NAO DELETAR
HMFLOW

DIAMANTE ENERGIA AVANÇA COM PROJETO DE MICRORREATOR QUE PROMETE ELEVAR O PATAMAR DO SETOR NUCLEAR DO BRASIL

WhatsApp Image 2025-09-12 at 11.27.47_2b7e6839A Diamante Energia e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) assinaram recentemente um contrato para desenvolver um projeto voltado à criação de microrreatores nucleares (MRNs) no Brasil. O coordenador do projeto, Adolfo Braid, explica que a ação pode estimular a produção de materiais e tecnologias para uma futura cadeia de suprimentos nacional. “Em suma, este projeto é o ponto de partida para que o Brasil construa sua própria soberania tecnológica no setor de microrreatores, garantindo competitividade e relevância no cenário nuclear global do futuro”, declarou. Segundo ele, esse tipo de reator pode ser aplicado na estabilização de microrredes, no fornecimento de energia a locais isolados ou mesmo no abastecimento de data centers. Após o acordo com a Finep, o próximo passo será firmar contratos com Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação, que conduzirão parte relevante do trabalho. Braid estima que um protótipo possa entrar em operação em até três anos, enquanto a primeira unidade comercial pode alcançar a fase operacional em até oito anos.

Para começar, como surgiu o interesse da Diamante Energia em investir em energia nuclear? Quais oportunidades foram identificadas nesse segmento?

Complexo Jorge Lacerda

Complexo Jorge Lacerda

O Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, no âmbito do processo de Transição Energética Justa delineado pela Lei 14.299/2022, deve encerrar suas operações em 2040. Dentre os assuntos discutidos nas reuniões de planejamento que a empresa mantém, tem sido recorrente o tema do que fazer com os recursos de infraestrutura existentes no período pós encerramento das operações da usina a carvão.

Dentre as opções vislumbradas, pensou-se em usinas térmicas a gás natural, e para tal a Diamante já obteve uma licença ambiental para implantação de uma usina considerando a tecnologia de ciclo simples.

Uma segunda opção, com horizonte um pouco mais longo, é a implantação de uma usina com a tecnologia SMR (Small Modular Reactor). Essa tecnologia já está em operação em alguns países, em outros em fase de implantação ou de licenciamento. Do ponto de vista de empregabilidade, essa tecnologia gera uma quantidade maior de empregos e com maior sofisticação, tendo em vista que a capacitação para operação de uma usina nuclear requer treinamento muito maior.

O terreno ocupado pelas usinas a carvão é adequado tanto para a opção gás quanto para a opção SMR. O Complexo Termelétrico Jorge Lacerda ocupa uma área de 3 milhões de metros quadrados, tem acesso à água, conexão elétrica e mão de obra. Além disso a região Sul é atualmente importadora de energia de outras regiões do Brasil e uma presença de geração na região é muito importante para a segurança de suprimento de energia.

Após a assinatura do contrato com a Finep, quais são os próximos passos previstos para o desenvolvimento do projeto?

Ato de assinatura de acordo com a Finep

Ato de assinatura de acordo com a Finep

Com a chegada dos recursos da FINEP e da Diamante Energia, será iniciada a assinatura dos contratos com as Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTs), que serão responsáveis pela maior parte das atividades do projeto.

Simultaneamente, serão realizadas compras mais urgentes, priorizando itens com maior prazo de entrega. Conforme os projetos avançarem, serão contratadas empresas especializadas para construir, fabricar e montar as bancadas experimentais — as Unidades de Desenvolvimento Tecnológico (UDTs). Essas UDTs são fundamentais para evoluir a tecnologia do nível TRL-3 para o TRL-6.

Dentro do escopo, estão previstas pesquisas de novas ligas e materiais. Poderia detalhar como serão conduzidas e quais os principais objetivos?

Captura de tela 2025-09-25 000003O projeto vai impulsionar o desenvolvimento de materiais e tecnologias para a futura cadeia de suprimentos dos microrreatores brasileiros. Haverá avanços importantes em diversas frentes:

– Combustíveis Nucleares: Serão realizados testes para a produção de combustíveis nucleares, impulsionando a autossuficiência e a qualidade do material.

