BLOQUEIO AMERICANO OBRIGA O IRÃ A ARMAZENAR PETRÓLEO E A INTERROMPER PRODUÇÃO QUE CAUSARÁ GRAVES DANOS AOS SEUS RESERVATÓRIOS
Ao contrário do que diz a grande mídia, principalmente a ligada à esquerda norte-americana, que mostra uma imagem do presidente Trump como um perdedor aflito no embate contra o Irã, a estratégia de querer prolongar o cessar-fogo e não abrir mão de nenhuma exigência nas negociações está deixando as lideranças – sejam elas quais forem – de cabelo em pé e sem alternativas, a não ser a obrigação de negociar e ceder. O bloqueio naval impedindo o acesso aos portos iranianos para navios que chegam ou a passagem via Mar da Arábia, para os navios que partem de portos do Irã, estrangulou de vez a economia iraniana que perde por dia o equivalente a US$ 450 milhões em negócios desde o dia 13. Já são onze dias com prejuízos que se aproximam de US$ 5 bilhões. Além disso, há o acúmulo de petróleo que ainda está sendo estocado, mas em pouquíssimos dias, não haverá mas espaço para fazer o estoque, o que vai obrigar a parar toda produção, com prejuízos que vai abalar o Irã como grande produtor mundial de petróleo.
Hoje, o Irã é o terceiro maior produtor da Opep e responde por cerca de 4,5% do fornecimento global de petróleo. A sua produção é estimada em 3,8 milhões de barris por
dia, além de 1,3 milhão de barris de condensados e outros líquidos. Ele é o 7º maior produtor mundial. No início de 2026, a China tornou-se o principal cliente do Irã para petróleo bruto, respondendo por mais de 90% do total das exportações iranianas. A consultoria FGE NextantECA estima que o Irã tenha cerca de 90 milhões de barris de capacidade de armazenamento disponível de petróleo bruto em terra e uma capacidade total de aproximadamente 122 milhões de barris. Estima-se que ele poderia ficar até dois meses sem exportar. Mas esta não é uma informação totalmente segura, porque não se sabe qual era o total de petróleo armazenado quando o bloqueio começou.
A ESTRATÉGIA AMERICANA
Quando o presidente Trump estendeu o cessar-fogo com o Irã esta semana sem definir uma data de término, ele fez mais do que ganhar tempo. Ele redefiniu o significado desta fase do conflito. A leitura instintiva da extensão de um cessar-fogo é que ele sinaliza uma desescalada, um passo para longe do confronto. Que Trump recuou. Que fraquejou. Que capitulou, enquanto o apoio à guerra nos EUA continua a despencar. É esta imagem que a grande mídia com viés esquerdista quer passar. Mas esta seria uma interpretação errônea da situação. Os bombardeios podem ter cessado, mas a pressão sobre a República Islâmica não. Ela apenas mudou de forma. A guerra não parou; ela mudou de direção. Durante seis semanas, os ataques dos EUA e de Israel foram planejados para degradar a infraestrutura militar e as capacidades nucleares do Irã. Esse objetivo, segundo a maioria das análises, foi amplamente alcançado. As capacidades militares e nucleares do Irã não são hoje o que eram antes de 28 de fevereiro. Nem de longe. O que Washington está tentando agora é transformar esses ganhos em poder de barganha por meio de pressão econômica constante.
O Irã não está sendo atingido por ataques aéreos, mas está sendo pressionado economicamente. Com a sua capacidade de
exportar petróleo severamente reduzida pelo bloqueio, a pressão aumenta. O ônus recai sobre Teerã: quanto mais demora, mais tempo dura o sofrimento econômico. Essa é a estratégia central da abordagem atual: que o que semanas de bombardeios não conseguiram. Trump diz que foi conseguido 75% dos objetivos e que a volta dos ataques militares, aniquilaria o setor de energia do país, que já está aos frangalhos. As forças militares sem munição e parcialmente destruídas. Não há mais força aérea ou força naval. 179 embarcações foram afundadas. Não reabastecimento de nada. A fronteira Norte, pelo Mar Cáspio, ainda teria condições de se receber alguma coisa, mas os vizinhos mais próximos são Azerbaijão,
Afeganistão e Turcomenistão. E mais distante, a Rússia. Nenhum deles, mesmo a Rússia, velha aliada dos Aitolás, quer se envolver nesta confusão.
Para os EUA e Israel, esse período permite o reabastecimento, o reposicionamento, o descanso dos pilotos e das tripulações aéreas, e a preparação discreta dos próximos passos, caso a estratégia atual falhe. Os EUA já estão posicionando uma terceira força de ataque de porta-aviões. O bloqueio permanece. A pressão econômica continua. E a opção militar não está sendo descartada, mas sendo mantida em reserva, suficientemente visível para reforçar a mensagem de que a fase atual é reversível. As divisões internas do Irã, entre linha-dura, pragmáticos e centros de poder rivais, podem retardar a tomada de decisões. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que parece estar no comando, pode agir por conta própria, sem coordenação prévia, e desencadear uma escalada do conflito.
