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PRECIFICAÇÃO DE CARBONO É PASSO CRUCIAL PARA DESTRAVAR PROJETOS DE CAPTURA E ARMAZENAMENTO DE CO2, AVALIA CCS BRASIL

A regulamentação do mercado de carbono e a definição de regras para precificação das emissões serão determinantes para atrair investimentos e consolidar uma cadeia nacional de captura e armazenamento de carbono (CCS), avalia a presidente da CCS Brasil, Camila Ramos. Criada para promover a cooperação entre academia, governo, financiadores, indústria e sociedade, a entidade defende que o Brasil reúne vantagens competitivas para desenvolver esse mercado, incluindo uma cadeia consolidada de fornecedores da indústria de óleo e gás. “Grande parte da infraestrutura, dos serviços e da expertise desse setor pode ser adaptada ao CCS, permitindo que empresas brasileiras aproveitem as oportunidades de um mercado com forte potencial de crescimento“, afirma. A entrevista também aborda o potencial do país em bioenergia, etanol e armazenamento geológico para liderar projetos de remoção de carbono.

Para contextualizar, você poderia explicar brevemente como surgiu a organização e qual tem sido o foco de vocês no momento?

A CCS Brasil é uma associação de representação das empresas interessadas no desenvolvimento das tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono. Estamos em funcionamento há quatro anos e o nascimento da associação não foi tão convencional quanto o de outras organizações do tipo. Ela nasceu de uma certa inquietude minha e da Isabela Morbach, que é minha parceira e com quem fundei a associação. Nós éramos pesquisadoras na área de CCS — eu na parte de engenharia e a Isabela na regulação — e entendemos que eram competências complementares para tentar impulsionar o tema no Brasil. De lá para cá, crescemos e hoje temos mais de 20 associados com o processo de filiação totalmente finalizado, vindos de áreas bastante diversas.

Atualmente, temos uma perspectiva muito diferente daquela de quando constituímos a associação. Estamos em um ambiente em que a CCS tem um reconhecimento maior e bastante claro sobre sua importância para as metas climáticas e para a competitividade industrial.

Atuamos em muitas frentes, mas um dos nossos focos fundamentais sempre foi a regulação. Esse era um passo essencial que o Brasil ainda não tinha dado na época da fundação da associação, pois não havia um marco legal para as atividades, especialmente para o armazenamento geológico de CO2. Tivemos uma atuação muito forte nesse período, trabalhando em conjunto com diversos atores e instituições para colocar esse marco de pé. Desde 2024, o Brasil conta com essa base legal, que foi integrada à Lei do Combustível do Futuro.

Falando especificamente sobre o potencial do Brasil para esse tipo de atividade, quais seriam os principais destaques do país para desenvolver o CCS por aqui? O que você poderia destacar de mais relevante?

O Brasil, para variar, tem potencial para tudo, e com o CCS não é diferente. Fundamentalmente, a tecnologia é aplicada com dois grandes objetivos: ou para reduzir emissões, deixando de emitir a partir de processos industriais e de geração elétrica, ou para remoção de CO2 da atmosfera. No primeiro caso, quando fazemos a captura de carbono para impedir que o gás vá para a atmosfera, temos um potencial de endereçamento proporcional à nossa indústria, que é muito relevante. Refiro-me às indústrias de difícil abatimento de emissões aqui no Brasil, como as siderúrgicas, as cementeiras e a indústria química. Todas elas são candidatas naturais aos processos de CCS. Essas são as tecnologias disponíveis hoje no mercado com maturidade tecnológica, processos bastante conhecidos e aplicados em escala comercial que conseguem lidar com o volume das emissões industriais no tempo necessário para o processo de descarbonização.

A outra aplicação é a de remoção de CO2, que ocorre quando criamos processos nos quais, na prática, retiramos o carbono que já está na atmosfera. Existem duas grandes vertentes para isso, ambas com potencial fundamental no Brasil. A primeira é a captura direta do ar (DAC), na qual se utilizam grandes exaustores em espaço aberto para sugar o ar e filtrar o CO2. O Brasil ou qualquer outro lugar do mundo pode fazer essa captura, desde que tenha a geologia adequada.

A segunda seria a bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS). Quando capturamos o carbono a partir de processos de bioenergia, não estamos apenas deixando de emitir; estamos, na verdade, retirando o CO2 da atmosfera. Como se trata de um CO2 biogênico, ele já estava na atmosfera e foi incorporado por fotossíntese durante o crescimento da biomassa. Quando transformamos essa biomassa em energia ou combustível — como na fermentação da cana-de-açúcar para o etanol ou na queima de resíduos agrícolas para gerar eletricidade —, esse CO2 normalmente voltaria para o ambiente em um ciclo relativamente neutro.  

