ELETRONUCLEAR APRESENTA AO MERCADO MODELOS DE NEGÓCIO PARA RETOMADA DE ANGRA 3

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) –

Foto Roberto TravassosA despeito dos problemas que impedem a retomada das obras de Angra 3, o mercado internacional está com os olhos atentos para o futuro da geração nuclear no Brasil. Enquanto aguarda definições, a Eletronuclear segue fazendo seu papel, desenvolvendo a modelagem para uma parceria internacional que viabilize o empreendimento. “Estamos fazendo o uso de consultoria na área legal e societária para atender a todos os requisitos legais e fundamentais numa parceria desta natureza”, detalhou o Assistente da Diretoria Técnica da Eletronuclear, Roberto Cardoso Travassos. Durante o evento internacional “The World Nuclear Industry Today”, o executivo apresentou ao mercado as soluções que a empresa tem elaborado para andar novamente com o projeto.

Embora o governo não tenha batido o martelo sobre o reinício das obras de Angra 3 e definido a construção de novas usinas, o executivo afirma que as empresas internacionais consultadas estão interessadas em participar dos possíveis projetos vindouros. “Todos estes parceiros, de uma maneira geral, têm uma visão de futuro e querem participar das próximas usinas nucleares”, disse.

Existe um entendimento geral no meio da indústria nuclear de que a principal razão para a paralisação momentânea da construção de Angra 3 foi motivada pela incapacidade da Eletronuclear alocar a parcela de 20% (posteriormente elevada para 40%) como contrapartida de Capital Próprio exigível pelo Contrato de Financiamento de Angra 3 junto ao BNDES. Essa incapacidade se deu devido à expressiva redução de poder de investimento da Eletrobrás a partir de 2012, em razão da edição da MP 579/12 (convertida na Lei 12.783/13). Desta forma, a situação financeira da Eletronuclear passou a ser mais difícil. Contudo, se tirarmos os efeitos do financiamento de Angra 3, a empresa tem uma saúde financeira bem sólida. Por isso, a companhia espera agora por uma definição também sobre a revisão do valor de tarifa, o que lhe dará um novo patamar econômico. “[O aumento da] tarifa é condição sine qua non para retomar o empreendimento. A tarifa hoje estabelecida pelo contrato com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) não garante a viabilidade da usina [de Angra 3]”, concluiu Travassos.

O senhor poderia detalhar como está sendo feito o processo de modelagem econômica de Angra 3?

O modelo de negócio está sendo adequado em virtude das dificuldades da Eletronuclear, da Eletrobrás e do próprio governo para alocar os recursos necessários para completar a obra. Os estudos são desenvolvidos no sentido de encontrar um parceiro internacional que possa trazer esse capital. Obviamente existem alguns requisitos para que esse parceiro entre no negócio. São quatro: que o parceiro tenha experiência em projeto, construção, comissionamento e operação de usinas nucleares; acesso a linha de financiamento e recursos para alocar no empreendimento; capacidade em projetar, construir e gerenciar construção em usinas; e o capital dele seria integralizado de forma parcial ao longo do período de construção e montagem eletromecânica. A Eletronuclear vem conversando com os principais parceiros do mercado internacional que reúnem essas qualidades. 

Fale um pouco sobre os parceiros. Quem são atualmente e em que fase estão as conversas?

São dois grupos chineses, a CNNC e a SNPTC; a francesa EDF em parceria com a japonesa Mitsubishi; a sul-coreana Kepco; e a russa Rosatom. Todos essas empresas reúnem essas quatro pré-requisitos para completar  a construção de Angra 3. Em linha gerais, estamos mantendo contato com esses parceiros.

Também estamos fazendo o uso de consultoria na área legal e societária para atender a todos os requisitos legais e fundamentais numa parceria desta natureza. Estamos trabalhando com companhias de notório saber em termos de como esse [modelo de] negócio funcionaria. São, basicamente, empresas de consultoria que estão nos ajudando a montar esse arcabouço para esse parceria.

Em relação à esfera política e também às conversas com a Eletrobrás, como está a questão da retomada?

Temos conversando com a holding Eletrobrás e o Ministério de Minas e Energia, que sinalizam que podemos ir em frente, nestas conversas preliminares. A ideia é que façamos uma chamada pública. Em nível de governo, ela teria que ter um acordo internacional  entre o Brasil e o país selecionado. A partir de então, poderíamos ter a retomada de empreendimento. Falta ainda a decisão do governo de reiniciar as obras.

