CLARK SOLUTIONS PROJETA CRESCIMENTO DE 78% NO FATURAMENTO EM 2026 E AMPLIA PRESENÇA INTERNACIONAL
Depois de consolidar uma presença firme no mercado brasileiro, a empresa Clark Solutions está alçando voos cada vez maiores no cenário internacional. Em entrevista ao Petronotícias, o CEO da empresa, Nelson Perella Clark, detalhou a estratégia de expansão para novos mercados. A companhia projeta crescer cerca de 78% em faturamento em 2026 e estima que entre 70% e 80% de sua receita venha de operações internacionais. O executivo comentou ainda projetos recentes para o setor de óleo e gás, incluindo o desenvolvimento de um sistema que ajudou a elevar a produção de um campo maduro operado por uma empresa independente. No mercado de fertilizantes, a meta da Clark é miniaturizar unidades produtivas, enquanto, em bioenergia, o objetivo é criar soluções para tratamento e valorização de biogás. Por fim, Nelson Clark faz um alerta sobre os desafios e percalços vividos pelas empresas no país: “O Brasil precisa urgentemente rever a forma como trata e apoia sua indústria, sob o risco de, num futuro próximo, não ter indústria para regular ou apoiar”, declarou.
Para começar, poderia atualizar nossos leitores sobre como tem sido a atuação da Clark Solutions no mercado de óleo e gás no Brasil?
Para explicar nossa atuação no mercado de óleo e gás, precisamos voltar um pouco no tempo e lembrar da história da Clark Solutions. Começamos em 1991 fornecendo eliminadores de névoas à Petrobrás. Nosso trabalho nas plataformas da Bacia de Campos e a busca da Petrobrás por soluções mais leves e eficientes para as plataformas nos levaram ao desenvolvimento de uma série de equipamentos e sistemas para este fim.
Estes sistemas foram continuamente aperfeiçoados à medida em que desenvolvemos novas tecnologias e produtos, que antes não existiam no Brasil ou eram apenas comercializados por empresas estrangeiras.
Hoje, atuamos em praticamente todos os segmentos do processo de produção de exploração de óleo e gás, bem como nas operações de refino. Nossas soluções foram gradativamente sendo implementadas em unidades diferentes, processos diferentes e hoje são usadas não apenas na produção e refino de óleo e gás mas também em uma grande quantidade de processos posteriores, como produção de gases e polímeros, purificação de gás natural, etc.
Nosso DNA, talvez por conta da formação de engenheiros e do grande contingente de engenheiros capacitados, acaba nos conduzindo sempre à busca de novas soluções e melhoria dos processos. Dificilmente, um produto que desenvolvemos passa mais de um ou dois anos sem ser aprimorado, melhorado ou substituído por outro que traga mais benefícios a nossos clientes. Nossa natureza é enfrentar com coragem e inovação os desafios que nos são apresentados.
Poderia destacar também quais são os tipos de projetos nos quais vocês estão envolvidos no setor de óleo e gás?
Temos atuado em projetos voltados principalmente para a otimização e melhoria de desempenho de unidades existentes, sempre com foco em aumentar a eficiência operacional, a confiabilidade dos processos e a rentabilidade dos ativos dos nossos clientes.
Trabalhamos nos processos de separação em plataformas de petróleo, sejam eles de separação gás-líquido, líquido-líquido ou no tratamento e purificação de gases. Nas refinarias temos produtos e sistemas para os processos de destilação, absorção, adoçamento de gases ácidos, purificação de gases, entre outros.
Creio que praticamente todos os derivados de petróleo que deixaram a Petrobrás passaram, em algum momento, por produtos, equipamentos ou sistemas desenvolvidos pela Clark.
Ainda mais interessante é que, antes, éramos uma empresa que fornecia essencialmente para a Petrobrás, mas, com o tempo, a privatização de alguns ativos, a propaganda “boca a boca”, fomos conquistando clientes em outras empresas do setor, no Brasil e no exterior.
A empresa projeta um crescimento de 78% no faturamento em 2026. Poderia comentar quais são as oportunidades no mercado que devem ajudar a materializar esse resultado?
