List, os prêmios de seguro contra riscos de guerra para embarcações próximas ao Estreito de Ormuz aumentaram dez vezes em relação aos níveis pré-
conflito poucos dias após o início dos combates. Antes do conflito, um navio-tanque avaliado em US$ 120 milhões pagava cerca de US$ 48.000 pela cobertura no Golfo. Agora, a mesma embarcação enfrenta custos de até US$ 1,2 milhão para uma única travessia de sete dias. O resultado não são apenas preços mais altos, mas também prazos de entrega mais longos, já que as cargas são redirecionadas ou atrasadas, restringindo a disponibilidade de fertilizantes justamente quando os agricultores entram no período de compras pré-plantio.
Os fertilizantes são um dos pilares da produção moderna de alimentos. Quando os preços disparam ou o fornecimento diminui, os preços dos alimentos não sobem da noite para o dia, mas tendem a se refletir de seis a nove meses depois, na época da colheita. O mundo já viu isso antes. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 removeu cerca de 15% do
fornecimento global de fertilizantes e elevou os preços dos alimentos ao seu nível mais alto em uma geração. A proibição de fertilizantes no Sri Lanka no ano anterior arruinou as colheitas e contribuiu para a queda do governo. Agora, o fechamento do Estreito de Ormuz interrompeu o comércio global de fertilizantes no início da temporada de plantio do Hemisfério Norte, sem reservas estratégicas e sem substitutos rápidos.
Economistas agrícolas alertam que o alívio pode chegar tarde demais para proteger totalmente a safra de 2026. As seguradoras
de transporte marítimo precificam a cobertura com base no risco, não em declarações diplomáticas, afirmou Maximo Torero(direita), economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Esse gargalo logístico não tem solução viável no curto prazo”, disse ele. Muitos agricultores já ajustaram suas decisões de plantio para 2026. “ Os agricultores estão enfrentando o aumento dos preços dos fertilizantes, juntamente com o aumento dos custos dos combustíveis, o que afeta toda a cadeia de valor agrícola, incluindo irrigação e transporte”, disse Torero em uma coletiva de imprensa da ONU.
Os chefes do Fundo Monetário Internacional, do Grupo Banco Mundial e do Programa Mundial de Alimentos emitiram uma rara declaração conjunta em Washington: “A guerra no Oriente Médio já desencadeou uma das maiores perturbações nos mercados globais de energia
da história moderna”, afirmaram. “Aumentos acentuados nos preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes, juntamente com gargalos no transporte, levarão inevitavelmente ao aumento dos preços dos alimentos e à insegurança alimentar.” A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva(esquerda), disse que “todos os caminhos agora levam a preços mais altos”, enquanto o CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, alertou que o conflito poderia estimular uma “inflação mais persistente”.
A Turquia entrou na crise com a inflação de alimentos já em 33% ao ano. O choque agravou a situação. A Gübretaş, principal produtora estatal de fertilizantes do país, relatou que a demanda diária dos agricultores dobrou quase imediatamente após o início do conflito no Oriente Médio, à medida que os distribuidores privados reduziram ou interromperam as vendas. O governo cortou as tarifas de importação de ureia em poucos dias. Para um país que importava quase 40% de sua ureia de Omã e do Golfo, a interrupção foi imediata. A posição da Turquia é importante porque ela é tanto uma grande produtora agrícola quanto um país já sob pressão inflacionária, o que significa que o choque dos fertilizantes está atingindo um sistema com pouca margem de erro.
A safra da Índia, o ciclo de plantio das monções que ocorre em junho e julho e é colhido em outubro, está agora sendo afetada diretamente por essa interrupção. O país
importa cerca de 90% de suas matérias-primas para fertilizantes. O potássio chega quase inteiramente do exterior. É bom lembrar que a Índia é o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de pessoas que precisam se alimentar todos os dias. “A guerra no Oriente Médio já está sendo sentida muito além da região”, disse Himanshu Pathak, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisa de Culturas para os Trópicos Semiáridos. “Isso se reflete no aumento dos preços dos fertilizantes na Índia rural e na mudança das decisões de plantio dos agricultores em toda a África e muito além. Custos mais altos reduzem as margens de lucro, enquanto a incerteza em relação ao fornecimento afeta
as decisões de plantio”, disse Pathak, descrevendo as condições já visíveis em diversas regiões agrícolas da Índia. O instituto está trabalhando com o Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola em estratégias de curto, médio e longo prazo para lidar com o impacto.
A Índia agiu rapidamente. O governo antecipou as importações, diversificou as rotas de abastecimento através da Rússia e Marrocos, via Cabo da Boa Esperança, e aumentou a produção nacional de ureia(esquerda) em 23% por meio da aquisição emergencial de gás. Em meados de março, os estoques de fertilizantes atingiram níveis recordes: a ureia aumentou, o fosfato diamônico mais que dobrou e os volumes de nitrogênio, fósforo e potássio alcançaram o maior patamar histórico. Não se espera que a Índia sofra com a falta de fertilizantes para a safra de 2026.
CONSEQUÊNCIAS NA ÁFRICA
“A relação entre a redução do uso de fertilizantes e a perda de produtividade é muito direta e pode ser observada em uma única safra”, disse o
professor Tilahun Amede, diretor de adaptação climática, agricultura sustentável e resiliência da Aliança para uma Revolução Verde na África. “A maioria dos solos africanos já está esgotada. O efeito será especialmente pronunciado no milho. a perda de produtividade esperada é entre 40 e 50%.” O Comitê Internacional de Resgate calculou que junho é o mês em que uma bomba-relógio de segurança alimentar começará a explodir, à medida que as colheitas fracas causadas pela paralisação das entregas de fertilizantes empurram milhões de pessoas para a fome extrema. “Os custos de transporte para países sem litoral podem aumentar de 30% a 80%”, disse Amede. “O custo da importação de alimentos aumentará significativamente, principalmente para os países do Norte da África que dependem da importação de trigo.“
NAVIO PARA CHINA RECEBEU PASSE LIVRE
O petroleiro chinês Rich Starry, alvo de sanções dos EUA, cruzou o Estreito de Ormuz, tornando-se o primeiro a sair do Golfo desde o início do bloqueio americano, transportando metanol dos Emirados Árabes Unidos. Segundo os dados de navegação da LSEG, MarineTraffic e Kpler, o Rich Starry seria o primeiro navio a atravessar o estreito e a sair do golfo desde o início do bloqueio. O navio-tanque e sua proprietária, a Shanghai Xuanrun Shipping, foram alvo de sanções dos Estados Unidos por negociarem com o Irã.

publicada em 14 de abril de 2026 às 11:00 