– Óxido de Berílio: O projeto terá foco na obtenção de Óxido de Berílio de alta pureza nuclear, um componente essencial para o projeto.

– Tubos de Calor: Em três anos, o objetivo é dominar completamente a capacidade de projetar, fabricar e operar tubos de calor de alta temperatura (heat pipes), um item crucial para o funcionamento do microrreator.

O objetivo final é atrair investidores e empresários para que continuem o desenvolvimento e a implantação, no Brasil, das principais instalações da cadeia de suprimentos. Isso é de extrema importância para garantir que o microrreator nuclear brasileiro seja competitivo no mercado global e atenda às necessidades energéticas futuras.

Na sua visão, qual é o diferencial do projeto brasileiro em relação às iniciativas que já vêm sendo estudadas internacionalmente?

linhas de transmissaoA principal aplicação dos microrreatores nucleares é a energia distribuída, ideal para a estabilização de microrredes e o fornecimento de energia para locais isolados, onde a cobertura do Sistema Integrado Nacional (SIN) não alcança. Essa característica os torna extremamente competitivos em áreas remotas.

Existem diversas tecnologias em desenvolvimento, cada uma com suas particularidades:

· Reatores de Sal Fundido (MSRs): Utilizam sal fundido como combustível, refrigerante ou moderador. Operam em altas temperaturas e baixas pressões, o que os diferencia dos reatores tradicionais.

· Reatores a Gás de Alta Temperatura (HTGRs): Usam grafite como moderador e gás inerte (geralmente hélio) como refrigerante. Sua principal vantagem é a capacidade de operar em temperaturas muito altas, de até 950°C.

· Reatores Rápidos Resfriados a Sódio (SFRs): Empregando nêutrons rápidos e sódio líquido para resfriamento, esses reatores não precisam de moderador e se destacam pela alta eficiência.

· Tecnologia de Tubos de Calor (Heat Pipes): Uma forma de resfriamento passivo que usa tubos de calor para transferir a energia do núcleo sem a necessidade de bombas ou peças móveis, garantindo um design simples, seguro e confiável.

Embora existam similaridades entre os projetos, as diferenças conceituais de cada um os tornam únicos. No projeto do microrreator brasileiro, por exemplo, serão adotadas soluções específicas para a fase de demonstração tecnológica:

· Combustível: Será utilizado Urânio de Baixo Enriquecimento (LEU).

· Formato do Combustível: Será composto por pastilhas cilíndricas de UO2, encapsuladas em varetas metálicas, semelhante ao que é usado em reatores do tipo PWR.

· Moderador e Refletor: Ambos serão feitos de Grafite.

Essas escolhas estratégicas fazem do microrreator um projeto conceitualmente distinto, otimizado para as nossas necessidades e recursos.

Quais são as aplicações mais promissoras dos microrreatores nucleares (MRN) no contexto brasileiro?

FPSOA versatilidade dos microrreatores nucleares permite uma ampla gama de aplicações, que vão muito além da geração de energia elétrica. Suas principais utilidades incluem:

· Aplicações Offshore: Para plataformas de exploração de petróleo e gás.

· Mobilidade Elétrica (e-mobility): Como fonte de energia para grandes embarcações, veículos de mineração ou de transporte pesado, bem como os veículos elétricos de passeio.

· Setores Industriais: Indústria metalúrgica e mineração.

· Data Centers (DCs): Fornecimento de energia contínua e segura para DCs.

· Localidades Remotas: Abastecimento de comunidades e áreas isoladas que não estão conectadas ao Sistema Integrado Nacional (SIN).

· Estabilização de Microrredes: Funcionam em conjunto com fontes renováveis para garantir a estabilidade e confiabilidade do fornecimento de energia.

Existe uma previsão para o início de operação dos primeiros protótipos de MRN no Brasil?

O tempo para o lançamento de um produto de alta tecnologia, como os microrreatores nucleares, depende de diversos fatores complexos. No entanto, com o apoio de várias instituições do setor e o financiamento necessários, acredita-se que um protótipo pode entrar em operação em até três anos e a primeira unidade comercial pode estar operacional em até oito anos.

