PROJETO PERSPECTIVAS 2019 COMEÇA TRAZENDO UMA VISÃO EXTERNA OTIMISTA DO BRASIL NO MERCADO DE ÓLEO E GÁS

Carlos Mastrangelo bDentro do nosso tradicional projeto de Perspectivas para os setores de óleo, gás, energia e defesa, o Petronotícias aproveita a época do ano para ouvir grandes personalidades destes mercados. Buscamos saber a opinião de quem vive e faz o mercado. O empresariado brasileiro tem sido posto à prova a sua capacidade de ser um verdadeiro empresário. Nestes últimos anos, especialmente depois da deflagração da Operação Lava Jato, viver a cada mês com as portas das empresas abertas tem sido uma aventura. Em alguns momentos, pula da categoria aventura para verdadeiras lembranças de um filme de terror. Daqueles que assustam mesmo. Uma grande parte das empresas do setor de óleo e gás, principalmente, não resistiram a pressão e fecharam suas portas, deixando um rastro de dívidas de toda sorte. Muitas outras buscaram a boia da Recuperação Judicial, lutando aqui e ali para poder cumprir. A esperança de um novo governo com as características defendidas pelos que vão ficar à frente do país, traz a esperança de volta. Claro, nada será imediato, mas o empresariado brasileiro vai se sentir como uma Fênix. Como sempre, renascerá.

Para iniciar esse projeto, buscamos uma pessoa, um profissional do setor de óleo e gás, de larga experiência, que há muitos anos vive em Houston, nos Estados Unidos. Uma visão externa de quem também vive o mercado brasileiro, será muito bem vinda. Vamos saber as opiniões e as perspectivas para 2019, na opinião de Carlos Mastrangelo (foto), da Bratecc, a Câmara de Comércio Brasil-Texas:

-Como analisa os acontecimentos de 2018 em seu setor?

A indústria mundial do petróleo passou por momentos críticos nestes últimos anos, mas vemos o momento atual, ou o ano que se encerra, como de superação e recuperação. Importante lembrar que a crise no setor de Óleo e Gás foi mundial, não foi uma exclusividade brasileira. Lógico que houve diversos fatores internos que ajudaram a agravar a crise deste setor no Brasil, mas estes fatores internos estão sendo superados. Portanto, 2018 será visto como um ponto de inflexão para a indústria de O&G. Entretanto, o trauma dos acontecimentos recentes, tanto os internos como osddd externos, deve contribuir para o que chamo de otimismo cauteloso.

Um outro ponto importante de 2018, a grande deflação mundial dos preços praticados em upstream e downstream. Isto contribuiu para a viabilidade econômica dos projetos quando juntamos a isto a recuperação dos preços do petróleo. No Brasil, em alguns segmentos, esta deflação dos preços não se refletiu plenamente em alguns itens críticos como, por exemplo, os FPSOs para o pré-sal, o que caberia uma análise setorial dos motivos. Mantendo este mesmo tópico, um motivo de preocupação seria uma possível inversão dos preços praticados em upstream e downstream, com o aquecimento do mercado. Mas em geral, todos os acontecimentos mostram claramente uma possibilidade de recuperação da indústria de O&G.

Não poderia deixar de destacar o fato mais marcante de 2018 que foi a mensagem do povo brasileiro pela mudança, com a eleição de Jair Bolsonaro como nosso próximo Presidente. Especialmente para este setor de O&G estamos vendo que este novo governo tem tudo a contribuir para a desmistificar o Brasil como um país de grandes riscos para se investir. Chegou a hora do investimento nas atividades produtivas não na especulação bancária dos alto juros como eram usuais no Brasil. Vimos nestes últimos 2 anos mudanças importantes acontecerem nas atividades de E&P. Tanto o Ministério das Minas e Energia como a agência reguladora estabeleceram medidas consistentes para o desenvolvimento das atividades de O&G. Os resultados dos leilões dos blocos exploratórios estão ai para comprovar a grande atratividade dos reservatórios do Pré-Sal. Somente os leilões não são suficientes, mas representam o pontapé  inicial para deslanchar os desenvolvimentos que esperamos.

xcxzUm ponto negativo e preocupante foi a greve dos caminhoneiros e principalmente a forma como o governo federal lidou com a greve, que até certo ponto,  era justa. Foi o resultado do que acredito ser um conflito de comportamento entre uma economia de mercado aberta ainda com os resquícios de um governo intervencionista. Em um mercado de frete muito competitivo, os preços ficam aviltados e o custo do diesel representa uma grande percentagem do custo total dos fretes. Imaginem em fretes de longa distância, vários dias para a entrega, e uma economia aberta permitindo que o preço dos combustíveis flutuem livremente. Isto certamente causou grandes prejuízos aos caminhoneiros. A greve tinha sua razão de ser mas o governo federal trazendo para si a responsabilidade de intervir nos preços praticados não foi uma forma inteligente de garantir a livre concorrência, não foi uma boa sinalização para o mercado.

