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OS PEQUENOS REATORES NUCLEARES EM MÓDULOS AINDA REVELAM ALGUMAS DÚVIDAS ANTES DE DOMINAREM O MERCADO GLOBAL

Uma observação cada vez mais frequente nos debates sobre Pequenos Reatores Modulares (SMRs) está merecendo uma atenção especial: quem tem uma solução para compensar a diferença de escala nas operações? Afinal, as economias obtidas na construção ajudam apenas até certo ponto, enquanto muitos projetos acabam enfrentando dificuldades econômicas não por causa do investimento inicial, mas devido aos custos associados à sua operação ao longo da vida útil. Essa questão toca no coração do modelo econômico dos SMRs. Durante décadas, a indústria nuclear evoluiu baseada em um princípio simples: quanto maior a usina, menor tende a ser seu custo unitário de geração. Os grandes reatores comerciais atualmente em operação foram concebidos justamente para aproveitar essas economias de escala.

Em uma instalação de grande porte, diversos custos fixos relacionados à operação, manutenção, segurança, licenciamento e gestão são distribuídos por uma quantidade

Reatores diferentes

muito maior de energia produzida. Para conversar sobre este tema e saber se é uma premissa ou uma falácia, procuramos o diretor técnico da Abdan, engenheiro experiente no setor nuclear, ex-presidente da Eletronuclear e consultor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA),  Leonam Guimrães, para uma entrevista sobre este tema:

– Como o senhor está acompanhando os desafios das construções destes reatores modulares?

Olha, os  SMRs surgem propondo uma lógica diferente. Em vez de construir uma única unidade de grande potência, busca-se implantar reatores menores, fabricados em série, com elevado grau de modularização e potencialmente mais rápidos de construir. A promessa é reduzir riscos de execução, encurtar cronogramas e diminuir a necessidade de grandes desembolsos de capital. Essas vantagens são reais e constituem uma das principais razões para o crescente interesse mundial nessa tecnologia.

– As exigências, apenas diminuem, mas não são eliminadas, certo?

Existe uma realidade econômica que não pode ser ignorada. Uma usina nuclear de 100 MW não exige apenas um décimo da estrutura operacional de uma usina de 1.000 MW. Muitas atividades precisam existir independentemente da potência instalada. Operadores licenciados, especialistas em proteção radiológica, equipes de segurança física, profissionais de manutenção, programas de treinamento, monitoramento ambiental, sistemas de proteção cibernética e estruturas de resposta a emergências continuam sendo necessários. Embora algumas dessas funções possam ser reduzidas, elas não diminuem na mesma proporção da potência gerada. O resultado é que o custo operacional por megawatt-hora tende a aumentar à medida que o tamanho da unidade diminui. É exatamente esse fenômeno que caracteriza as chamadas deseconomias de escala.

– O Reator é modular,menor,  mas ele tem vida longa? O que sabe sobre isso?

– Esse aspecto é particularmente importante porque uma instalação nuclear é um ativo de vida longa. Dependendo do projeto, um SMR poderá operar durante sessenta ou até oitenta anos. Ao longo desse período, os custos acumulados de operação e manutenção podem alcançar valores comparáveis ou até superiores ao investimento inicial realizado na construção. Em outras palavras, não basta construir um reator mais barato. É preciso garantir que ele permaneça economicamente competitivo durante décadas.

Por essa razão, concentrar a discussão apenas na redução do CAPEX pode levar a conclusões equivocadas. Mesmo que a modularização reduza significativamente os custos de engenharia e construção, o projeto continuará vulnerável se não houver uma estratégia clara para controlar o OPEX. O mercado de energia remunera eletricidade entregue ao longo da vida útil da instalação, não apenas a capacidade de construir a planta por um valor menor.

– Existe aquele “pulo do gato” para superar os desafios mais rapidamente?

A boa notícia é que existem caminhos promissores para enfrentar esse desafio. Talvez o mais importante deles seja abandonar a visão tradicional de que cada usina deve funcionar como uma entidade operacional independente. O avanço da digitalização permite imaginar modelos completamente diferentes daqueles que caracterizaram a geração nuclear durante os últimos cinquenta anos.

Uma possibilidade cada vez mais discutida é a criação de centros de operação remota capazes de supervisionar simultaneamente múltiplas unidades. Nesse modelo, equipes altamente qualificadas poderiam monitorar diversas instalações a partir de uma única estrutura centralizada, reduzindo significativamente custos administrativos e operacionais. Tecnologias de automação avançada, inteligência artificial e sistemas de apoio à decisão tendem a ampliar ainda mais esse potencial.

– A repetição dos projetos parece ser mais interessante nesse aspecto.. Isso é verdadeiro?

– Este é um outro aspecto. É fundamental  compreender que a lógica econômica dos SMRs não se baseia necessariamente no desempenho de uma unidade isolada. O conceito torna-se muito mais robusto quando aplicado a frotas padronizadas. Da mesma forma que a indústria aeronáutica obtém eficiência pela repetição de projetos, os SMRs podem capturar ganhos relevantes por meio da fabricação seriada, da padronização de componentes, do compartilhamento de peças sobressalentes e da uniformização dos programas de treinamento e manutenção. Nesse contexto, parte das perdas associadas à menor escala individual pode ser compensada pelas economias decorrentes da produção em massa e da experiência operacional acumulada.

A própria concepção dos reatores também desempenha papel decisivo. Muitos projetos modernos procuram reduzir ao máximo a quantidade de equipamentos ativos, substituindo sistemas complexos por soluções passivas baseadas em fenômenos físicos naturais. Quanto menor o número de bombas, válvulas, motores e componentes sujeitos a desgaste, menores tendem a ser os custos de manutenção ao longo da vida útil da instalação. Nesse sentido, simplicidade não representa apenas uma vantagem de segurança, mas também um atributo econômico.

– Uma pergunta que sempre se registra quando trata-se deste modelo de reator. O objetivo é basicamente gerar energia?

Existe ainda uma dimensão frequentemente negligenciada no debate. Talvez os SMRs não devam ser avaliados exclusivamente como produtores

Um submarino nuclear americano da Classe Virgínia, numa rara aparição

de eletricidade. Em muitas aplicações, seu valor pode estar associado à produção simultânea de calor industrial, hidrogênio, água dessalinizada, vapor de processo ou energia para data centers e instalações remotas. Quando um único ativo passa a gerar múltiplos produtos e serviços energéticos, os custos operacionais deixam de ser suportados apenas pela venda de eletricidade, melhorando significativamente sua competitividade econômica.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente em aplicações marítimas, offshore ou em regiões isoladas. Em locais onde o abastecimento energético depende de combustíveis importados ou de cadeias logísticas complexas, o valor econômico da confiabilidade e da autonomia energética pode superar em muito as penalidades associadas à menor escala dos reatores. Não por acaso, algumas das perspectivas mais promissoras para os SMRs estão associadas a navios, plataformas marítimas, mineração remota e sistemas energéticos isolados.

– Qual é o grande futuro desses reatores modulares?

No final das contas, a discussão sobre SMRs precisa evoluir além da construção. A modularização e a fabricação seriada são avanços importantes, mas representam apenas parte da equação econômica. O verdadeiro desafio consiste em desenvolver modelos operacionais capazes de neutralizar ou compensar as inevitáveis diseconomias de escala associadas a unidades menores.

O futuro dos SMRs dependerá, em grande medida, menos da engenharia do reator e mais da inovação na forma de operá-lo. Automação, digitalização, operação remota, padronização em larga escala e integração com aplicações industriais poderão ser tão importantes quanto os avanços tecnológicos do próprio núcleo do reator. Quem conseguir combinar esses elementos de maneira eficaz terá maiores chances de transformar os SMRs em uma alternativa competitiva, sustentável e economicamente viável para as próximas décadas.

 

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Drausio Lima Atalla
Drausio Lima Atalla
23 dias atrás

Um enigma nuclear. O presente artigo do Leonam demonstra que ao menos parte de nossa inteligência domina a ciência e indústria nucleares. Entretanto nossas decisões nacionais na área nuclear são praticamente todas anti nucleares. Angra 3 parece ser o Cavalo de Tróia dos átomos de Urânio e Plutônio no Brasil. Pela complexidade e senilidade tecnológica, complexidade financeira, CAPEX ilimitado e infinito, além de incerto, a usina paralisa há décadas nosso desenvolvimento nuclear. Não aumentamos a geração elétrica, que precisamos triplicar para triplicar nossa produtividade, nos mantendo pobres ou miseráveis, não enriquecemos o Urânio para consumo interno e externo (não para… Leia mais »

Última edição 23 dias atrás por Drausio Lima Atalla
Drausio Lima Atalla
Drausio Lima Atalla
23 dias atrás

Os reatores médios e pequenos, SMRs, carregam virtudes como Leonam falou, mas não serão a panaceia que se vislumbra. De fato reduzem o maior inimigo dos reatores grandes, o CAPEX de 5 bilhões de dólares overnight, acrescidos de 2 ou 3 bilhões de juros durante a construção, caso esta dure cinco anos, ou crescer com taxa de 1 bilhão por ano de atraso acrescido da compra de eletricidade para repor o que não consegue gerar e entregar ao mercado. Em dois ou três anos a dívida dobra, mais atrasos, triplica, até se elevar tanto que deixa a estação especial lá… Leia mais »

Drausio Lima Atalla
Drausio Lima Atalla
23 dias atrás

Pode parecer megalomania, mas saibamos nós que os americanos há muito já passaram de 20mil unidades geradoras de eletricidade, não contando com as centenas ou milhares de unidades eólicas, pequenas, pequeníssimas por natureza. Não por outro motivo são o que são. A China segue logo atrás, a India também e os europeus. Mesmo Portugal, cinco ou seis vezes mais próspero do que o Brasil, sonho de nossa diáspora. É a eletricidade, idiota.