DIRETOR DA COMBIO CHAMA A ATENÇÃO DOS DESAFIOS ENERGÉTICOS QUE A NOVA ONDA DO ETANOL TRARÁ PARA O MERCADO
A produção de etanol de milho entra em uma nova fase no Brasil e já está sendo projetada para alcançar 10 bilhões de litros até o fim de 2026, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). O setor vive um ciclo acelerado de expansão que vem redesenhando o mapa industrial do país e mobilizando investimentos bilionários. Mas, junto com o crescimento, ganha centralidade uma variável que começa a preocupar investidores e operadores: a segurança energética das usinas. Esse foi o foco da apresentação de Ricardo Blandy, diretor comercial da ComBio, durante a BioMilho, em Ribeirão Preto (SP). Diante de um público formado por executivos de usinas, investidores e fornecedores do setor, Blandy apresentou um panorama estratégico da cadeia bioenergética do milho e alertou para um risco estrutural que pode afetar diretamente a competitividade dos novos projetos. A ComBio é a principal empresa brasileira de fornecimento de energia térmica renovável para a indústria a partir de biomassa e energia elétrica renovável com projetos em diversas regiões do Brasil.
Dos mais de 35 empreendimentos anunciados no país, cerca de 20 devem avançar nos próximos anos, somando aproximadamente R$ 21,6 bilhões em investimentos e
gerando uma demanda adicional estimada em 6,8 milhões de toneladas de biomassa por ano. A expansão, concentrada sobretudo no Centro-Oeste, pressiona um mercado que já apresenta sinais de desequilíbrio entre oferta e consumo de biomassa, especialmente em polos onde etanol de milho, fertilizantes, processamento de grãos e indústrias madeireiras disputam o mesmo insumo. Nesse contexto, a discussão sobre vapor ganha outra dimensão. Dentro da estrutura de custos da produção de etanol de milho, o vapor representa o segundo maior item, atrás apenas do próprio milho. Ou seja, além de ser elemento essencial para sustentar as etapas críticas do processo industrial, trata-se também de um dos principais vetores de pressão financeira sobre as usinas.
Na prática, o desafio passa pela geração eficiente e previsível desse insumo térmico. Segundo Blandy, a gestão da biomassa deixou de ser uma variável operacional e passou a ser componente estratégico da viabilidade econômica dos projetos. Modelos especializados de operação térmica podem gerar ganhos de eficiência capazes de reduzir em cerca de 10% o custo do vapor, o que representa incremento de 1% a 2% na margem final da operação de etanol de milho. “Quando falamos em margens cada vez mais pressionadas, 1% ou 2% fazem diferença real na competitividade do projeto. O vapor é o segundo maior custo da operação. Portanto, qualquer ganho de eficiência térmica tem impacto direto no resultado. A gestão da biomassa precisa ser pensada desde o início, com previsibilidade de suprimento e estrutura dedicada, porque a usina
simplesmente não opera sem vapor. Sem planejamento de longo prazo, o risco deixa de ser apenas de custo e passa a ser de continuidade operacional.”
Outro ponto destacado foi o risco associado à origem da biomassa. Embora a supressão legal de vegetação nativa seja permitida dentro do Código Florestal, a prática é cada vez mais sensível do ponto de vista ambiental e enfrenta crescente escrutínio público e internacional. Para projetos estruturantes, que demandam previsibilidade de décadas, rastreabilidade e formação de cadeias sustentáveis tornam-se requisitos estratégicos, especialmente diante de investidores atentos a critérios ESG. Em um momento em que novos projetos saem do papel e a competição por biomassa se intensifica, a forma como as usinas estruturarão sua matriz energética pode definir não apenas o ritmo de expansão do setor, mas quais operações conseguirão preservar margem e competitividade em um mercado cada vez mais exigente.

publicada em 5 de março de 2026 às 20:00 