O PETRÓLEO IRANIANO COMO ARMA
Ao eliminar prazos e manter a pressão, Trump tenta transformar o tempo, antes um trunfo para o Irã, em um fardo. Cada dia que passa
sem uma decisão representa mais um dia de receita perdida, mais um dia de tensão econômica, mais um dia em que a pressão não diminui, mas aumenta. A lógica por trás disso é clara: deixar o Irã armazenar petróleo até mão poder mais. E aí, ser obrigado a enfrentar os danos em seus reservatórios por ter que interromper o fluxo do óleo. As formações carbonáticas de Asmari e Bangestan, que se encontram sob a maior parte dos gigantescos campos petrolíferos do sul do Irã, são sistemas de alta permeabilidade e forte influxo de água. A literatura da Society of Petroleum
Engineers sobre essa classe específica de reservatórios é inequívoca. A remoção do suporte contínuo de pressão durante um período prolongado de paralisação ativa simultaneamente mecanismos de danos: ascensão de água através da rede de fraturas; migração de partículas finas para os poros; compactação da formação sob aumento da tensão efetiva e expansão da argila devido à alteração da salinidade e do pH.
O dano não é teórico. Está documentado. E é medido em meses a anos de capacidade de produção recuperável, não em dias. Em geral leva tempo para recuperar a produção, e o que se perde é no cálculo da vida útil pela forma de produção primária. Pode ser que tenha no futuro, injetar mais, fraturar, mas os campos se recuperam. Demora, mas podem se recuperar.
Pontos principais de correção:
- O dano não é inerente ao fechamento: O maior risco em campos iranianos durante um fechamento prolongado não é a geologia “estragar” sozinha, mas sim a
degradação mecânica dos poços (corrosão, integridade do cimento) e a perda de infraestrutura logística;
- Mecânica de Fluidos: O fechamento costuma mitigar o cone de água (water coning), e não ativá-lo. A geologia, por si só, não se sustenta totalmente. Ao fechar o poço, a tendência é o oposto: a interface água-óleo tende a se estabilizar e nivelar devido à gravidade.
Asmari é um reservatório de carbonato fraturado. A permeabilidade da matriz é geralmente baixa, mas a permeabilidade do sistema de fraturas é altíssima. Bangestan possui propriedades de reservatório inferiores ao Asmari e nem sempre apresenta um empuxo hidráulico forte. Muitos desses campos operam sob mecanismos de expansão de gás ou segregação gravitacional. Dizer que são sistemas de alta permeabilidade sem mencionar que isso se deve às fraturas é tecnicamente incompleto. Quanto mais
tempo os reservatórios interromperem a produção de petróleo, pior será. Os iranianos sabem disso e estão correndo contra o tempo. Sabem que as forças miliares americanas podem piorar a situação de reconstrução do país e que, sem petróleo, a situação agrava-se ainda mais. O fechamento de Ormuz ainda é o único trunfo que os iranianos dispõem. Mas, os Estados Unidos não perdem com isso. Dezenas de navios de diversos países, estão indo para o Texas e para o Alasca em busca de comprar o petróleo americano. O fechamento de Ormuz se traduz em problemas para muitos países, como China, Coréia do Sul, Japão, Índia e para a quase totalidade dos países europeus, que não estão mexendo uma palha para ajudar aos Estados Unidos no controle do estreito, que é estratégico para o fluxo mundial de petróleo. Se o bloqueio persistir, os europeus vão ter que se mexer. O que vai acontecer não se sabe, mas ode ser que os Estados Unidos passem a cobrar pedágio para cobrir as suas despesas. Quem viver, verá.
O Petronotícias procurou pesquisar o assunto e se o Brasil tinha alguma experiência em situações semelhantes. Nós ouvimos outras pessoas sobre o assunto e trazemos
agora a opinião de um ícone da engenharia de petróleo do Brasil. O principal responsável pela descoberta do pré-sal, o engenheiro Guilherme Estrela, que por muito tempo foi diretor da Petrobrás. Para ele, ” Este é um problema absolutamente central na indústria petrolífera: o sistema de produção é projetado para operar de acordo com uma dinâmica do fluxo de gás-petróleo e água dentro da rochas reservatório, específica para cada campo. E individualmente, pois tratando-se de rochas permo/porosas com peculiaridades geológicas naturais de cada uma delas. Se esta dinâmica for desrespeitada criam-se dificuldades que colocam em sério risco a continuidade da produção. Foi o que ocorreu no nossos campos antigos da Petrobrás na Bacia de Campos, por exemplo. Transformada em “fundo de investimento do capitalismo financeiro transnacional” pelos governos Temer/Bolsonaro, onde campos antigos não davam tanto lucro para os 65% dos acionistas privados eles foram simplesmente fechados. Hoje, são praticamente perdidos.”

publicada em 24 de abril de 2026 às 13:00 






