APAGÃO DE PROFISSIONAIS ACENDE ALERTA E LEVA A INDÚSTRIA A INVESTIR EM FORMAÇÃO PRÓPRIA
As discussões sobre a indústria de óleo e gás neste ano não se limitaram à promissora Margem Equatorial. A escassez de profissionais qualificados também preocupa o setor. Com o aumento da demanda por negócios e contratos, empresas identificam novas oportunidades de expansão, mas enfrentam dificuldades para preencher vagas que exigem formação técnica. Para contornar o problema, algumas têm criado iniciativas próprias de capacitação. Um exemplo vem de Duque de Caxias (RJ), onde a empresa de usinagem AGM Services iniciou um programa interno de formação de profissionais. Segundo o diretor da companhia, Adjalbas Garcia Mendes, a falta de pessoal já limita o crescimento da operação. “Hoje, eu poderia estar faturando três vezes mais, mas não tenho pessoal para trabalhar. Opero apenas em um turno, mas poderia ter três turnos”, relatou. Para Mendes, o Brasil já enfrenta um “apagão de mão de obra” e precisa voltar a investir em escolas técnicas especializadas.
Para começar, poderia fazer uma breve apresentação sobre a atuação da empresa?
Atuamos no segmento de petróleo e gás, produzindo peças sob desenho ou amostra. Estamos há 40 anos no mercado de usinagem e somos líderes nesse segmento no Rio de Janeiro. Antes da crise desencadeada pela Operação Lava Jato, tínhamos 110 funcionários. Com a grande queda do setor durante a crise, reduzimos para 25 pessoas.
Atualmente, já retomamos para 80 colaboradores. No entanto, nesse meio-tempo, surgiu um grave problema de falta de pessoal especializado no mercado.
Qual tipo de conhecimento técnico que os profissionais precisam ter para operar o maquinário da empresa?
É necessário ter conhecimento técnico em desenho mecânico computadorizado, pois as máquinas operam com tecnologia CNC (Controle Numérico Computadorizado). É raro encontrar profissionais qualificados para operar esse tipo de equipamento moderno atualmente. Atualmente, as próprias escolas técnicas não possuem essas máquinas para ministrar cursos.
Assim como tantas outras empresas, a AGM Services também enfrenta problemas atualmente para encontrar mão de obra qualificada?
Exatamente. Os profissionais antigos migraram para outros setores — muitos foram trabalhar como motoristas de aplicativo ou foram para outras áreas —, porque a indústria passou por um hiato muito grande no Rio de Janeiro. Para ter uma ideia, no nosso segmento de usinagem tínhamos cerca de 15 empresas no estado; hoje restam apenas três. Tentei resgatar alguns funcionários que havia demitido, mas a grande maioria não voltou para o setor.
Diante dessa falta de mão de obra e com a demanda em alta, como a AGM Services decidiu solucionar o problema internamente?
A demanda começou a crescer e a nossa carteira de pedidos ficou grande. Daí veio a necessidade de abrir um segundo turno e contratar mais profissionais, mas eles simplesmente não existem no mercado. Então, decidir contratar um professor para dar treinamento dentro da própria empresa.
Estamos treinando os profissionais e já os colocando na máquina para conseguir suprir a demanda do mercado, pois o segmento está aquecido e recebemos muitos pedidos, mas hoje eu não consigo entregar tudo por falta de mão de obra.
Quanto tempo leva essa formação, quantas pessoas vocês já capacitaram e como é feita a seleção dessas pessoas?
Cerca de 90% do nosso quadro profissional atual é formado internamente por meio desse treinamento. Leva em torno de um ano para capacitar um profissional desse nível.
A seleção funciona de duas formas. Primeiro, quando a pessoa já está dentro da empresa, fazemos uma avaliação e, se percebemos que ela tem vocação para a função, nós a preparamos para se tornar operadora de máquina. Além disso, quando não encontramos essa vocação internamente, buscamos no mercado externo. A pessoa entra como ajudante ou oficial de produção, nós analisamos o potencial e o conhecimento dela e, identificando capacidade, a colocamos no processo de treinamento prático na máquina.
Além de iniciativas privadas como a de vocês, o que o setor de maneira geral deveria adotar para reverter esse cenário? As instituições de ensino técnico não suprem mais essa demanda?
Deveria haver mais escolas técnicas especializadas. Não temos atualmente nenhuma escola técnica especializada na formação contínua dessa mão de obra. Muitos alunos recém-formados nessas escolas precisam passar por uma reciclagem conosco, pois não sabem fazer procedimentos básicos. Seria essencial resgatar a estrutura das escolas técnicas de formação.
Na sua visão de quem vivencia o setor no dia a dia, o risco de um “apagão” de mão de obra é real ou já estamos vivendo isso?
Nós já estamos no meio do apagão de mão de obra. Hoje, eu poderia estar faturando três vezes mais, mas não tenho pessoal para trabalhar. Opero apenas em um turno, mas poderia ter três turnos. O treinamento que faço é para conseguir manter apenas o primeiro turno funcionando. O segmento já caiu nesse apagão: não há como crescer nem expandir porque o Brasil não formou mão de obra nos últimos anos, o que é algo muito lamentável.
Para dar uma dimensão do volume de negócios da AGM Services, quais são os números atuais de contratos, carteira de pedidos e prazos de entrega?
Para você ter uma ideia da alta demanda, o nosso prazo de entrega, que era de 30 dias, passou para 90 dias e agora já está indo para 120 dias. Na nossa medição de capacidade em homem-hora (H/H), eu tenho 8.000 horas por mês para vender, mas já vendi dez vezes mais do que isso. Tenho carteira de pedidos garantida para me manter faturando pelos próximos seis meses.

publicada em 22 de outubro de 2026 às 5:00 




