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LOTS GROUP QUER AMPLIAR USO DE BIOMETANO EM ROTAS DE MÉDIA E LONGA DISTÂNCIA NO TRANSPORTE PESADO

A LOTS Group, do Grupo Scania, está de olho nas oportunidades para ampliar o uso de biometano na frota de veículos pesados do Brasil. Presente no país desde 2017, a empresa atua na realização e liderança de projetos de digitalização, descarbonização e eficiência logística. O vice-presidente de Estratégia e Novos Negócios na América Latina da LOTS Group, Pedro Silvestrini, afirma que a companhia está estruturando oportunidades com produtores de biometano, embarcadores, fabricantes e empresas de infraestrutura para ampliar o uso do combustível no transporte. “Estamos avaliando novas operações dedicadas e rotas de média e longa distância nas quais seja possível combinar disponibilidade de combustível, escala e eficiência operacional”, contou o executivo. Silvestrini destaca que o biometano tem potencial para substituir o diesel no transporte pesado, com redução significativa das emissões sem comprometer o desempenho dos veículos. Para que esse potencial se concretize, no entanto, será necessário ampliar a infraestrutura de abastecimento, especialmente nos corredores logísticos, com postos preparados para atender caminhões. A estratégia da LOTS Group também contempla outras alternativas de baixo carbono, como eletrificação e otimização de rotas, dentro de um portfólio voltado à descarbonização do transporte.

Para começar, poderia explicar quais fatores tornam o biometano uma alternativa relevante para a transição energética do transporte brasileiro?

O biometano reúne características especialmente favoráveis ao Brasil. É um combustível renovável produzido a partir de resíduos urbanos, agroindustriais e do saneamento, permitindo transformar um passivo ambiental em energia. Também pode substituir o diesel no transporte pesado com uma redução expressiva das emissões de gases de efeito estufa, sem comprometer o desempenho dos veículos.

Outro diferencial é a possibilidade de integrar produção e consumo regionalmente. No setor sucroenergético, por exemplo, o combustível pode ser produzido a partir dos resíduos da própria atividade e utilizado na logística da operação. Isso fortalece a economia circular, reduz a dependência de combustíveis fósseis e contribui para aumentar a resiliência energética do país.

Quais são hoje os principais desafios para ampliar o uso do biometano no transporte rodoviário de cargas no Brasil?

Os principais desafios são conectar a produção aos corredores logísticos, ampliar a infraestrutura de abastecimento e conciliar a descarbonização com viabilidade econômica e segurança operacional. Os caminhões movidos a gás são ativos novos e mais caros do que boa parte da frota a diesel em circulação no país. Por isso, a simples substituição de um veículo por outro dificilmente fecha a conta.

É necessário conhecer profundamente os fluxos do cliente, redesenhar processos e buscar ganhos de eficiência que compensem o maior investimento nos ativos. Cada projeto precisa considerar conjuntamente as rotas, o perfil da carga, a disponibilidade do combustível, a produtividade esperada e as metas de redução de emissões.

Em termos de infraestrutura de abastecimento, o que precisa avançar para que o combustível possa ser utilizado em maior escala nas principais rotas de transporte do país?

Precisamos ampliar a cobertura geográfica e, principalmente, instalar estruturas adequadas às necessidades dos veículos pesados. Boa parte da rede pública disponível foi projetada para automóveis e não oferece a vazão necessária para abastecer caminhões com rapidez.

Em uma operação bem estruturada, buscamos um tempo de abastecimento inferior a 20 minutos por veículo, algo que a rede pública raramente consegue entregar atualmente. O avanço dependerá de postos de alta vazão em corredores estratégicos, pontos dedicados nas operações e contratos que assegurem o fornecimento do combustível. A expansão dessa infraestrutura também precisa acompanhar a concentração da demanda para que os investimentos sejam economicamente sustentáveis.

No entanto, esses postos ainda não disponibilizam biometano, devido à ausência de oferta do combustível na malha, operando apenas com gás natural veicular (GNV). A expansão dessa infraestrutura deverá avançar conforme a demanda e a disponibilidade de biometano crescerem.

Do ponto de vista econômico, em quais condições o uso do biometano se torna competitivo em relação ao diesel para o transporte de cargas? Quais fatores são hoje determinantes para essa conta?

O biometano apresenta maior competitividade em operações dedicadas, com rotas previsíveis, utilização intensiva dos veículos e fornecimento estruturado do combustível. A viabilidade aumenta quando a produção está próxima ao local de consumo ou quando existe um contrato capaz de garantir disponibilidade e previsibilidade de preço.

