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BRA APONTA PARA CRISE DE CREDIBILIDADE NO SETOR DE CERTIFICAÇÃO NO BRASIL

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) –

0Em tempos de Lava Jato, a palavra compliance se tornou rotineira dentro do ambiente das empresas. Todos querem evitar os problemas e estragos que a corrupção pode trazer. No entanto, membros que vivem o dia a dia do setor de certificação de conformidade apontam para um crise de credibilidade. É o que afirma o diretor-executivo da BRA Certificadora, Tiago Martins, que detalhou diversos problemas existentes hoje no segmento. O executivo explicou que uma das inconsistências se refere ao fato de que muitas empresas de amplitude nacional anunciam ter conquistado uma certificação antissuborno quando, na verdade, apenas uma unidade estadual desta companhia foi certificada. “Hoje existe uma dúvida se um sistema de gestão foi implantando dentro de uma empresa como uma solução de continuidade que vai agregar valor à organização ou se é simplesmente um sistema para obter apenas um certificado”, ponderou.

Enquanto isso, buscando fugir deste cenário, a BRA está apostando em um plano de ação diferenciado. “Estrategicamente, a BRA quer atuar como uma certificadora premium. Não temos intenção de trabalhar em escala, competindo com um mercado desses, com baixa credibilidade”, afirmou o executivo. A certificadora já está obtendo sua acreditação no Inmetro para trabalhar com a norma antissuborno ISO 37001, além de investir fortemente em seu próprio programa completo de certificação anticorrupção.

Como avalia o mercado de certificações e a eficiência delas atualmente?

Existem as certificações compulsórias e as voluntárias – dentre estas, as mais conhecidas são as certificações de sistemas de gestão como a própria ISO 9001. O que está acontecendo é que no Brasil, especificamente, por diversas razões, há uma crise de credibilidade destas certificações. Primeiro porque o modelo de certificação ISO – especificamente a 9001 – visa a melhoria de processos e o estabelecimento de mecanismos de melhoria contínua de processos, otimização de recursos e, consequentemente, atingir o objetivo final que é buscar a satisfação plena ou o incremento progressivo da satisfação dos clientes.

A percepção de quem está no mercado é que existe uma queda de credibilidade em relação ao que a certificação está sendo capaz de traduzir e transmitir ao mercado. Mas que fique claro que essa queda de credibilidade não está se referindo aos sistemas de gestão bem implantados. Hoje existe uma dúvida se um sistema de gestão foi implantando dentro de uma empresa como uma solução de continuidade que vai agregar valor à organização ou se é simplesmente um sistema para obter apenas um certificado. O fato de ter a certificação não significa uma garantia de qualidade e eficácia. Na minha opinião, a certificação perdeu ao longo do tempo a capacidade de se traduzir como elemento balizador e referencial de que realmente algo foi implementado como solução de continuidade nas organizações.

Ao que atribui isto?

Existem alguns fatores. Um deles é a qualificação da nossa mão de obra e de quem realiza as auditorias. Existe também uma inversão das organizações e empresas do Brasil quanto ao significado e objetivo real da certificação, que precisa ser uma consequência natural. Ela não tem que ser  o objetivo. A certificação, na verdade, precisa ser algo balizador. Mas o que acontece hoje é que as companhias estão preparando o sistema de gestão não preocupadas com os benefícios em termos de organização, e sim em obter o certificado. 

Por outro lado, a quantidade de certificadores que temos hoje ancorados por esta condição, faz com que exista uma mercantilização. Se a certificadora for muito rígida e o cliente tem por objetivo apenas a certificação e não a melhoria dos processos, ele já exclui aquela certificadora. Em contrapartida, existem as certificadoras que não necessariamente afrouxem a avaliação, mas, logicamente, os requisitos de avaliação são interpretativos. Então, alguns auditores podem entender que determinado ponto atende ao requisito da norma, quando na verdade sabemos que uma análise mais profunda revela pendências. 

Quais são as consequências desta tendência para o mercado?

É uma perda total de credibilidade. O exemplo prático disto é a própria Petrobrás. Ela exige que as fornecedoras tenha a certificação. Isto é um dos quesitos. E depois a estatal começa a incluir outros quesitos que, nada mais são do que os próprios pontos que a norma pede. Então, o fato da empresa estar certificada, para a Petrobrás, representa apenas uma parte do que ela quer enxergar. A estatal mesmo se propõe a verificar, por conta própria, se certos requisitos estão sendo cumpridos. Mas, na verdade, a própria certificação deveria trazer esta certeza.

E qual será o futuro do mercado de certificações, tendo em vista novos negócios especialmente dentro da área de compliance?

Em relação ao mercado geral de certificação, há naturalmente uma expectativa de crescimento. É uma área que se relaciona muito diretamente com a própria economia. Quanto mais empresas no mercado, há maior procura e interesse em participação em processos de seleção. Por isso, as companhias começam a se sentir pressionadas pelos grandes cadastros corporativos. O que é ruim, porque esta pressão não pode ser assim. O objetivo, como mencionei, deve ser implantar uma gestão que melhore a eficiência, rentabilidade e competitividade. A perspectiva é de crescimento, mas infelizmente não da forma como acredito que deveria ser. Mas é lógico que ainda existem empresas que entendem a filosofia de melhorar o sistema de gestão e a certificação como consequência natural disto. Porém, muitas companhias estão preocupadas apenas com o certificado. 

Sobre o compliance, é também um mercado com potencial muito grande. Hoje, já se configura com crescimento. Os players já estão colocados. A questão é que atualmente, no Brasil, existe uma super valorização e uma tendência natural de que a certificação precisa ser ISO. E começa uma grande uma confusão. Na verdade, a ISO não certifica ninguém. A ISO é uma instituição que publica normas de conformidade. E cada país membro da ISO adere a estas normas. A certificação é feita pelas empresas certificadoras, que são acreditadas pelo Inmetro e, consequentemente, seguem ou não a norma de sistema de gestão publicada pela ISO – que é uma instituição de muita história e qualidade. 

O que temos em termos de novidade dentro da área de compliance?

A ISO publicou, em 2016, a norma ISO 37001, que trata dos sistemas de gestão antissuborno. Esta norma é interessante, mas que se atem exclusivamente ao delito suborno. Ela declara em seu conteúdo que não trata dos riscos relacionados, por exemplo, à lavagem de dinheiro, fraudes em licitações e outros tipos de corrupção.

Outro aspecto importante das certificações de compliance é que se realmente seguirmos o modelo ISO de certificação, existe uma expectativa de que aquilo que se espera em termos de efetividade e credibilidade na certificação pode ficar comprometida. Isso porque muitas certificadoras estão preparando certificadores que até pouco tempo auditavam gestão de qualidade e que passaram a ser auditores de sistema de gestão de suborno. Isso é um problema, porque se o auditor não conhece todos os pontos da lei anticorrupção do Brasil e de outros países, ele ficará sem saber como tratar os riscos.

Que outros problemas existem neste segmento de compliance?

Vamos a um exemplo. Uma empresa quer certificar o sistema de qualidade em sua fábrica no Maranhão, mas esta companhia também tem escritórios em outros estados. Neste caso, não tem sentido buscar certificação em seus escritórios de representação. Porque o processo principal dela está na indústria. Mas quando falamos de compliance, corrupção e suborno, não faz sentido para uma empresa ter certificação escalonada. Dependendo do que é feito em uma unidade da empresa, dois ou três funcionários podem produzir um estrago gigantesco se fizerem uma negociação corrupta. Acontece que muitas companhias, presentes em todo o território, só conseguem certificação de compliance em uma unidade. A informação vai para o mercado dizendo que a empresa X conseguiu a certificação 37001. Isso é mais um fator importante. Por isso que na BRA optamos por desenvolver uma solução diferenciada para atender este tipo de situação. Criar uma certificação muito superior a esta. 

Como a BRA se posiciona diante desta situação do mercado de certificação?

Estrategicamente, a BRA quer atuar como uma certificadora premium. Não temos intenção de trabalhar em escala, competindo com um mercado desses, com baixa credibilidade. Especificamente na ISO 37001, estamos obtendo acreditação no Inmetro para trabalhar com esta certificação, porque se tornou estratégico para BRA ter isto em seu portfólio. Já temos nosso próprio programa de certificação de anticorrupção, nosso produto principal no mercado de compliance. Porém, teremos a 37001 em nosso escopo, mas vamos seguir nossa metodologia de avaliação, respeitando todas as normas. Tentaremos trazer para a certificação da ISO 37001 toda a expertise que temos sobre lei para ajudar as empresas a tornar este certificado valoroso. 

Estamos realizando nossos próprios treinamentos para formar nossos avaliadores. Queremos ter um diferencial para nosso programa e também para fazermos a ISO 37001. Mas vamos trabalhar com a 37001 de forma que não fiquemos no lugar comum. Isso para nós é fundamental.

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Esse assunto aqui enfocado é interessante, porque aborda a questão da credibilidade e o compliance dentro das empresas brasileiras. Em primeiro lugar, vejo que a onda de certificação ISO tomou conta do mercado nos anos 80 e seguintes, porque todos queriam ser certificados ISO sem, no entanto, fazerem jus ao certificado, exatamente porque não davam continuidade à busca incessante da melhoria dos seus processos fabris e o seu controle efetivo, resultando na perda da credibilidade pelos seus clientes. Foi uma febre contraída pelas grandes empresas que acabou se transformando em doença crônica, pois não se vê hoje uma empresa que… Read more »