PATRICIA WIELAND ASSUME HOJE A PRESIDÊNCIA DA LAS/ANS COM A META DE TORNAR A ENTIDADE MAIS DINÂMICA E MODERNA
Física, doutora em Engenharia de Produção e especialista em gestão e inovação no setor nuclear, Patricia Wieland assume hoje (27) a liderança da Seção Latino-Americana da American Nuclear Society (LAS/ANS), durante a International Nuclear Atlantic Conference (INAC 2026), na Urca (RJ). A nova presidente assume a entidade em um momento simbólico. Criada há mais de cinco décadas, a associação completou 50 anos em 2025, atuando na promoção da ciência e da tecnologia nuclear em áreas como geração de energia elétrica, saúde, indústria, agricultura e meio ambiente, estimulando a cooperação, a troca de conhecimento e a integração entre profissionais e instituições da região. Em entrevista ao Petronotícias, Patricia detalhou quais serão as prioridades de sua gestão. A engenheira afirmou que deseja ver LAS/ANS ainda mais integrada, dinâmica e preparada para o futuro. Para isso, vai focar em temas como formação de novos talentos para o setor, tecnologias e cooperação com outros países.
A senhora assume a presidência da Seção Latino-Americana da American Nuclear Society (LAS/ANS) para o mandato 2026–2027 em um momento de renovado interesse pela tecnologia nuclear. Como você chega a essa nova função e quais serão as principais prioridades da sua gestão?
Assumo esta presidência com grande responsabilidade e entusiasmo, consciente da história construída pela LAS/ANS ao longo de mais de cinco décadas. Nosso desafio é transformar essa história em futuro, aproximando instituições, fortalecendo a formação de profissionais e ampliando a participação das novas gerações na construção de uma América Latina que reconheça e utilize, de forma segura e responsável, todo o potencial da ciência e da tecnologia nuclear.
A LAS/ANS completou 50 anos em 2025. Como a senhora avalia o papel que a organização desempenhou ao longo dessas cinco décadas e como pretende fortalecer sua atuação nos próximos anos?
A LAS/ANS consolidou uma trajetória importante na promoção da ciência e da tecnologia nuclear na América Latina, estimulando a cooperação, a troca de conhecimento e a integração entre profissionais e instituições da região. Na nova gestão, queremos dar continuidade e fortalecer esse trabalho, com atenção especial aos Comitês Técnicos, à participação de novos profissionais e à formação da força de trabalho nuclear.
Sua trajetória inclui a coordenação de programas da World Nuclear University (WNU), em Londres, voltados à formação de lideranças para o setor nuclear. O que essa experiência trouxe para sua visão sobre a formação de novos profissionais?
A formação de lideranças é fundamental para o futuro do setor nuclear. A experiência na WNU permitiu trabalhar diretamente com jovens profissionais e desenvolver programas voltados à liderança. Essa experiência reforçou a importância de investir não apenas na formação técnica, mas também no desenvolvimento de competências que permitam aos profissionais assumir responsabilidades e contribuir para a evolução do setor.
A inteligência artificial está transformando diferentes áreas da ciência e da tecnologia. Que importância a senhora atribui à incorporação dessas novas ferramentas na formação dos profissionais que atuarão no setor nuclear?
A formação para o futuro precisa acompanhar as transformações tecnológicas. A inteligência artificial é uma dessas áreas que já fazem parte desse processo e que precisam ser incorporadas à formação dos profissionais, sempre considerando as características e as necessidades específicas do setor nuclear.
A cooperação entre os países latino-americanos aparece como uma das prioridades da sua gestão. Quais são os caminhos para ampliar essa integração e quais benefícios ela pode trazer para o desenvolvimento do setor nuclear na região?
A América Latina vive hoje momentos diferentes em relação à energia nuclear. Argentina, Brasil e México já possuem geração nuclear e discutem sua expansão. Ao mesmo tempo, países como Colômbia, Chile, Peru, Bolívia, Paraguai e outros estão avaliando ou estruturando as condições necessárias para uma eventual introdução da geração nuclear. Essa diversidade de estágios cria uma oportunidade extraordinária para a LAS/ANS atuar como uma plataforma de cooperação regional.
Minha intenção é fortalecer a LAS/ANS como um espaço que aproxime países, instituições, universidades, empresas, órgãos reguladores e profissionais, promovendo o compartilhamento de conhecimento e experiências. Podemos ampliar o intercâmbio de especialistas, projetos conjuntos, programas de formação, utilização compartilhada de competências e infraestrutura e, principalmente, a integração das novas gerações de profissionais.
Mais do que compartilhar tecnologia, acredito que precisamos compartilhar conhecimento, pessoas e oportunidades. A LAS/ANS pode ser o elo que conecta essas diferentes experiências e transforma a diversidade dos programas nucleares latino-americanos em uma força para o desenvolvimento da região.
A formação de novas gerações de profissionais também está entre as prioridades anunciadas. Quais são hoje os principais desafios para preparar a força de trabalho que o setor nuclear precisará no futuro?
Um dos grandes desafios para preparar a força de trabalho nuclear do futuro é reconhecer que os projetos nucleares são complexos, multidisciplinares e de longa duração. Isso exige não apenas profissionais tecnicamente muito bem preparados, mas também gestores e coordenadores de projetos capazes de liderar equipes ao longo de muitos anos, lidar com diferentes áreas do conhecimento e navegar com segurança por períodos de grande incerteza, inclusive orçamentária.