Como seria a participação do governo dentro da modelagem do negócio?

Nós estamos trabalhando com  a possibilidade do governo brasileiro aportar recursos. A Eletronuclear já tem investimentos da ordem de R$ 6,6 bilhões em Angra 3. Temos 67% das obras do empreendimento global já alcançados, o que inclui construção civil, suprimento de equipamentos importados e nacionais, projeto de engenharia e toda parte de licenciamento.

Como seria a divisão de responsabilidades entre a Eletronuclear e seu parceiro?

Dentro deste modelo, a Eletronuclear seria a responsável pela operação da usina e pela obtenção de licenças ambientais e nuclear. A empresa também faria a aquisição de combustível. Já o parceiro ficaria com a montagem, término de obras civis, montagem eletromecânica e aquisição de equipamentos. Já temos os contratos assinados para os principais equipamentos da ilha nuclear e outros de grande porte. O que falta é uma parcela pequena. Então, o parceiro viria com as seguintes incumbências:  término do projeto de detalhamento, aquisições no mercado internacional e nacional, término da constrição civil, comissionamento e montagem eletromecânica da planta.

O que ainda falta dentro do projeto de detalhamento?

Ele está bastante adiantado. Falta pouca coisa, mas ainda temos lacunas. Os contratos de engenharia de detalhamento que tínhamos foram cancelados por questões comerciais. Então, temos duas opções: a própria parceira terminar o projeto ou contratar empresas internacionais de engenharia para fazer esse detalhamento. Em ambas as opções, a Eletronuclear participará do processo.

Gostaria que o senhor falasse da importância de se aumentar o valor da tarifa de Angra 3 para viabilizar o projeto.

[O aumento da] tarifa é condição sine qua non para retomar o empreendimento. A tarifa hoje estabelecida pelo contrato com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) não garante a viabilidade da usina. Com essa paralisação por atraso na obra, esta tarifa não garante rentabilidade e torna pouquíssimo atrativo o empreendimento para um parceiro internacional. O aumento da tarifa, além de aumentar a atratividade, vai permitir que a Eletronuclear sente com os bancos para renegociar os nossos contratos de financiamento. 

A adequação da tarifa de Angra 3 em patamares mais realistas, além de conduzir a rentabilidade do empreendimento para um patamar adequado, retomando sua viabilidade, permitirá que à Eletronuclear renegociar os atuais contratos de financiamento ou mesmo buscar novas linhas de financiamento.

Nós estamos aguardando a emissão do Plano Nacional de Energia 2050, com todo o planejamento do setor elétrico brasileiro. Muito provavelmente, ele contemplará a construção de novas usinas nucleares. Todos estes parceiros, de uma maneira geral, têm uma visão de futuro e querem participar das próximas usinas nucleares.

Estas novas usinas seriam construídas com a mesma modelagem econômica de Angra 3?

Essa decisão não está tomada pelo governo, mas caso seja decidido, há forte possibilidade de que sejam construídas desta mesma maneira. 

Dentre as empresas que estão em negociação, existe alguma com conversas mais avançadas?

Todas estão no mesmo nível. Estamos passando todas as informações aos interessados e todos estão muito atentos. Seja para fazer parceria com Angra 3 e também para deixar uma porta aberta de entrada para possíveis novas usinas nucleares no Brasil. A única empresa que praticamente declinou foi a Kepco, em função de carteira de construções bastante cheia.

Qual cronograma ideal de retomada de obras?

Nosso grande objetivo é que a usina entre em operação em janeiro de 2025. Até dezembro de 2019, queremos ter o contrato assinado com o parceiro. E em meados de 2020 que retomemos as obras civis.

O processo decisório para retomar a construção é muito importante. Quanto maior o tempo para tomar esta decisão, maiores serão os custos de preservação de equipamentos, componentes e estruturas civis edificadas. A Eletronuclear já faz hoje investimentos para preservação destas estruturas. Quanto maior o tempo de parada da obra, maiores os juros de construção. Também serão mais elevados os custos de preservação de equipamentos. Com isso, o investimento necessário para completar a obra sobe. Desta forma, o valor da tarifa terá que ser maior para dar uma rentabilidade atrativa para um parceiro internacional.

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