Quais são hoje os principais desafios tecnológicos que precisam ser superados para viabilizar esses protótipos?

Com a finalização bem-sucedida do Projeto FINEP, os principais desafios tecnológicos estarão superados. O foco, então, se voltará para os desafios logísticos da cadeia de suprimentos.

Para que o projeto seja verdadeiramente competitivo no futuro, é essencial começar agora a desenvolver uma cadeia de suprimentos robusta e sustentável.

Os MRNs são apontados como uma nova fronteira capaz de redefinir o setor nuclear. De que forma este projeto pode inserir o Brasil nessa corrida tecnológica?

finep_abreOs microrreatores nucleares representam uma revolução no setor energético, oferecendo uma nova fronteira tecnológica. Por meio de projetos como este, o Brasil pode se inserir diretamente nessa corrida, garantindo um papel de liderança em um mercado em expansão.

Este projeto não se limita a replicar tecnologias existentes. Ele busca o domínio de conhecimentos e a criação de uma cadeia de suprimentos nacional. Ao desenvolver a capacidade de projetar, fabricar e operar os principais componentes — como os tubos de calor de alta temperatura e a produção de materiais essenciais — o Brasil deixa de ser um mero consumidor e se torna um produtor de tecnologia nuclear avançada.

Dominar essa tecnologia permitirá desenvolver soluções adaptadas às necessidades do Brasil, como o fornecimento de energia para áreas remotas, plataformas offshore e grandes empreendimentos de mineração. Isso não apenas resolve problemas energéticos internos, mas também posiciona o país como um exportador de inovação, impulsionando a economia e gerando empregos altamente qualificados.

Em suma, este projeto é o ponto de partida para que o Brasil construa sua própria soberania tecnológica no setor de microrreatores, garantindo competitividade e relevância no cenário nuclear global do futuro.

Quais impactos socioeconômicos os MRNs podem trazer para cidades pequenas e regiões remotas do país?

Prototipo-avancado-de-reator-modular-nuclear-com-design-futurista-em-ambiente-tecnologicoOs Microrreatores Nucleares (MRNs) têm o potencial de gerar impactos socioeconômicos positivos profundos, especialmente em cidades pequenas e regiões remotas do Brasil, onde a infraestrutura de energia é precária ou inexistente. Ao fornecer uma fonte de energia confiável e de alta potência, os MRNs podem atuar como catalisadores de desenvolvimento.

Muitas comunidades isoladas dependem de geradores a diesel, que são caros, poluentes e logisticamente complexos, ou simplesmente não têm acesso à eletricidade. A implantação de um MRN pode mudar essa realidade positiva e drasticamente, fornecendo energia limpa, segura e contínua. Essa estabilidade energética permite:

– Desenvolvimento econômico: A energia acessível é um pilar para a criação de indústrias, agricultura mecanizada, pequenas empresas e o setor de serviços, impulsionando a economia local.

– Melhora da qualidade de vida: Acesso a serviços básicos como hospitais, escolas e telecomunicações é ampliado, melhorando a vida diária das pessoas. A energia confiável também permite o uso de equipamentos de refrigeração e iluminação, essenciais para a saúde e segurança.

– Fixação da população: A criação de oportunidades de emprego e a melhoria da infraestrutura podem reduzir o êxodo rural, incentivando as pessoas a permanecerem e prosperarem em suas comunidades.

– Impactos no mercado de trabalho e na educação: A chegada de um projeto de MRN não trará apenas energia, mas também uma nova dinâmica para o mercado de trabalho.

– Criação de empregos qualificados: A instalação, operação e manutenção de um microrreator requer profissionais com alto nível de especialização. Isso pode estimular a criação de programas de treinamento e educação técnica nas regiões, desenvolvendo uma mão de obra local qualificada e bem remunerada.

– Incentivo à inovação: A presença de uma tecnologia avançada pode atrair centros de pesquisa e startups, criando um ecossistema de inovação que, a longo prazo, pode diversificar ainda mais a economia local.

Em resumo, os MRNs têm a capacidade de transformar regiões remotas de centros de subsistência para polos de desenvolvimento, integrando-as de forma competitiva ao cenário econômico do país.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários