CAPACIDADE NUCLEAR NO MUNDO ULTRAPASSOU OS 400 GW E DIRETORA DA WNU VÊ POTENCIAL PARA CRESCER AINDA MAIS

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) – 

Patricia WielandNo Brasil, o setor nuclear teve algumas boas notícias em 2018. A obra de Angra 3 ainda não teve o reinício concretizado, mas já caminhou bastante neste sentido ao longo do ano. Enquanto isso, mundo afora, o avanços foram mais robustos. Para a diretora da World Nuclear University, Patricia Wieland, este foi um ano de importantes conquistas internacionais para o mercado. Uma das mais relevantes foi que a nuclear ultrapassou, pela primeira vez, o nível de 400 GW de capacidade instalada no mundo. “A cada ano, a fonte está aumentando a sua capacidade instalada. Mas precisamos de mais para atender a demanda de energia”, afirmou Patrícia. Ela ainda cita alguns desafios que precisam ser superados para que o setor cresça ainda mais. “Às vezes, um reator já foi aprovado em um país, mas terá que passar pelo mesmo processo de aprovação em outra nação”, explicou.

No Japão, cinco reatores que foram desligados após Fukushima retornaram à operação em 2018 e em 2019 outras 12 unidades devem ser religadas. Em relação ao Brasil, a diretora da WNU mostrou grande expectativa em relação ao evento “World Nuclear Spotlight”, que será realizado em 2019 no Rio de Janeiro e reunirá políticos, membros do futuro governo de Jair Bolsonaro e peritos da área nuclear para discutir soluções para o país.

Como avalia o ano de 2018 para o mercado nuclear no mundo?

Algo que ficou bem patente foi o apoio da IEA (Agência Internacional de Energia) à área nuclear. O próprio diretor-geral da instituição, Fatih Birol, disse que não existe um futuro sustentável se a energia nuclear não for incluída. Isso é um apoio relevante por parte de uma agência que abrange toda a área de energia. Já a Agência Internacional de Energia Atômica sempre foi um pouco mais tímida para fazer a promoção da área nuclear. Mas, pouco a pouco, estão começando a ir por esse caminho. Eles têm um departamento de segurança nuclear e o de energia nuclear. O primeiro não faz nenhum tipo de promoção, mas o segundo está começando a se movimentar neste sentido. É sempre muito difícil trabalhar com comunicação com o público. Mas, aos poucos, a área nuclear está aprendendo.

Tivemos também diversos relatórios que apontaram para a importância da nuclear para um futuro mais sustentável ao longo do ano.

O relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] mostra que a energia nuclear contribui firmemente para um futuro sustentável, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental. Neste ano tivemos também um relatório muito importante do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Cada país usa essas organizações e estes documentos para reforçar a comunicação interna. Mas ainda vemos que temos que trabalhar muito ainda para remover as barreiras que, algumas vezes, são injustas.

Poderia citar uma delas?

O excesso de regulação ou duplicidade de regulação na área nuclear atrapalha. Às vezes, o reator já foi aprovado em um país, mas terá que passar pelo mesmo processo de aprovação em outra nação. Temos muito o que aprender com a área de aviação comercial. Quanto mais trabalharmos nisso, melhor será para a área nuclear. Não podemos ficar apenas repetindo o que esses relatórios mostram, mas também apontar como chegar lá e remover essas barreiras injustas.

Quais foram os fatos mais marcantes?

A energia nuclear ultrapassou, pela primeira vez, o nível de 400 GW elétricos de capacidade instalada. A cada ano, a fonte está aumentando a capacidade instalada. Mas precisamos de mais para atender a demanda de energia. Neste ano, tivemos ainda os primeiros reatores de geração 3+ entrando em operação comercial, na Rússia e na China. Isso foi muito importante.

Tivemos novidades relevantes no Japão também. Cinco reatores voltaram a funcionar. Lembrando que depois do acidente de Fukushima, todos foram desligados e estão sendo realizadas revisões neles. Para o ano que vem, estamos esperando o retorno de mais 12 reatores naquele país. Uma outra coisa fabulosa para o setor nuclear foram dois novos países que começaram a construir seus reatores: Banglandesh e Turquia. Eles se juntarão as 38 nações que já decidiram pela energia nuclear.

E quanto a questão da Alemanha?

Sempre estamos esperando ter novidades da Alemanha. Mas ainda não temos. A Alemanha é rica e pode se dar ao luxo de pagar uma conta de luz muito mais cara. Na verdade, antes de começarem a desligar as usinas, os alemães tinham 25% de energia nuclear. Hoje, são 12%. Os reatores da Alemanha são excelentes, com fator de capacidade muito bom. Realmente é uma pena que eles não levem avante isso. Com essa decisão, não estão melhorando a questão da poluição do ar. O país está se tornando um exemplo que não deve ser seguido, porque paga mais caro pela energia e continua poluindo o ar. Os fatos, ano a ano, comprovam que a energia nuclear é parte da solução.

É interessante notar que o setor nuclear não se coloca como a única solução para a demanda mundial de energia, mas como parte dela.

A nuclear sempre estará pronta para produzir. Eventualmente, você pode ter uma fonte que pode gerar mais barato Mas o absurdo é tentar colocar plantas solares ou fazendas eólicas que ocupem um grande espaço de terra, para gerar muito pouco. Por exemplo, existem lugares que sofrem com tempestades de areia. Eu estive recentemente nos Emirados Árabes e vivenciei uma. Todo o vidro das janelas ficou totalmente coberto por areia. Agora, imagine como deve ser limpar uma fazenda solar, com quilômetros de painéis solares. É o tipo de coisa que a fonte nuclear não passa. Outras fontes estão sujeitas a isso.

Quanto ao Brasil, tivemos o anúncio recente de que o país receberá o Spotlight. Qual sua expectativa?

O Spotlight é um evento da World Nuclear Association. Ele já aconteceu na Indonésia em 2017 e na Polônia este ano. Ele reúne políticos e pessoas que vão tomar decisões na área energética. É muito interessante para esclarecer pontos sobre a nuclear. Peritos do mundo inteiro estarão presentes. Será uma grande oportunidade de ouvir estas palestras em primeira mão. Vamos ver quantas pessoas conseguiremos reunir. Espera-se 150 no primeiro dia. 

No segundo dia, teremos uma reunião fechada com os políticos e presidentes das organizações. Neste encontro, serão discutidos os problemas do Brasil. A WNA ficará aberta para responder perguntas mais específicas a um grupo mais reduzido. A diretora-geral da WNA, Agneta Rising, estará presente. Será um dos maiores eventos. O Brasil tem muita coisa a oferecer. Ele não é só um país que recebe a usina nuclear e opera. É um país que tem todo o ciclo do combustível e tem importantes centros de pesquisa. Várias pessoas daqui atuam como peritos em diversos lugares.

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