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AVEVA APONTA QUE DIGITALIZAÇÃO DAS RELAÇÕES ENTRE EMPRESAS SERÁ PRÓXIMO PASSO DA INDÚSTRIA DE ÓLEO E GÁS

A transformação digital da indústria de óleo e gás deverá avançar para além dos sistemas internos das companhias e alcançar as relações entre os diferentes elos da cadeia. Essa é a avaliação do líder do setor de O&G da AVEVA, Joachim Boese, nosso entrevistado desta segunda-feira (28). Segundo ele, a capacidade de produtores, refinarias, fornecedores, operadores logísticos e parceiros tecnológicos compartilharem dados e indicadores será cada vez mais determinante para a resiliência e a agilidade do setor. “Eu acredito que o próximo passo será o da digitalização das relações. A resiliência está deixando de ser uma capacidade exclusivamente interna para se tornar uma característica de toda a rede”, afirmou. Boese também destacou que sistemas operacionais conectados ajudam a preparar melhor as organizações ao estabelecerem uma visão comum dos dados e do desempenho. Como exemplo, citou a ADNOC, que utiliza tecnologias da AVEVA em um centro de visualização de dados em tempo real e totalmente integrado. A estrutura permite obter insights, gerar ganhos de eficiência e identificar novas oportunidades para otimizar as operações.

A indústria do petróleo enfrenta um cenário marcado interrupções nas cadeias de abastecimento que estão gerando oscilações de preços e mudanças na demanda. O que torna o momento atual particularmente desafiador?

A indústria de petróleo está acostumada a lidar com cadeias globais de suprimentos complexas, mas o cenário atual acrescenta um novo grau de imprevisibilidade. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, o fornecimento passou a ser afetado em duas frentes importantes: o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, refinarias e produtores enfrentam gargalos logísticos, custos mais elevados de transporte e sinais de enfraquecimento da demanda, porque preços de energia elevados por períodos prolongados acabam reduzindo o consumo.

Isso significa que, hoje, tanto a oferta quanto a demanda podem mudar rapidamente. Uma decisão política, um ataque militar ou uma nova sanção pode alterar, em poucas horas, a disponibilidade de petróleo, as rotas marítimas e as condições comerciais.

Como a tecnologia pode ajudar as empresas a tomarem decisões mais seguras em ambiente tão voláteis?

Trata-se de uma questão estratégica na qual cada dado conta. Isso significa que informações de fornecedores, operadores logísticos, equipes operacionais, mercados e clientes precisam ser analisadas de forma integrada. Caso a empresa tenha uma visão operacional completa e atualizada continuamente, ela será capaz de prever, avaliar e responder com maior precisão às mudanças do mercado.

Nos cinco meses posteriores ao início do conflito, por exemplo, o petróleo Brent chegou a oscilar entre aproximadamente 6% abaixo do nível anterior à guerra e quase 50% acima desse patamar. Essa volatilidade representa um risco, mas também pode criar oportunidades. Um aumento repentino do preço pode abrir uma janela curta para ampliar margens. Empresas que trabalham com dados conectados conseguem rever planos de produção, ajustar operações e redirecionar carregamentos com rapidez, transformando a turbulência do mercado em vantagem competitiva.

Eficiência e redução de custos continuam sendo os principais diferenciais competitivos do setor?

Esses objetivos permanecem fundamentais nessa indústria, mas já não são suficientes. Resiliência e agilidade tornaram-se fatores decisivos para diferenciar o desempenho das organizações.

Costumo recorrer a uma analogia marítima para tentar explicar isso. Todos navegamos durante a mesma tempestade, mas algumas empresas estão em cargueiros bem equipados, enquanto outras estão em embarcações mais vulneráveis. As condições externas são semelhantes; o que muda é a capacidade de resistir e reagir.

Sistemas operacionais conectados ajudam a construir uma organização mais preparada porque estabelecem uma visão comum dos dados e do desempenho. Isso exige olhar além dos limites de uma única empresa e considerar todas as organizações envolvidas no percurso de um barril de petróleo, da produção e do transporte ao refino e à comercialização.

Como a Inteligência Artificial está sendo aplicada na indústria de O&G?

A Inteligência Artificial amplia significativamente a capacidade de avaliar cenários complexos. As refinarias processam misturas de petróleos provenientes de diferentes regiões, cada uma com propriedades físicas e características específicas. O petróleo do Texas se comporta de maneira diferente do saudita; o saudita difere do produzido em Abu Dhabi; e o venezuelano apresenta outras particularidades.

Historicamente, as equipes de engenharia analisavam manualmente um número limitado de cenários. Agora, sistemas impulsionados por IA conectados podem avaliar simultaneamente milhares de combinações, considerando preços do petróleo e dos derivados, custos de eletricidade, restrições operacionais e demanda dos mercados regionais. Com isso, é possível identificar, praticamente em tempo real, a combinação com maior potencial de rentabilidade.

Essa capacidade é especialmente importante na chamada era da “permacrise”, na qual diferentes interrupções podem ocorrer ou se sobrepor ao mesmo tempo.

Já existem resultados concretos que demonstrem o valor das operações conectadas?

A Abu Dhabi National Oil Company, a ADNOC, oferece um exemplo importante. A companhia integrou dados de ativos de produção, oleodutos, terminais e equipes operacionais em um ambiente compartilhado. A plataforma reúne mais de 10 milhões de tags de dados, distribuídas por mais de 120 dashboards, oferecendo aos tomadores de decisão uma visão operacional unificada do negócio. O sistema gera entre US$ 60 milhões e US$ 100 milhões em economia por meio da otimização das operações de 14 subsidiárias, além de permitir respostas mais rápidas às mudanças do mercado e das cadeias de suprimentos.

Em escala mais ampla, uma análise da McKinsey sobre a Global Lighthouse Network, do Fórum Econômico Mundial, mostrou que organizações que conectaram digitalmente fornecedores, operações e clientes tiveram impacto sobre as receitas oito vezes menor após a pandemia do que seus pares. Essas empresas também conseguiram introduzir novos produtos 50% mais rapidamente.

Na sua opinião, qual ser será, então, a próxima etapa da transformação digital?

Na última década, grande parte do esforço do setor esteve concentrada na digitalização dos ativos industriais. Eu acredito que o próximo passo será o da digitalização das relações. A resiliência está deixando de ser uma capacidade exclusivamente interna para se tornar uma característica de toda a rede.

Isso significa que a vantagem competitiva dependerá cada, vez mais, da capacidade de produtores, refinarias, fornecedores, operadores logísticos e parceiros tecnológicos trabalharem a partir de uma visão compartilhada dos dados e do desempenho.

Conectar equipamentos e processos continuará sendo essencial, mas as empresas mais preparadas serão aquelas capazes de conectar também as organizações e as pessoas que participam de toda a cadeia de valor.

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