ESTUDO REVELA QUE MAIORIA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA AINDA DESCONHECE AVANÇOS E BENEFÍCIOS DA GERAÇÃO DE ENERGIA NUCLEAR
Uma recente pesquisa do Nuclear Confidence Project, iniciativa da consultoria Radiant Energy Group, acende um alerta para o setor nuclear brasileiro. A população do país aparece com uma das mais reticentes em relação à fonte. Apenas 29% dos entrevistados disseram ser favoráveis a projetos nucleares, diante de 40% que se declararam contrários. Somente 8% dos participantes escolhem a energia nuclear como prioridade, enquanto 88% manifestam preocupação com a segurança. Além disso, o relatório mostra que apenas 44,9% identificam corretamente a nuclear como fonte de baixa emissão.
Para o assessor técnico da diretoria executiva da AMAZUL, Leonam Guimarães, os resultados demonstram que boa parte da população brasileira ainda desconhece os avanços em segurança alcançados pelo setor nas últimas décadas. Além disso, ele reconhece que os atrasos em projetos como Angra 3 e a associação histórica da energia nuclear a acidentes também influenciaram o resultado. Para reverter esse cenário, Guimarães acredita ser necessário entregar projetos dentro de custos e prazos confiáveis, manter elevado desempenho operacional, assegurar uma regulação independente e comunicar, com transparência, todo o ciclo nuclear. “Também será necessário combater a desinformação sem minimizar dúvidas legítimas e evitar que a fonte seja transformada em questão exclusivamente partidária”, concluiu.
A pesquisa mostra que o Brasil está entre os países com menor apoio à energia nuclear, enquanto grande parte dos países pesquisados apresenta uma percepção mais favorável. Na sua avaliação, quais fatores explicam essa diferença e por que a fonte ainda enfrenta tanta resistência no país?
O estudo não identifica diretamente as causas, mas o resultado pode ser explicado pela percepção de que o Brasil já dispõe de abundantes fontes renováveis, pelo baixo conhecimento sobre o papel sistêmico da geração nuclear e pela associação histórica com acidentes, rejeitos e armas. Os atrasos, custos e problemas de governança de Angra 3 também contaminam a imagem da tecnologia. No país, o apoio é de 29%, diante de 40% de oposição.
O estudo aponta que 88% dos brasileiros demonstram preocupação com a segurança das usinas nucleares. Como o setor pode contribuir para reduzir essa percepção? Houve avanços tecnológicos e regulatórios que ainda são pouco conhecidos pela população?
O setor deve comunicar resultados verificáveis: indicadores operacionais, inspeções, monitoração ambiental, exercícios de emergência e avaliações independentes. Houve avanços pouco conhecidos, como sistemas passivos, maior redundância, proteção contra eventos externos, aprimoramento da gestão de acidentes severos e maior independência regulatória. O objetivo não deve ser negar os riscos, mas demonstrar como são prevenidos, fiscalizados e mitigados.
O Brasil discute a retomada de Angra 3 e também avalia o papel de novas tecnologias, como os pequenos reatores modulares (SMRs). Uma percepção pública desfavorável pode dificultar a implementação desses projetos ou influenciar futuras decisões de investimento e políticas públicas para o setor?

Angra 3: obra se arrasta há décadas e ainda está sem definição sobre sua continuidade
Sim. A rejeição pública amplia riscos políticos, financeiros e regulatórios, podendo afetar licenciamento, financiamento, tarifas e continuidade entre governos. Em Angra 3, novos atrasos ou aumentos de custos reforçariam a resistência; nos SMRs, a aceitação social deverá ser construída antes da definição dos locais e modelos de implantação.
O cenário mostrado na pesquisa revela uma falha de comunicação do setor ou também é consequência da forma como a energia nuclear foi debatida publicamente nas últimas décadas?
Dos dois fatores. O setor tradicionalmente adotou uma comunicação excessivamente técnica e reativa, enquanto o debate público foi dominado por acidentes, rejeitos, proliferação e custos. Por isso, atributos como baixas emissões, confiabilidade e elevada disponibilidade permanecem pouco reconhecidos. O relatório mostra que apenas 44,9% dos entrevistados identificam corretamente a nuclear como fonte de baixa emissão.
Quais serão, na sua visão, os principais desafios para construir uma confiança mais sólida da sociedade brasileira na energia nuclear?
Os principais desafios são entregar projetos dentro de custos e prazos confiáveis, manter elevado desempenho operacional, assegurar regulação independente e comunicar com transparência todo o ciclo nuclear. Também será necessário combater a desinformação sem minimizar dúvidas legítimas e evitar que a fonte seja transformada em questão exclusivamente partidária.
O novo contexto internacional, pautado pela prioridade à segurança energética, tende a mudar a percepção sobre a energia nuclear?
Sim. Segurança energética, descarbonização, eletrificação e crescimento dos data centers aumentam o valor de fontes firmes, previsíveis e disponíveis continuamente. A energia nuclear tende a ser percebida menos como concorrente das renováveis e mais como fonte complementar, capaz de contribuir para a estabilidade e a resiliência dos sistemas elétricos. Essa mudança, porém, dependerá de segurança comprovada, custos previsíveis e boa execução dos projetos.

publicada em 4 de agosto de 2026 às 5:00 