-Quais seriam as soluções para os problemas que o país atravessa?

Vou iniciar pelo último item, a intervenção governamental nos preços dos combustíveis em função da greve dos caminhoneiros. Sei que nem sempre o que se pratica em outro país se adequa plenamente ao Brasil, as culturas são diferentes, mas somente para dar um exemplo de não intervenção mas sim regulamentação, os preços dos combustíveis flutuam livremente nos Estados Unidos. Algumas vezes podem variar mais de uma vez ao dia. Há muitos anos, igualmente em uma época de grande competitividade no setor e os preços dos combustíveis representando uma grande fração do custo dos fretes, trouxe prejuízos aos caminhoneiros nos ‘long haul’, i.e., fretes de longa distância que culminaram também em uma greve dos caminhoneiros. Ao invés de intervir nos preços praticados, o governo americano simplesmente regulamentou os transportes de longa distância padronizando os contratos com o ‘fuel surcharge’. Portanto, o preço final do frete passaria a sofrer uma variação para mais ou para menos em função da variação do custo do combustível entre a data do contrato e a entrega da mercadoria. Este é apenas um exemplo de um uma forma de um governo não ser intervencionista em uma economia de mercado aberta, mas sim regulamentar a sua atividade. Este mesmo princípio de intervenção mínima poderia ser aplicada em várias outras atividades, especialmente nas atividades de O&G.

Um outro exemplo de mínima intervenção, mas que traga benefícios para o país, estaria na controversa política de conteúdo local. O passado fpso iluminadorecente mostrou o lado ruim da política de conteúdo local, mas lições podem ser aprendidas. Não seria o caso apenas demonizar,  mas  corrigir os erros. Por exemplo, a especificação do produto pode ser mais importante para a competitividade da indústria nacional que propriamente o estabelecimento forçado de uma porcentagem de conteúdo local. Ou ainda, a sincronização dos projetos pode significar muito mais do que um forçado atendimento de um alto conteúdo local durante a terrível onda simultânea de projetos, como foi no passado recente. Imaginem dezenas de projetos sendo sancionados simultaneamente, causando uma onda de choque em todos os segmentos, seguidos de uma fase de total inatividade da indústria em cada segmento. O governo federal teria muito a contribuir com a regulamentação, ao invés de intervenção.

Outros dois itens que poderíamos listar para o futuro poderiam ser: uma possível reanalise do modelo de partilha para o polígono do pré-sal e uma política clara para lidar com o baixíssimo Fator de Recuperação dos campos mais antigos, os chamados campos maduros. Diferente do que se imagina, acelerar o descomissionamento dos poços e áreas, ao invés de prejudicar a extensão da vida do campo, na realidade facilita. Isto porque a extensão da vida dos campos requer novos poços e descomissionamento do que tem que ser descomissionado. Passar o passivo para novas operadoras dificulta a aquisição destes campos maduros,  pois criam riscos desnecessários aos projetos, tanto para as possíveis empresas que se propõe a operar tais campos maduros como para o governo, com os inerentes riscos dos passivos ambientais.

xx-O que espera do Governo Bolsonaro? Está pessimista ou Otimista?

– Nas respostas que dei listei alguns fatores que contribuem para o otimismo, mesmo que seja um otimismo cauteloso. Cabe ao novo governo dar o primeiro passo. As primeiras ações serão cruciais para apontar o norte ao mercado. O sucesso nas reformas fiscais, previdenciárias e tributarias ditarão os próximos anos. Novamente, a mensagem de mudança do povo brasileiro foi muito clara e esperamos que o governo atue em alinhamento com uma economia de mercado contribuindo com a reativação da indústria e consequentemente com a geração de empregos. Esperamos a redução do governo federal na execução de atividades que devem estar nas mãos da iniciativa privada, focando-se apenas na sua regulamentação e concentrando a capacidade de execução nas atividades básicas de saúde, educação e segurança. Na atividade de óleo e gás, muito já foi feito, mas ainda tem muito caminho pela frente. Até agora estamos indo na direção certa

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