A visão de sempre buscar criar e melhorar produtos e sistemas cria uma situação interessante. Não precisamos que o mercado cresça para acompanharmos. Pelo contrário, nossos produtos acabam encontrando oportunidades em operações maduras, unidades antigas, onde a busca pela eficiência e melhor desempenho é às vezes mais importante que numa unidade nova, recém construída, com equipamentos mais modernos.
Recentemente, fomos procurados por um operador de campos maduros. Tinham uma limitação de produção de petróleo por conta da qualidade da água que produziam, isto é, quando tentavam aumentar a produção a qualidade da água produzida piorava, o que impedia que o aumento fosse sustentado. Desenvolvemos um produto novo para eles. A produção naquele campo maduro subiu mais de 125% e a água produzida, mesmo com o aumento de capacidade, passou a ter qualidade superior àquela que era produzida antes da intervenção. O fator limitante para aumento de produção deixou de ser a qualidade da água. Esta mesma tecnologia, recentemente, foi oferecida a uma refinaria na África, que estava com problemas de qualidade (contaminação por água) em sua querosene de aviação.
Acho que, hoje, com as atuais demandas, cada vez mais exigentes, por eficiência, redução de emissões, melhora de índices, as empresas mais inovadoras, mais abertas a mudanças, que tenham como compromisso ajudar seus clientes a terem sucesso, serão as que vão crescer mais e mais rapidamente. Duplicar produtos, copiar tecnologia, não é mais algo que garanta receitas a longo prazo ou que garanta o crescimento sustentável de uma empresa.
Como vocês estão avaliando o atual momento do mercado de óleo e gás e quais são as perspectivas da empresa com esse segmento?
A idade da pedra não acabou por falta de pedra. A idade do petróleo não acabará por falta de petróleo. O aumento da riqueza e a melhoria das condições de vida das pessoas, requerem energia. O petróleo é e será por muito tempo um elemento fundamental no desenvolvimento das sociedades, em especial nos países menos desenvolvidos. O mercado continuará a crescer, talvez não num ritmo acelerado, uma vez que parte da energia passará a ser produzida por fontes renováveis. Mas não há, no curto prazo, qualquer possibilidade de que a indústria de óleo e gás passe a diminuir de tamanho ou seja substituída. Não nos próximos 30-40 anos.
Por outro lado, biogás e biocombustíveis são novos mercados que vêm crescendo, se desenvolvendo e criando novas oportunidades para nossos produtos e tecnologias. Tratar biogás, de certa forma, quando comparado ao tratamento de gás natural, é uma operação muito similar. As soluções usadas na indústria de petróleo podem ser facilmente adaptadas e sintonizadas com os requerimentos específicos destas novas indústrias. Recentemente entregamos sistemas para tratamento de biogás e sistemas de destilação para unidades de biocombustíveis.
As empresas que possuem cultura e recursos técnicos são e serão capazes de atender as demandas mais exigentes dos mercados mais maduros, bem como se adaptar para atender as necessidades dos novos mercados emergentes.
Em termos de soluções, serviços ou investimentos, a empresa está preparando novidades para o mercado?
Sempre. É nosso DNA. Somos uma empresa inquieta. Que não se satisfaz com uma solução ou senta sobre ela transformando-a em um produto perene. Estamos continuamente buscando melhorar, criar, romper limites. Em 2025 ganhamos o Prêmio FINEP de inovação, na categoria descarbonização, sustentabilidade e transição energética por conta desta nossa natureza.
Temos uma equipe de desenvolvimento extremamente qualificada. Dez por cento de nossos recursos humanos estão nesta área. Dez por cento de nosso faturamento é investido nisso. No começo, este compromisso com inovação e qualidade é muito sofrido. Investe-se muitos recursos humanos, materiais e financeiros, mas o retorno não aparece. É o pipeline. Depois, à medida que as linhas de desenvolvimento avançam, produtos e tecnologias começam a se materializar e trazer resultados, aí, o investimento em PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação) deixa de pesar e passa a se transformar em uma fonte de renda.
Falando sobre negócios no exterior, seria ótimo também se detalhasse também os próximos planos da companhia. Como vocês divulgaram recentemente, uma fatia de 70% do faturamento de vocês entre 2020 e 2025 está associada a projetos de exportação.
Até 2015 tínhamos um sócio estrangeiro e por razões contratuais tínhamos limitações de cobertura de mercado internacional. Estávamos limitados ao Mercosul, onde os dois maiores países depois do Brasil, Argentina e Venezuela, enfrentavam grandes dificuldades, pouco contribuindo com nossas exportações. Naquela época as exportações representavam apenas 2.5% de nossas receitas.