É preciso, portanto, desenvolver uma combinação de competências técnicas, de gestão e de liderança. Um coordenador de projeto nuclear precisa ser capaz de formar equipes, atrair e, principalmente, reter talentos em projetos cujo horizonte pode ultrapassar décadas. Essa capacidade de manter o conhecimento e o comprometimento das equipes é estratégica para a continuidade dos programas nucleares.
Nesse sentido, outro aspecto fundamental é a transferência de conhecimento entre gerações, não é mesmo?
A experiência acumulada por profissionais que participaram de grandes projetos e programas nucleares não pode ser perdida com a aposentadoria dessa geração. A mentoria é uma ferramenta extremamente valiosa para acelerar a formação dos mais jovens, transmitir conhecimento que muitas vezes não está nos livros e ajudá-los a compreender não apenas os aspectos técnicos, mas também os desafios de gestão, tomada de decisão e relacionamento institucional.
Por isso, precisamos pensar a formação de recursos humanos como um processo contínuo. Universidades e instituições de pesquisa são fundamentais para a formação técnica, mas a experiência prática, a mentoria e o desenvolvimento de competências de liderança são igualmente importantes.
A LAS/ANS pode contribuir justamente incentivando a conexão dessas diferentes dimensões: formação acadêmica, experiência profissional, mentoria, liderança e cooperação internacional. Preparar a próxima geração não significa apenas formar bons especialistas; significa formar profissionais capazes de conduzir projetos complexos, preservar o conhecimento e liderar o setor nuclear em um ambiente tecnológico e institucional em constante transformação.
No Brasil, a senhora também atua na direção das Olimpíadas Nucleares – Hackapower, iniciativa voltada à mobilização de estudantes e jovens profissionais. Qual é o papel de iniciativas desse tipo na aproximação das novas gerações com a ciência e a tecnologia nuclear?
Iniciativas como as Olimpíadas Nucleares – Hackapower têm justamente o objetivo de apresentar uma nova metodologia que contribui para aproximar o universitários do mercado de trabalho no setor nuclear. Quando falamos apenas de tecnologia, muitas vezes apresentamos conceitos complexos e distantes da realidade dos estudantes. Quando criamos desafios, equipes e problemas atuais concretos para serem resolvidos, transformamos o conhecimento em experiência.
O Hackapower coloca os jovens no centro do processo. Eles precisam pesquisar, conversar com mentores e outros especialistas locais e internacionais, visitar instalações, desenvolver soluções, apresentar suas ideias com assertividade e ter disciplina para atenter todos os requisitos e os prazos da competição. Isso estimula não apenas conhecimentos técnicos, mas também criatividade, liderança, comunicação e capacidade de inovação.
Este ano, na quarta edição do Hackapower, expandimos para a América Latina com o apoio da Oncidium Foundation e CIETEC. Já temos perspectivas para expandir ainda mais no ano que vem.
Entre as iniciativas previstas para a sua gestão está a realização do Simpósio da LAS/ANS de 2027 no Brasil. O que a senhora espera desse encontro?
Quero que seja um espaço efetivo de integração latino-americana, no qual representantes de todos os países possam interagir, compartilhar experiências e fortalecer uma rede de relacionamentos profissionais que permaneça ativa para além do próprio simpósio.
Gostaria que o encontro reunisse diferentes gerações e diferentes setores: pesquisadores, profissionais, estudantes, empresas, instituições governamentais e organismos internacionais. E que conseguíssemos sair do simpósio não apenas com apresentações e documentos, mas com novas conexões, projetos de cooperação, oportunidades concretas para os jovens profissionais e uma rede regional ainda mais forte.
Será também uma oportunidade para olhar para o futuro e discutir como a tecnologia nuclear poderá contribuir para alguns dos grandes desafios da América Latina — a transição energética, a saúde, a segurança alimentar, a indústria e o desenvolvimento sustentável.
Ao final do mandato 2026–2027, que legado a senhora gostaria de deixar para a LAS/ANS?
Eu gostaria de deixar uma LAS/ANS ainda mais integrada, dinâmica e preparada para o futuro. Quero que, ao final da gestão, possamos olhar para trás e perceber que ampliamos a participação dos países latino-americanos, fortalecemos os Comitês Técnicos, aproximamos instituições e criamos novas oportunidades para estudantes e jovens profissionais.
Mas, sobretudo, gostaria de deixar uma associação mais conectada com as novas gerações. Uma LAS/ANS que não apenas preserve a importante história construída ao longo de mais de cinco décadas, mas que seja capaz de antecipar os desafios e oportunidades das próximas décadas.
A LAS completou 50 anos em 2025 e chegará aos 52 anos ao final desta gestão. É uma história que merece ser valorizada, mas também nos impõe uma responsabilidade: transformar esse patrimônio em futuro.
Se conseguirmos fortalecer a cooperação, formar pessoas, estimular a inovação e mostrar à sociedade latino-americana que a tecnologia nuclear é parte da solução para muitos dos desafios que enfrentamos, acredito que teremos deixado uma contribuição significativa.
Esse será o meu principal objetivo: uma LAS/ANS mais integrada, mais jovem, mais inovadora e ainda mais relevante para o desenvolvimento da América Latina.

publicada em 27 de agosto de 2026 às 5:00 




