ROSATOM INVESTE NAS ÁREAS DE PESQUISA E MEDICINA NUCLEAR ENQUANTO AGUARDA DEFINIÇÃO DE ANGRA 3

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) –

Foto Davi de Souza/Petronotícias

Ivan Dybov, presidente da Rosatom América Latina

O mercado de geração de energia nuclear brasileiro desperta, e muito, o interesse da empresa russa Rosatom. Mesmo com a indefinição do reinício da construção de Angra 3, a companhia assinou recentemente um memorando de entendimento com a Eletronuclear, no qual foram definidos os pontos onde os russos podem cooperar com a estatal brasileira no uso pacífico da energia nuclear. Resta agora o governo brasileiro decidir pela retomada das obras. Nesse compasso de espera, os serviços de manutenção da estrutura já construída de Angra 3, executados pela EBE, foram elogiados pela empresa. “Tivemos especialistas nossos que visitaram Angra 3 e eles ficaram impressionados com o nível de conservação do equipamento que está lá. Eles disseram que nunca viram algo parecido no mundo”, acrescentou o presidente da Rosatom na América Latina, Ivan Dybov.

Além disso, o executivo explicou que há o interesse, por parte do Brasil, nos serviços que a companhia oferece para prolongar a vida útil das estações nucleares já existentes. Enquanto o setor de geração nuclear segue à espera de decisões, a Rosatom está expandindo seus negócios na área de pesquisa e medicina nuclear. No Brasil, a empresa deve assinar um acordo para desenvolvimento de um centro de radiologia e radiação. Na Bolívia, a companhia vai construir um centro de pesquisa na área nuclear, com investimentos de US$ 300 milhões. E em busca de diversificação de negócios, a Rosatom está investindo no setor de energia eólica na Rússia, com a ambição de se tornar líder no segmento naquele país.

Poderia detalhar um pouco como andam as buscas por novos negócios na América Latina?

Nós tentamos encontrar novas opções de negócios. Organizamos reuniões com outras empresas da Rosatom. E as companhias do grupo, de forma independente, acabam assinando acordos com empresas brasileiras. Nós também fazemos pesquisa de marketing sobre novos produtos que a Rosatom poderia introduzir no mercado da América Latina. Promovemos os produtos da companhia, organizando conferências e eventos na área de educação e pesquisa.

Qual o balanço do ano de 2017?

Este foi um ano de sucesso. Nós nos orgulhamos pelo fato do Brasil ser o principal parceiro para onde importamos nossa produção de isótopos. Estamos muito felizes de estar contribuindo com o combate ao câncer, tornando mais acessível a medicina nuclear. Esse é o nosso negócio principal atualmente. Nós sabemos que o Brasil tem planos de desenvolvimento de medicina nuclear e de ampliar o acesso da população a este tipo de tratamento. Por isso, estamos enxergando várias perspectivas de exportar isótopos, não só os tradicionais, mas os novos – iodo e molibdênio.

Quais foram os principais negócios da Rosatom no Brasil?

Como vocês sabem, nossa empresa ganhou uma licitação de fornecimento de urânio para o Brasil. Estamos concluindo o contrato com sucesso. E pretendemos participar de outras licitações para fornecimento de produtos e de urânio. Também é de conhecimento de todos que assinamos um memorando de entendimento com a Eletronuclear. Demoramos bastante tempo elaborando este documento. O principal fator neste memorando foi ter definido os principais pontos nos quais vamos tentar cooperar. Vamos fazer grupos de trabalho específicos que vão tentar buscar, dentro destes vetores, oportunidades concretas de negócios.

Foram estabelecidos prazos para os grupos de trabalho entregarem resultados?

Não estabelecemos nenhum prazo concreto. Mas temos uma relação de trabalho muito boa com a Eletronuclear. Se houver algum projeto com perspectivas, será realizado com bastante velocidade.

Quais são as perspectivas da empresa no Brasil?

Por exemplo, a parte brasileira se interessa muito pela experiência da Rosatom em oferecer serviços de prolongar a vida útil das estações nucleares. Estamos prontos para compartilhar estas experiências. Outro projeto deste ano trata da construção de um centro de radiologia e radiação, provavelmente em São Paulo. O acordo foi fechado com a CK3. O principal objetivo é a esterilização de material médico. Fechamos um memorando de entendimento no ano passado, e em 2017 trabalhamos ativamente em um modelo de negócio e design do projeto do centro. Planejamos assinar em breve o acordo de desenvolvimento do empreendimento.

E como andam os negócios da Rosatom nos demais países da América Latina?

Além do Brasil, nós assinamos um contrato para formação de um centro de pesquisa na área nuclear na Bolívia. É outro grande projeto para nós dentro da América Latina. O investimento é de US$ 300 milhões, com financiamento totalmente feito pela parte boliviana. Não excluímos a possibilidade, no âmbito da nossa cooperação com empresas brasileiras, de trazê-las para dentro deste empreendimento. Pode ser na área de treino e capacitação de pessoal para trabalhar neste centro de pesquisa, já que o Brasil possui grande experiência nessa área. Ou seja, não estamos fazendo negócios apenas no Brasil, mas temos a intenção de trazer empresas daqui para cooperarem em projetos em outros países.

Existe a intenção de desenvolver um centro de pesquisa também no Brasil?

Nós estamos prontos para oferecer nossa experiência nessa área no Brasil, porque sabemos que o País está planejando construir um reator de pesquisa. No âmbito da Comissão Intergovernamental que aconteceu este ano, a parte brasileira demonstrou interesse em obter algum tipo de tecnologia necessária para a construção deste reator. O Brasil e a América Latina são regiões únicas para nós porque trabalhamos menos na área de energia nuclear e mais na área de medicina.

Mas a Rosatom tem o interesse em ampliar sua presença na parte de geração nuclear?

Os planos existem, mas às vezes não dependem de nós e sim dos clientes. O Brasil tem planos de desenvolver essa área de energia nuclear. Também estamos realizando negociações com a Argentina. Sabemos ainda que o México tem intenção de construir novas usinas e queremos oferecer nossa tecnologia.

Quais são as perspectivas com a retomada das obras de Angra 3?

Nós sabemos que a Eletronuclear está fazendo um trabalho de uma forma muito ativa, tentando produzir um modelo de negócio para a conclusão de Angra 3. E estamos aguardando essas decisões para analisar. A Eletronuclear, de ponto de vista técnico, fez um trabalho muito sério. Tivemos especialistas nossos que visitaram Angra 3 e eles ficaram impressionados com o nível de conservação do equipamento que está lá. Eles disseram que nunca viram algo parecido no mundo. O projeto está pronto para ser realizado, mas para isso é necessário estabelecer um modelo de negócio. Isso não depende de nós, estamos aguardando as decisões.

Como a energia nuclear irá se posicionar no mundo frente às fontes alternativas?

A energia nuclear precisa fazer parte do sistema energético de grandes países. Não consideramos que a nuclear entra em conflito com fontes alternativas de energia. A fonte nuclear oferece um base estável de fornecimento de energia, em torno da qual é possível implementar outros tipos de fontes. Já temos o projeto que envolve a construção paralela de usinas eólica e nuclear. A Rosatom começou, no ano passado, a entrar no setor de energia eólica. Por enquanto, estamos nos concentrando na Rússia, onde a empresa será a maior dentro do setor de energia a partir dos ventos. Mas não excluímos a possibilidade de seguir desenvolvendo e segmento em outros países. Só que este mercado na América Latina tem uma concorrência muito grande.

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