Desde que compramos a parte de nossos sócios estrangeiros, e nos livramos de nossas limitações à exportação, passamos à, continuamente, aumentar nossas receitas com exportações e mercado internacional. Em 2026 esperamos que 70-80% de nossa receita venha de exportações ou do mercado internacional. E quando falo disso digo de produtos com um conteúdo tecnológico elevado, de alto valor agregado, competindo com gigantes multinacionais, em escala global. Neste sentido, como este mercado só se apresentou a nós nos últimos 5-6 anos, depois da compra e “digestão” da parte de nossos ex-sócios, vemos um espaço enorme para crescer e continuar crescendo.
Por fim, poderiam falar resumidamente da atuação da companhia em bioenergia e fertilizantes?
Como mencionei antes, são novos mercados que se apresentam. São indústrias novas e isso faz com que muitas necessidades venham sendo descobertas ao longo deste processo. Tentamos estar próximos a estas indústrias, temos um núcleo especializado neste assunto, liderado por uma das maiores autoridades nacionais em suas respectivas áreas que estão, conforme nossa filosofia, desenvolvendo e implementando soluções inovadoras e extremamente eficientes.
No mercado de fertilizantes, por exemplo, estamos buscando miniaturizar unidades produtivas. O mercado hoje é extremamente concentrado nas mãos de poucas empresas, os produtos têm valor agregado relativamente baixo, custos e risco com transporte são elevados, o país tem dimensões continentais. De modo, que nosso esforço nesta área é desenvolver que ofereçam a nossos clientes flexibilidade e custos menores enquanto garantem a eles abastecimento mais regular e seguro.
Em bioenergia, estamos desenvolvendo soluções para tratamento e valorização de biogás, redução de custos na produção de biodiesel e valorização de subprodutos. Um cliente nosso tinha uma geração de um efluente contaminado com alta concentração de metanol. Havia tentado outras duas vezes, com outras empresas, valorizar o metanol, purificando-o a ponto dele poder ser comercializado ao invés de queimado. Desenvolvemos um sistema para eles que superou as expectativas de desempenho. Agora estamos preparando este produto para oferecer a outros potenciais clientes.
Empreender no Brasil é uma tarefa hercúlea. Compramos uma chapa de aço, o fabricante, uma siderúrgica com milhares de empregados, arcou com um monte de impostos, INSS, etc. Compramos parafusos, o fabricante passa pelo mesmo. Pegamos estas matérias, conformamos, soldamos, montamos, pagamos uma enormidade de impostos e encargos. Aí, uma empresa de algum lugar remoto na Ásia, monta uma filial no Brasil, contrata 2 pessoas, e passa a competir de igual para igual conosco. Às vezes, muitas vezes, sem seguir os mesmos padrões de qualidade, de proteção ao meio ambiente, de oferta de condições de trabalho equivalentes. Uma batalha duríssima, injusta. A empresa brasileira é hoje muito menos representativa no nosso PIB do que já foi no passado. E continua encolhendo…
Quando competimos no mercado interno, competimos com empresas que não arcam com 10% dos custos sociais e fiscais que nós, quando competimos no mercado internacional, temos que precificar e agregar estes custos a nossos produtos. Numa situação ou na outra, nossas margens são comprimidas. Isso limita nossa capacidade de investir, treinar, sobreviver. Isso limita nosso crescimento por um lado e sufoca uma parcela enorme de nossa indústria, incluindo nossos fornecedores de aço, parafusos… Isso precisa mudar. Mesmo uma empresa inovadora, criativa, precisa de uma cadeia de fornecedores forte, sólida, saudável.
Do jeito que a indústria vem sendo tratada no Brasil, em breve, restará muito pouco, daquele que já foi um dos maiores parques industriais do mundo. Os industriais e empresários brasileiros são capazes e competentes. Nossa indústria é resiliente. Mas até mesmo os maiores e mais fortes acabam se curvando sob peso excessivo. O Brasil precisa urgentemente rever a forma que trata e apoia sua indústria, sob o risco de, num futuro próximo, não ter indústria para regular ou apoiar.

publicada em 2 de junho de 2026 às 5:00 