Essa conta não deve considerar apenas a comparação entre o preço do biometano e o do diesel. É necessário analisar o custo total da operação, incluindo produtividade, disponibilidade da frota, tempo de abastecimento, manutenção, infraestrutura e financiamento dos veículos. Nosso objetivo é viabilizar operações de baixo ou zero carbono com custo comparável ao modelo tradicional. Para isso, a logística precisa ser redesenhada de forma integrada.

Em sua opinião, quais serão os principais impactos da implementação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) para o mercado e para os consumidores do combustível?

O CGOB aumenta a rastreabilidade e a segurança do mercado ao comprovar a origem e o volume do biometano produzido e comercializado. Para os consumidores, isso permite demonstrar de maneira mais confiável os resultados de descarbonização associados ao uso do combustível e reduz o risco de dupla contagem dos benefícios ambientais.

Para o mercado, a certificação pode contribuir para dar previsibilidade aos contratos, criar referências mais claras para as transações e oferecer maior segurança aos investimentos em produção e infraestrutura. Seu impacto dependerá de uma implementação simples, confiável e capaz de evitar custos ou complexidades que dificultem o acesso ao mecanismo.

A operação com a Cocal prevê 44 caminhões 100% movidos a biometano. Quais aprendizados esse projeto traz para a expansão do biometano no transporte de cargas?

O principal aprendizado é que a transição energética vai muito além da compra dos caminhões. É necessário estruturar todo o ecossistema da operação, incluindo combustível, abastecimento, manutenção, capacitação, tecnologia e gestão da frota.

No projeto, a Cocal produz o biometano a partir de resíduos da cadeia sucroenergética e utiliza o combustível nos caminhões que transportam a vinhaça, posteriormente aplicada como fertilizante no campo ou até mesmo usada para ser matéria prima do biometano. Isso estabelece um modelo de economia circular dentro da própria operação.

A escala e a previsibilidade também foram determinantes. Os 44 caminhões operam intensivamente, em três turnos, nas unidades de Paraguaçu Paulista e Narandiba, dentro de um contrato inicial de cinco anos. Nesse período, a expectativa é substituir mais de 19 milhões de litros de diesel e evitar aproximadamente 41 mil toneladas de CO₂. A redução anual estimada das emissões chega a 91% em comparação com caminhões a diesel operando nas mesmas condições.

Como a LOTS Group planeja atualmente as rotas de longa distância, considerando que o biometano ainda depende de uma oferta concentrada e de uma infraestrutura regionalizada?

O planejamento começa pelo mapeamento detalhado da operação: origem e destino, distância, perfil da carga, autonomia necessária, disponibilidade do combustível e capacidade dos pontos de abastecimento. A partir dessas informações, avaliamos se a rota pode operar integralmente com biometano ou se exige uma estrutura dedicada, novos pontos de abastecimento ou ajustes na configuração dos veículos.

Em percursos mais longos, também analisamos a localização das plantas produtoras e a possibilidade de conectar diferentes corredores de abastecimento. Como os caminhões a gás podem operar tanto com biometano quanto com gás natural, existe flexibilidade operacional durante o desenvolvimento da infraestrutura. Entretanto, para garantir o benefício ambiental máximo, o objetivo é ampliar progressivamente a participação do biometano e estruturar rotas que possam ser abastecidas integralmente com o combustível renovável.

Quais são os próximos passos da LOTS Group no mercado de biometano? Há novos projetos, operações ou investimentos previstos para ampliar a utilização do combustível no transporte de cargas?

A LOTS Group continua estruturando oportunidades com produtores de biometano, embarcadores, fabricantes e empresas de infraestrutura para ampliar o uso do combustível em operações de transporte. Nossa prioridade é transformar os aprendizados dos projetos atuais em modelos que possam ser replicados em outras cadeias produtivas e regiões do país.

Estamos avaliando novas operações dedicadas e rotas de média e longa distância nas quais seja possível combinar disponibilidade de combustível, escala e eficiência operacional. Como alguns projetos ainda estão em fase de desenvolvimento e dependem de acordos entre diferentes parceiros, não podemos antecipar detalhes neste momento. O direcionamento, porém, é claro: ampliar a presença do biometano dentro de um portfólio de soluções que também contempla eletrificação, otimização de rotas e outras tecnologias de baixo carbono.

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