APÓS ATAQUE AO IRÃ, INSTABILIDADE GEOPOLÍTICA REFORÇA PRESSÃO POR REPOSIÇÃO DE RESERVAS DA PETROBRÁS

O assunto neste início de segunda-feira não poderia ser outro: os desdobramentos do ataque dos Estados Unidos contra o Irã, que culminou na morte do aiatolá Ali Khamenei. A semana começa com grande expectativa em relação aos efeitos do ataque no mercado de petróleo. Para o consultor do setor de óleo e gás Felipe Rizzo, o valor da commodity não deve ter uma alta drástica, já que a produção atual ainda é maior do que a demanda. “Os movimentos do governo Trump fizeram o preço subir e atingir um patamar que não era esperado, empurrando essa possibilidade de preços baixos para o segundo semestre de 2026 ou primeiro semestre de 2027”, avaliou. O consultor acrescentou que, olhando para o Brasil, o cenário geopolítico complexo aumenta a necessidade de reposição de reservas. Segundo ele, a companhia precisa crescer 60% nos próximos 25 anos para manter sua relevância estratégica. “Ninguém sabe ao certo quais serão os próximos acontecimentos geopolíticos daqui em diante, mas o que é certo é que a Petrobrás precisa investir na ampliação de suas reservas”, declarou. Rizzo também comentou a possibilidade de a estatal brasileira enviar petróleo para Cuba e destacou possíveis riscos jurídicos e financeiros. “Acredito que a própria SEC, órgão que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos, poderia sancionar a Petrobrás caso ela seguisse nessa direção. Não sou advogado, mas vejo que há uma implicação jurídica e financeira direta derivada da forma como a empresa abriu seu capital”, concluiu.

Poderia fazer uma análise inicial desses acontecimentos entre Estados Unidos e Irã e prever os possíveis impactos no mercado de óleo e gás caso esse confronto se prolongue?

O conflito tem características de que pode se tornar regional, embora dependa dos próximos desdobramentos. Está claro de que Estados Unidos e Israel  não tentarão uma incursão por terra. O Irã é geograficamente muito isolado: de um lado montanhas, do outro um deserto severo e o Mar Cápsio por trás. As entradas terrestres são muito difíceis.

O grande risco geopolítico real é o Estreito de Ormuz. O Irã tem capacidade de fechá-lo, isolando a exportação de países como Kuwait, Bahrein e Catar. Todo o petróleo que vai para o Índico, Canal de Suez, ou em direção à China e à Índia precisa passar por ali. Atualmente, o Irã produz cerca de 3 milhões de barris; não sabemos quanto disso seria afetado, mas qualquer corte pode consumir a demanda excedente que existe hoje.

Como você vê a flutuação dos preços diante desse cenário?

Estreito de Ormuz

O preço pode ser impactado, mas não acredito em uma subida drástica. Hoje, a produção supera a demanda em mais de 2 milhões de barris e houve aumento de reservas na China e nos EUA. Se o preço do petróleo ficar estabilizado na casa dos 70 dólares será algo atípico para a conjuntura atual. As previsões apontavam que o barril pudesse chegar a 50 dólares no primeiro semestre devido ao excesso de produção e à estratégia da OPEP de baixar preços para pressionar o shale gas americano.

No entanto, os movimentos do governo Trump fizeram que o preço subisse e chegasse a um patamar que não era esperado, empurrando essa possibilidade de preços baixos para o segundo semestre de 2026 ou primeiro semestre de 2027. Acredito que essa operação do Trump será pontual, tendo em vista as eleições de meio de mandato. Ele quer forçar o Irã a um acordo no curto prazo através de ações pesadas.

Em caso de um confronto de longo prazo ou fechamento do Estreito de Ormuz, qual seria a situação do Brasil e da Petrobrás em relação às exportações?

Atualmente, exportamos muito para os EUA, Índia e África. A Petrobrás fechou acordos importantes com a Índia, que tem grande base de refino. No Brasil, refinamos o que consumimos, e o déficit de diesel tem sido suprido por importações (inclusive diesel russo), então não vejo problemas de abastecimento interno.

Para a Petrobrás, há duas vertentes. De um lado, o aumento do preço do petróleo vai melhorar o seu resultado financeiro. Contudo, a desvalorização do dólar frente ao real (devido à perda de confiança na moeda americana e movimentos da China) pode neutralizar os ganhos. O fortalecimento do real não é algo exatamente muito bom para o resultado da Petrobrás. 

O mais importante para o Brasil é a estabilidade para manter o crescimento da produção. Com toda essa tensão geopolítica ao redor do planeta, a transição energética foi adiada. Acredito que as metas para 2050 sejam alcançadas apenas em 2060 ou 2070. Vamos conviver com o motor a combustão durante muito tempo, que terá um papel muito importante para 80% dos países. O nível de eletrificação que querem atingir não é viável em escala. 

Qual deve ser a postura da Petrobrás diante desse cenário?

A Petrobrás precisa investir em reposição de reservas, seja na Margem Equatorial, na Namíbia ou na Índia. Isso será estratégico para o futuro da empresa. A companhia precisa crescer 60% nos próximos 25 anos para manter sua relevância estratégica. Ninguém sabe ao certo quais serão os próximos acontecimentos geopolíticos daqui em diante, mas o que é certo é que a Petrobrás precisa investir na ampliação de suas reservas. 

Ainda falando sobre geopolítica, há um movimento de petroleiros pedindo o envio de petróleo da Petrobrás para Cuba. Qual sua visão sobre as implicações geopolíticas disso?

Precisamos olhar para a estrutura de capital da Petrobrás. A companhia possui ações sendo negociadas na Bolsa de Nova York e, ao optar por isso no passado, ela se submeteu, de certa maneira, a aceitar as sanções econômicas impostas pelos americanos. Sempre foi muito difícil fornecer petróleo para Cuba por causa disso, e neste momento geopolítico atual, torna-se ainda mais complicado.  

Acredito que a própria SEC (órgão que regula o mercado de capitais nos EUA) poderia sancionar a Petrobrás caso ela seguisse nessa direção. Não sou advogado, mas vejo que há uma implicação jurídica e financeira direta derivada da forma como a empresa abriu seu capital.

É quase um absurdo, mas as decisões geopolíticas da Casa Branca acabam tendo um peso enorme sobre o posicionamento geopolítico dos americanos em relação à Petrobrás por causa dessas ações em Nova York. Não creio que seja interessante para a Petrobrás — e nem mesmo para o acionista majoritário, que é o Governo Federal — fazer um movimento desse. 

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