ABDAN VÊ COM PREOCUPAÇÃO EXTREMA A SITUAÇÃO DE ANGRA 3 EM ANO DE ELEIÇÃO, MAS MOSTRA OTIMISMO COM OUTROS PROJETOS DO SETOR
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve se reunir no próximo dia 7, naquela que seria, provavelmente, a última oportunidade antes das eleições deste ano para decidir sobre a retomada das obras de Angra 3. Contudo, até aqui, não há indicação de que o tema será discutido no encontro. Essa indefinição sobre o projeto tem causado uma “preocupação extrema” no setor, segundo afirmou o presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), Celso Cunha, nosso entrevistado desta terça-feira (28). “Acredito que o período eleitoral apenas agrava o cenário. Sinceramente, não prevejo qualquer decisão concreta até novembro, após a definição dos resultados das urnas”, afirmou. Apesar dos problemas e desafios, o presidente da ABDAN afirma que o avanço de políticas ligadas à transição energética, a inclusão da fonte nuclear em programas estratégicos e o planejamento de novos empreendimentos — como os pequenos reatores modulares — sustentam uma visão mais otimista para o futuro do setor, independentemente do desfecho de Angra 3.
Qual é o sentimento e o humor geral do setor nuclear ao observar que, mais uma vez, a pauta de Angra 3 será deixada de lado na reunião do CNPE?
O mercado demonstra uma preocupação extrema com a situação atual de Angra 3. Recentemente, a direção da Eletronuclear declarou um déficit de 120 milhões de reais apenas em gastos com pessoal. Além disso, há pendências em relação à aquisição da ações pela J&F que permanecem sem solução e, a cada momento, surgem novas despesas extraordinárias.
A planta de Angra 3 necessita de recursos para manutenção e para uma série de intervenções necessárias, enquanto a empresa se encontra em uma situação de quase insolvência. Só não podemos afirmar que ela irá falir porque o governo é o acionista majoritário, o que torna esse desfecho improvável. No entanto, o descaso com que o assunto tem sido tratado nos causa uma profunda estranheza.
Com a proximidade das eleições, essa talvez fosse a última oportunidade de decidir sobre Angra 3 nesta gestão. Qual seria o impacto negativo para o setor caso essa decisão seja postergada para 2027?
Acredito que o período eleitoral apenas agrava o cenário. Sinceramente, não prevejo qualquer decisão concreta até novembro, após a definição dos resultados das urnas. A Eletronuclear terá que conviver com essa instabilidade até o final do ano. Nesse contexto, observamos que algumas companhias já não demonstram interesse em trabalhar no setor, embora outras ainda persistam. De qualquer forma, o momento atual não parece propício para a resolução definitiva desse assunto. Por outro lado, apesar desse impasse, notamos sinais positivos no que diz respeito ao planejamento de novos empreendimentos nucleares.
Em sua visão, uma eventual troca de governo no próximo ano poderia atrasar ou acelerar a tomada de decisão?
Caso ocorra uma troca de governo, a questão central será o tempo necessário para a transição e a escolha do novo titular da pasta. Dependendo de quem assumir o Ministério de Minas e Energia, poderemos enfrentar um retrocesso total. O ministro que encerrou o último governo, por exemplo, foi considerado o pior da história para o setor nuclear. Portanto, olhamos para essa possibilidade com cautela e preocupação, mas estamos preparados para dialogar com quem vier a assumir o cargo.
A ABDAN está elaborando um caderno de sugestões para os candidatos. Poderia adiantar alguns pontos desse documento?
Sim, estamos finalizando esse material e a expectativa é que esteja concluído na primeira semana de maio. No momento, iniciamos o processo de homologação junto aos sócios para validar o conteúdo, a redação e a forma do documento. Nosso objetivo é ter o caderno pronto ainda em maio, antes do início oficial do período eleitoral.
Qual é a importância estratégica de Angra 3 no atual cenário do Sistema Interligado Nacional (SIN), considerando a necessidade de energia firme e problemas como o curtailment?
A entrada de Angra 3 em operação é fundamental por diversos motivos. Primeiramente, ela fornece energia de base diretamente no centro de carga, o que é crucial em momentos de curtailment e de restrição hidrológica, fenômenos comuns em determinadas épocas do ano. Vale ressaltar que o custo dessa energia, se comparado aos últimos leilões, mostra-se competitivo. Recentemente, tivemos leilões de reserva de capacidade com custos superiores aos de Angra 3, que hoje estão inflados por todo o histórico de problemas do projeto. Precisamos resolver esse impasse e seguir adiante. É importante destacar que as dificuldades de Angra 3 não devem ser confundidas com a evolução de outros projetos nucleares.
Quais são esses projetos?
Temos recebido boas sinalizações para o futuro que transcendem a questão de Angra 3, focando principalmente na transição energética. A fonte nuclear está prevista no Programa de Hidrogênio, na taxonomia verde, em diversos projetos de lei e no Plano Nacional de Energia (PNE) 2055, que está em consulta pública e prevê a adição de 14 gigawatts.
São indicativos claros de que o setor irá avançar independentemente do desfecho de Angra 3, que é um processo marcado por problemas que vão desde questões de corrupção até falhas na modelagem econômica original. Estamos esperançosos, pois o conjunto de ações atuais — como o desenvolvimento de reatores modulares pequenos (SMR) pela Diamante, as diretrizes do PNE 2055 e os incentivos legislativos — nos leva a crer em um progresso sólido para o setor nuclear.

publicada em 28 de abril de 2026 às 5:00 







Certo seria privatizar.