NAO DELETAR
HMFLOW

O ESTREITO DE ORMUZ E A SUBIDA NO PREÇO DO PETRÓLEO FIZERAM RESSURGIR NO BRASIL O “LÔBO DA QUINTA-FEIRA”, DE DELFIN NETTO

Os conflitos do Oriente Médio parecem ter feito reencarnar o famoso “Lobo da Quinta-Feira”, criado pelo então Ministro da Fazenda Delfin Neto. Na época, ele dizia que os especuladores do mercado inventavam algum problema na quinta-feira, para que na sexta-feira se instalasse “um pânico” nas bolsas de valores ( Rio e SP, então) e eles passavam a ganhar muito no “overnight” do fim de semana.  Agora, o lobo ganhou status, fala muitas línguas, ressurgiu nascido das profundezas do Estreito de Ormuz, assustando o mundo inteiro. O reflexo imediato é nos preços do barril de petróleo tipo Brent que, pela manhã, estava sendo cotado a US$ 98,27. Caiu pouco mais de 2,18%, mas ainda bem alto. No Brasil, os efeitos para os especuladores parecem óbvios e esperados no preço do diesel. Ele tem pressionado o abastecimento de transportadoras em diferentes regiões do país. Já há falta em algumas regiões mais distantes e também para a agricultura. Um levantamento da  TruckPag, startup de meios de pagamentos com soluções para frotas pesadas, baseado em dados reais de transações de abastecimento de transportadoras e frotas atendidas, mostra que o diesel S10 registrou alta média nacional de R$ 0,94 por litro (+16,43%) entre 28 de fevereiro e 11 de março. Em alguns estados, o aumento chegou a R$ 1,23 por litro no período. A evolução diária dos preços indica aceleração dos repasses, com o combustível saindo de cerca de R$ 5,73 no fim de fevereiro para mais de R$ 6,68 no dia 11 de março.

“Para quem vive do transporte, qualquer instabilidade no diesel preocupa. O combustível é um dos principais custos da operação e qualquer aumento pressiona o valor do frete“, afirma Kassio Seefeld, CEO da startup. “Mesmo com a queda recente do petróleo, o preço ainda segue sensível. Quando isso acontece, o impacto não fica só nas transportadoras, ele pode chegar ao preço final de produtos que dependem do transporte rodoviário em todo o país”, completa. Segundo o levantamento, o avanço do preço do diesel tem ocorrido de forma desigual entre os estados, com pressão mais intensa no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste.

O Maranhão lidera a alta no período, com aumento de 25,89% desde o fim de fevereiro, seguido por Goiás (20,15%), Bahia (19,83%) e Pará (19,34%). Estados com grande relevância logística também aparecem entre as maiores variações, como Paraná (19,09%), Santa Catarina (19,07%) e São Paulo (18,50%). No recorte nacional, a média de aumento já chega a 17,35%, indicando que a pressão sobre os custos de abastecimento das transportadoras se espalha por praticamente todo o país. “Em momentos de volatilidade como este, a gestão de combustível deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ser estratégica para as transportadoras. Mapear consumo, identificar desperdícios e acompanhar o preço real pago nos abastecimentos e não apenas o valor de tabela passa a fazer diferença direta na sustentabilidade financeira das operações.”  Outro fator que reforça a precisão do levantamento é o perfil da rede monitorada pela TruckPag.

Cerca de 94% dos mais de 4.700 postos credenciados na plataforma são voltados ao abastecimento de frotas pesadas e estão localizados majoritariamente em rodovias, pontos onde caminhões efetivamente realizam suas operações de abastecimento. Isso faz com que os dados reflitam com maior fidelidade a dinâmica do diesel no transporte rodoviário de cargas, oferecendo um retrato mais direto do impacto sobre a cadeia logística do que levantamentos que consideram todos os postos, incluindo aqueles voltados principalmente ao abastecimento urbano de veículos leves. “O alerta recente sobre falta de diesel no interior do Paraná mostra que a pressão deixou de ser apenas um movimento de preço e começou a impactar a operação logística. Regiões mais distantes das refinarias e mais dependentes de diesel importado tendem a sentir primeiro esses efeitos. A queda recente do Brent abre uma janela importante para recomposição de estoques, mas o mercado ainda precisa acompanhar com atenção as próximas semanas.”

PROBLEMAS NO CAMPO

A  ANP nega problemas, mas produtores de arroz relatam falta de diesel há dez dias, desde a terça-feira passada (3). Pelo menos no Rio Grande do Sul eles estão enfrentado dificuldades para receber diesel por parte de Transportadores Revendedores-Retalhistas (TRRs), que fazem a entrega do combustível nas propriedades. Como não há falta real do produto, especula-se que as ações e distribuidores e revendedores estão forçando um aumento nos preços, baseado nos conflitos do Oriente Médio. A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) disse que desde quinta-feira (5) o carregamento de combustível por TRRs parou totalmente. A Farsul entrou em contato com o governo do estado, que notificou o Ministério de Minas e Energia e a ANP para que tomassem medidas para restabelecer o fluxo normal de abastecimento de óleo diesel aos produtores rurais.

O diretor-geral da ANP, Artur Watt, reiterou a posição do órgão reafirmando que “Não visualizamos falta física de produtos no momento. Temos visto os principais produtores, como a Petrobrás, com estoques regulares e entregas normais, então a gente não está vendo problema de abastecimento.” Por outro lado, o  presidente da Farsul diz que o problema persiste. “Continuamos extremamente preocupados e atentos a essa pauta para que tenhamos resultado e a normalização do suprimento de óleo diesel aos produtores rurais em suas propriedades”.

        NOTA DO SINDICATO DE REVENDEDORES

O Sindicato Nacional do Comércio Transportador Revendedor Retalhista (SINDTRR) permanece atento às movimentações do mercado e em diálogo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), de forma a acompanhar a instabilidade no fornecimento de óleo diesel, relatada por associados em várias partes do Brasil. O presidente da entidade, Alvaro Faria, recebeu com otimismo as recentes medidas do Governo Federal anunciadas no dia de ontem (13/03), e aguarda seus efeitos na prática a partir das adaptações necessárias. “Esperamos ansiosamente que as medidas surtam efeitos e que a normalização do fluxo de oferta e demanda aconteça nos próximos dias”. O Sindicato mantém a sugestão aos empresários TRR que façam o fracionamento das entregas para evitar o desabastecimento nas pontas. Vale lembrar que o TRR atua como elo vital entre as distribuidoras e consumidores finais (indústrias, agro e saúde), e que a carga tributária de PIS/COFINS é retida antecipadamente na refinaria.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários