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O DEBATE SOBRE AS TERRAS RARAS NO BRASIL FOI O GRANDE MOMENTO DA REALIZAÇÃO DA ABM WEEK 10 QUE TERMINA HOJE EM SÃO PAULO

As mudanças geopolíticas e o avanço da transição energética colocaram as terras raras no centro do debate público e abriram uma oportunidade única para que o Brasil oferte minerais críticos refinados para compradores estrangeiros com uma pegada ambiental reduzida. Esse foi um dos principais fatores apontados durante a Plenária de Mineração e Metalurgia com o tema “Terras raras: oportunidades e desafios para o Brasil“, realizada na ABM Week 10, que termina hoje em São Paulo. “O Brasil vai se posicionar como o país com as minas mais sustentáveis do mundo em termos de terras raras no prazo de dois anos“, afirmou Klaus Petersen, geólogo e membro da Associação de Minerais Críticos (AMC), durante sua fala na plenária. De acordo com o especialista, o país tem capacidade de oferecer previsibilidade para investidores, desde que defina detalhes do licenciamento ambiental.

Petersen explicou que  “o maior problema não é que os minerais críticos sejam raros, o raro é separá-los, além disso, a extração é raramente viável economicamente”. De acordo com o geólogo, para agregar valor às terras raras, geralmente encontradas em rocha dura, é necessário “desmontar e dissolver o mineral, que é um composto muito estável. Para isso, se usa ácido e calor, o que significa custo financeiro e ambiental”. O Brasil, além de possuir terras raras em rocha dura, também conta com outra alternativa: a extração em argila. “Com argila o custo baixa, porque o mineral já foi destruído pelo intemperismo.

 O membro da AMC esclarece que a ação da natureza quebra a rocha e faz com que os minerais críticos sejam dissolvidos, podendo ser separados com adição de um sal na solução, o que representa um impacto ambiental significativamente menor. “Na argila, não precisamos expor a calor, britar ou moer a rocha para obter os minerais críticos. O processo para separar esses elementos não tem problemas residuais, como odor, e o custo é reduzido, enquanto as minas que operam em rocha dura quase perdem a lucratividade.” A partir das terras raras é possível produzir ímãs que integram itens essenciais no cenário atual. “Carros elétricos, geradores eólicos e máquinas de ressonância magnética, por exemplo, usam ímãs de terras raras. Ao contrário dos ímãs de ferrite, que perdem a propriedade com calor e o tempo, os ímãs de terras raras exigem uma massa menor para ter força e possuem maior resistência a calor“, define Klaus.

O professor titular da Escola Politécnica da USP, Fernando Landgraf, defendeu que o Brasil não apenas extraia terras raras e comercialize o minério bruto, mas avance na cadeia produtiva. “Existem cinco fábricas que produzem imãs com minerais críticos no mundo. É arriscado parar na extração e separação, sem partir para processos que agregam mais valor, já que, como há poucos compradores de terras raras, há risco de oligopólio, com detenção de tecnologias“, resume. Fernando explicou que o custo da separação das terras raras é menor do que o de extração, mas ainda há obstáculos para avançar neste setor: “existe um desafio de se desenvolver os solventes para a extração, hoje em dia só os chineses fazem isso”, afirma. A produção de ímãs, próximo passo na cadeia que já é estudado pela empresa brasileira MagBras, em Lagoa Santa, também tem dificuldades. “Hoje, não se compra mais máquinas para fazer ímãs de terras raras, uma vez que a China encerrou as vendas. Isso será um problema, mas não insolúvel. Se o ocidente quer produzir ímãs, terá que criar empresas de fornos e prensas para criar esses produtos“, resume o professor.

A visão de que o Brasil precisa refinar terras raras e produzir ímãs com os minerais críticos é compartilhada por Erwin Franieck, secretário da Rede Colaborativa MiBi (Made in Brasil Integrado), criadora da MagBras. Segundo ele, é necessário “desenvolver a cadeia do mineral até o material“, para isso, ele diz que seria necessário inteligência de mercado, integração na cadeia e fazer alianças. O diferencial que poderia dar vantagem para o Brasil, na visão de Erwin, seria a produção sustentável. “Para competir com a China, não podemos nos basear apenas nos custos“, ele afirma. “Gerar sustentabilidade é o tema central no Brasil, nós somos o melhor país do mundo nessa condição“, ressalta. O palestrante citou a matriz energética limpa e a extração em argila como fatores que posicionam o Brasil como melhor alternativa para compradores que buscam minerais críticos produzidos com sustentabilidade.

Flávio Moraes da Mota, chefe do Departamento de Indústrias de Base e Extrativa do BNDES, explicou que existem obstáculos em apoiar empresas no setor. “Estávamos acostumados a lidar com grandes empresas, com grandes projetos. Agora, o cenário mudou e lidamos com junior companies, que são empresas pré-operacionais, ou seja, não tem balanço, nem operação e receita”, explica. O membro do BNDES conta que este tipo de empresa fez com que o banco criasse novos instrumentos financeiros para viabilizar o financiamento. “Não tínhamos como apoiar essas empresas via dívida, essa ferramenta pressupõe que a empresa tenha uma operação, consiga demonstrar capacidade de pagamento e impõe que se ofereçam garantias.

Em resposta, o BNDES lançou uma parceria com a Vale para criar um Fundo de Minerais Críticos e Estratégicos, com o objetivo de apoiar junior companies. A meta é captar R$ 2 bilhões em investimento. “Lançamos também uma chamada pública de mercado, para que as empresas apresentassem seus planos de negócios relacionados à transformação mineral, não apenas na mineração, mas também de transformação, passando pelo desenvolvimento de materiais estratégicos até os seus produtos manufaturados“, conta Flávio De acordo com o executivo, 56 planos de negócio foram recebidos e 12 destes estão em fase avançada. O total de investimento requisitado pelos planos em fase avançada é de R$ 9 bilhões em financiamento.

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