TRÊS ANOS APÓS TRAGÉDIA EM MARIANA, AÇÕES VOLTADAS AOS ATINGIDOS AINDA ESTÃO AQUÉM DO ESPERADO

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) – 

cristina serraNesta semana, o rompimento da barragem da Samarco em Minas Gerais completou três anos. Foi uma tragédia que não marcou apenas a história do Brasil, mas deixou cicatrizes muito mais profundas no meio ambiente, na geografia dos municípios afetados e, principalmente, na vida das pessoas atingidas. Devido à complexidade do tema e em busca de respostas sobre o acidente, a jornalista e escritora Cristina Serra – que participou da cobertura do incidente – escreveu o livro “Tragédia em Mariana”, que será lançado nesta terça-feira (6), no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, às 19h. Depois de presenciar bem de perto o drama das famílias prejudicadas, Cristina avalia que mesmo tanto tempo após a tragédia, as ações de reparo ainda estão muito abaixo do esperado. Ela lembra que as donas da Samarco são a Vale e BHP, companhias que constroem complexos mineradores gigantescos, mas que até agora não reconstruíram o município de Bento Ribeiro (MG), por exemplo. “Se as empresas dão conta dessas operações, qual é a dificuldade de construir um povoado para cerca de 600 moradores, algo em torno de 200 casas?”, questionou.

Quando e como surgiu a ideia de escrever o livro sobre o acidente da Samarco?

Eu cheguei alguns dias depois do desastre. A cobertura começou a ser feita pela Globo Minas, que tem uma equipe grande. Mas como a coisa foi se avolumando, eles mandaram mais repórteres. Eu fui enviada para fazer cobertura para o Fantástico. Passei o Natal de 2015 com algumas famílias atingidas. Uma de Bento Rodrigues e outra de Paracatu de Baixo. Quando eu estava lá, as investigações estavam começando também. Comecei a receber as primeiras informações, conversando com os investigadores, de que havia elementos que indicavam, no mínimo, negligência na operação da barragem. Quando voltei para preparar essa matéria, fui juntando os pontos e percebi que esse caso tinha uma abordagem muito trágica.

Os povoados devastados tiveram desfeitos seus laços comunitários. São famílias que estavam ali há várias gerações. E o acidente teve um impacto psicológico muito grande sobre essas pessoas. Houve muitos casos de depressão. Então, além da abordagem humana muito forte, tem a abordagem ambiental e o aspecto da investigação que indicava que não foi um acidente apenas, mas que havia responsabilidades a serem apuradas. Foi aí que pensei que esse desastre tinha tantos aspectos, que extrapolava a cobertura de imprensa do dia a dia. Quando voltei da viagem, amadureci a ideia e no começo de 2016 já tinha a certeza de que gostaria de fazer o livro. 

Depois de tanto pesquisar sobre o tema, de que forma você acredita que a tragédia poderia ter sido evitada?

Ela poderia ter sido evitada se alguns personagens tivessem dito “não” em determinados momentos. Essa é uma expressão usada por um engenheiro francês que entrevistei, chamado Jean Pierre Remy. Ele foi consultor do Ministério Público Federal neste caso. São várias as razões que explicam esse desastre. Esse acidente é igual a desastre de avião – são vários fatores envolvidos. E como tudo poderia ter sido evitado? Se, em determinado momento, alguém tivesse dito não. 

Os fatores que provocaram o acidente foram se somando ao longo de toda a vida da barragem, desde o processo de licenciamento ambiental. A Samarco obteve as licenças para construir e operar a barragem de Fundão sem ter cumprido uma série de exigências do processo, inclusive algumas de segurança. Mesmo assim, o processo foi correndo, até com uma rapidez atípica para este tipo de empreendimento. Tudo isto está muito bem explicado no livro. Mas, resumindo, o processo foi excepcionalmente rápido e não respeitou as exigências do licenciamento ambiental. As autoridades responsáveis por esse licenciamento foram, no mínimo, lenientes com as exigências do processo.

Durante a construção e operação da barragem, a empresa tomou várias decisões equivocadas. Por exemplo, houve troca de material na construção da barragem. A investigação de tudo o que estou lhe falando consta de milhares de documentos. Houve problema na construção dos drenos da barragem. Eles ficaram entupidos e causaram problemas.

Conforme divulgado pela imprensa, o governo de Minas Gerais ainda não concluiu a investigação sobre as responsabilidades do desastre. Qual o seu sentimento diante disso, já que vivenciou essa tragédia de tão perto?

arton22653Três anos depois, ainda é uma tragédia sem culpados. O processo criminal se arrasta lentamente. Ele está na Justiça Federal, em Ponte Nova (MG), sob cuja jurisdição está Mariana. Apenas um juiz cuida do caso, que é extremamente complexo, com 22 réus e mais de 400 testemunhas. Esse juiz não cuida apenas do processo da Samarco. Portanto, não temos responsáveis para esta tragédia. E são milhares de trabalhadores que até hoje não foram indenizados por suas perdas.

A Samarco prometeu reconstruir os povoados de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, mas até hoje não estão prontos. As pessoas continuam vivendo em Mariana, em um ambiente completamente diferente daquele ao qual foram acostumadas. Eles viviam em um ambiente rural e, de repente, passam para uma cidade, com os impactos psicológicos. Então, três anos depois, vemos que os males desse desastre ainda não foram tratados e consertados. É uma sensação de impunidade muito grande. 

Em que fase está o processo criminal?

Ela ainda está na fase em que será decida se irá a júri popular ou não. Como o Ministério Público denunciou os réus por homicídio doloso, e a Justiça aceitou, então ainda está na etapa de decidir se eles irão a júri popular. Então, é impossível prever um horizonte para o encerramento desse processo e responsabilização de quem deverá ser responsabilizado ou não. 

E que tipo de ações as empresas Vale e BHP (donas da Samarco) tem efetuado?

As ações de recuperação – por força de acordo judicial entre as empresas, o governo federal e os governos de Minas e Espírito Santo – ficaram a cargo da Fundação Renova, que foi criada justamente para dar assistência aos atingidos e fazer a recuperação ambiental. A Samarco, Vale e BHP fazem o aporte financeiro para que a Fundação funcione, mas não são as empresas que estão na linha de frente, tocando as ações. 

A fundação começou a funcionar no segundo semestre de 2016. Mas o que tem sido feito está muito aquém do que poderia ter sido realizado nesses dois anos em que ela está atuando. Quando você pensa que quem financia a Renova são três grandes empresas, duas das maiores mineradoras do mundo, é preciso se perguntar porque não se conseguiu construir a vila de Bento Rodrigues. São companhias que constroem complexos mineradores gigantescos, com operação logística grandiosa – como é o caso da própria Samarco. Se as empresas dão conta dessas operações, qual é a dificuldade de construir um povoado para cerca de 600 moradores, algo em torno de 200 casas? 

As pessoas [atingidas] continuam dispersas nas cidades. É verdade que todas estão acomodadas em boas casas. Eu visitei muitas dessas pessoas. Mas os laços comunitários foram perdidos e não foram recuperados. Eram pessoas que viviam na zona rural, alguns tinham gado, hortas e pomares. Uma queixa muito comum das pessoas que entrevistei em Mariana é que passaram a comprar alimentos em supermercados, algo que elas não estavam acostumadas. Muita coisa que consumiam era cultivada em seus terrenos. As pessoas sentem falta disso. É um impacto secundário. O principal impacto foi a perda dos bens, laços comunitários e de parentes. 

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