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AMAZUL BUSCA CONVÊNIO PARA ATUAR NA EXTENSÃO DE VIDA DE ANGRA 1 E PREVÊ PROJETO DETALHADO DO RMB ATÉ O FIM DO ANO

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) –

zanella_0O setor nuclear tem recebido boas e importantes notícias desde o final do ano passado. Há otimismo no segmento por conta da proximidade da retomada das obras de Angra 3. Além disso, outros empreendimentos desta indústria, igualmente relevantes, estão caminhando. É o caso do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que em 2019 dará alguns passos adiante, conforme revela o diretor-presidente da Amazul, Ney Zanella dos Santos. A empresa, como se sabe, é coexecutora do empreendimento e, em parceria com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e a argentina Invap, está neste momento trabalhando no projeto detalhado do reator, que deve estar concluído até o final do ano. Além disso, Zanella conta que o licenciamento ambiental já está sendo feito. “Para o próximo ano, com o término do projeto detalhado, poderemos partir para o desenvolvimento do reator e as obras civis”, afirmou. O executivo ainda explica que há conversas em andamento para que a Amazul realize um convênio com a Eletronuclear, no sentido de auxiliar no processo de extensão de vida útil de Angra 1. “A Eletronuclear precisará de uma empresa independente para fazer o acompanhamento e avaliação do projeto. Estamos trabalhando neste aspecto”, disse.

O senhor poderia começar fazendo um balanço das operações da empresa no ano de 2018?

No ano de 2018, a Amazul participou ativamente do Programa Nuclear da Marinha. A Amazul também participa do ProSub [Programa de Desenvolvimento de Submarinos]. A empresa trabalha ativamente no programa, que já é exitoso. Tivemos em 2018 o lançamento do primeiro submarino, construído em Itaguaí (RJ). É um projeto francês, mas existe toda uma estrutura de gestão, administração e acompanhamento de projeto, onde a Amazul participa junto com a diretoria geral da Marinha.

Outro balanço muito positivo veio do Programa Nuclear Brasileiro, onde assinamos um convênio com o Ministério da Saúde, que se comprometeu a contribuir com 50% do RMB, o que significa aproximadamente R$ 750 milhões. A Amazul está fazendo o projeto detalhado do RMB. Estamos com um grupo muito forte fazendo o projeto, em parceria com a argentina Invap e com a coordenação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, por intermédio do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN).

Qual a importância do projeto do RMB?

O RMB é um projeto capitaneado pela CNEN. A Invap tem o projeto do núcleo do reator, propriamente dito. A Amazul está fazendo as interfaces desse núcleo com os periféricos de todo o empreendimento. A principal razão do RMB é fazer radiofármacos para o Brasil. Hoje, o país ainda importa 100% desses produtos. Isso porque não temos um reator ativo para fazer a principal substância para produzir o radiofármaco, o molibdênio-99 (Mo-99), que é 100% importado. O propósito do reator é fazer testes de materiais, com bombardeamento de nêutrons, que hoje são feitos no exterior.

Outro propósito está voltado para a área de pesquisa, por isso que o RMB está no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A pesquisa não é só da área nuclear, mas também nas áreas de medicina, materiais e radiação. É um desdobramento impressionante. Por exemplo, as tulipas holandesas saem de seu país de origem e depois de um mês ainda estão bonitas. Os seus fungos são aniquilados com o uso da radiação. Outro exemplo é nosso café, que atualmente é irradiado na Europa e não no Brasil. Então, veja o desdobramento que o RMB pode trazer de benefícios.

Como está o andamento deste projeto?

Esse projeto está com alguns anos. Com essa alavancagem que fizemos com o Ministério da Saúde, que vai bancar 50% do reator, aproximadamente, estamos aplicando diretamente os recursos no projeto e na construção do RMB, sem considerar os periféricos, para que ele possa vir a produzir o principal insumo, que é o radiofármaco.

O projeto detalhado será terminado ao final deste ano e já estamos fazendo o processo de licenciamento. O terreno já existe, foi doado pela Marinha. O governo de São Paulo também desapropriou uma área adjacente. A parte governamental já foi feita. O terreno já está conosco e estamos fazendo o licenciamento ambiental. A Amazul está ajudando nisso.

Para o próximo ano, com o término do projeto detalhado, poderemos partir para a confecção do reator, que será feita em alguma indústria metalúrgica ainda não definida. A previsão de construção do reator seria na faixa de três a quatro anos. No final de 2022 para 2023, estaremos na área final. Mas essa data depende do licenciamento nuclear, que garante a operação segura.

Em quais outros projetos a Amazul está envolvida?

Nosso outro grande projeto chama-se Gestão do Conhecimento. A gestão de conhecimento é o maior projeto que temos para garantir a continuidade e evolução de tudo que fizemos até hoje. Essa gestão segue um modelo bastante consolidado no Brasil, utilizado pela própria Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento. Mas nós temos um viés um pouco mais profundo, seguindo as regras da Agência Internacional de Energia Atômica, da qual o Brasil faz parte.

O conhecimento está na mente dos brasileiros e, por isso, temos que fazer a gestão para que tenhamos um programa de sucessão. Muitos profissionais estão envelhecendo e os novos estão chegando. Assim, dentro deste nosso projeto, conseguimos contratar todos os formandos de engenharia nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Queremos garantir que estes jovens, que estão entrando na carreira, aprendam com os mais experientes.

A gestão de conhecimento não é um processo simples, mas é muito interessante e estamos alcançando êxito. No ano passado, ganhamos um prêmio de referência nacional na Unidade Produtora de Hexafluoreto de Urânio (USEXA), que fica em Iperó (SP). E agora estamos fazendo em outras áreas, como a ambiental e a do ciclo do combustível. 

A Amazul tem buscado a nacionalização de componentes para o Prosub. Poderia detalhar mais sobre esta iniciativa?

O Programa de Submarinos da Marinha envolve uma grande gama de empresas, que estão se capacitando para participar desta empreitada. A ideia é trazer as empresas nacionais com a tecnologia necessária para o programa. Se não for feito desta maneira, será necessário comprar do exterior. Um projeto muito exitoso nessa faixa de nacionalização se refere às baterias, que estão já sendo produzidas no Brasil. A parte de cabos elétricos também, bem como válvulas de casco de submarino.

Agora, o maior projeto de nacionalização será o de motor de polos permanentes, que hoje o Brasil importa 100%. Os carros elétricos utilizam esse motor, que tem uma aplicação muito grande no mercado.

Gostaria que o senhor falasse também de outros projetos da área nuclear que despertam o interesse da Amazul.

Estamos conversando bastante com a Eletronuclear. A Amazul está fazendo um convênio para um projeto muito interessante, que é o de extensão da vida útil da usina Angra 1, que está perto de atingir seus 30 anos. É um projeto americano, que será feito pela empresa americana [Westinghouse]. Mas a Eletronuclear precisará de uma empresa independente para fazer o acompanhamento e avaliação do projeto. Estamos trabalhando neste aspecto.

Estamos também engajados em um projeto com o Ministério da Educação para ajudar a formar as pessoas na área de pós-graduação. Iremos usar os laboratórios existentes. A Marinha, por exemplo, tem 25 deles. Vamos ajudar as instituições, com parcerias com universidades que quiserem capacitar seus mestrandos e doutorandos na área nuclear. Nós faremos esse elo. O modelo ainda está para ser escolhido ao longo desse ano.

E quanto ao Labgene? Quais são as novidades?

Estamos trabalhando ativamente com a Marinha. As obras de engenharia civil devem terminar no fim deste ano. Já está sendo feita a montagem eletromecânica que se refere à parte de propulsão dos testes das turbinas, do motor elétrico e do freio dinamométrico. Quando tudo isto estiver devidamente montado, a ideia é partir para a montagem final do reator. A Marinha acredita que isso deve ocorrer em 2023, a depender de recursos que poderão ser provisionados.

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