Diante da força do Brasil na produção de bioenergia, essa parece ser uma frente promissora…

Esse potencial brasileiro é expressivo por conta da nossa grande produção de bioenergia em comparação ao resto do mundo, mas se destaca especialmente pelos custos muito mais acessíveis para a implementação do CCS na indústria do etanol. Como o CO2 liberado na fermentação da cana-de-açúcar ou do milho é extremamente puro, nós eliminamos uma etapa que costuma ter um custo financeiro muito elevado: a separação e filtragem das moléculas para isolar o CO2.

No caso do etanol, o gás já vem praticamente pronto, exigindo apenas um condicionamento mínimo e processos muito mais baratos antes de ser enviado para o armazenamento geológico. Combinamos, assim, a capacidade de remoção de CO2 via bioenergia com custos muito competitivos.

O mundo já reconhece esse potencial do BECCS aplicado ao etanol brasileiro há muito tempo, e agora o Brasil faz o seu reconhecimento formal. Isso acontece tanto pelo avanço de projetos comerciais na área quanto pela inclusão do tema no Plano Clima, que reconhece a importância do CCS para a indústria e para a geração elétrica, mas destaca especialmente a bioenergia com CCS para tornar o setor energético brasileiro carbono negativo.  

E quanto às possibilidades de projetos de estocagem de CO2?

Temos a sorte de contar com uma geologia altamente favorável. Afinal, de nada adiantaria termos as fontes emissoras ou os processos de remoção se não tivéssemos onde estocar o gás. O Brasil possui mais de 40 bacias sedimentares, tanto em terra (onshore) quanto no mar (offshore), com potencial para receber o CO2. Embora o potencial específico precise ser avaliado com a granularidade de cada projeto, reconhecemos de forma ampla essa capacidade geográfica.

No ambiente onshore, há uma feliz coincidência geográfica: as fontes de produção de etanol estão localizadas próximas ou diretamente acima dessas bacias sedimentares. Já no ambiente offshore, temos a grande vantagem dos reservatórios maduros e depletados de óleo e gás, que também podem ser reaproveitados para receber o CO2. Portanto, temos vantagens competitivas por várias frentes diferentes no país para o desenvolvimento dessas tecnologias.

Olhando agora um pouquinho para o futuro, o que a CCS Brasil e você veem de necessário para o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores e de empresas que atuem nesse segmento? O que o país precisa fazer para fomentar esse mercado?

O sinal mais importante que precisa acontecer para atrairmos investimentos de maneira geral — o que gerará uma resposta natural na cadeia de suprimentos — é termos diretrizes claras de precificação de carbono. Sem dúvida nenhuma, a precificação é algo de que não só o Brasil, mas o mundo inteiro precisa para que qualquer solução de descarbonização faça sentido econômico. A precificação do CO2 é o estímulo econômico mais importante para que essas tecnologias ganhem a escala de que precisamos. 

Felizmente, temos mecanismos desse tipo em andamento. O SBCE (Sistema Brasileiro de Comercialização de Emissões), por exemplo, é inspirado no mercado de carbono europeu (o ETS da União Europeia). Ele ainda está em fase de regulamentação — e um trabalho fundamental da nossa associação é justamente harmonizar as aplicações de CCS dentro dessa regra —, mas já se configura como um sinal claro de que haverá uma regulação para balizar a redução de emissões de gases de efeito estufa.

Além da precificação, o país tem uma vantagem importante: a sólida cadeia de fornecedores da indústria de óleo e gás. Grande parte da infraestrutura, dos serviços e da expertise desse setor pode ser adaptada ao CCS, permitindo que empresas brasileiras aproveitem as oportunidades de um mercado com forte potencial de crescimento. Acredito que a combinação da precificação com o aproveitamento dessa base industrial existente são os fatores fundamentais para impulsionarmos nossa cadeia de suprimentos doméstica.

Quais serão as próximas ações e atividades que a CCS Brasil está planejando? Quais são os principais focos da organização no momento?

A CCS Brasil tem um braço atuando em cada uma das frentes que discutimos aqui, além de outras áreas correlatas. Para este ano, há pontos cruciais que requerem um engajamento ainda mais ativo da nossa parte e de nossos membros. O primeiro deles é a harmonização das aplicações de CCS ao SBCE (Sistema Brasileiro de Comercialização de Emissões). Isso mexe diretamente com a atratividade econômica dos projetos e é o ponto de partida para muitos modelos de negócio no país, tornando-se uma pauta fundamental.

O segundo ponto é a regulamentação das atividades de CCS pela ANP, um desafio sensível e muito importante. O mundo passa hoje por uma atualização profunda em suas diretrizes e arcabouços regulatórios porque entramos em uma fase na qual precisamos avançar em escala comercial. A ANP sempre foi muito ativa no tema, mesmo antes da aprovação do Marco Legal, divulgando relatórios e compartilhando sua visão regulatória. Agora, nessa fase de regulamentação efetiva, a CCS Brasil continuará contribuindo para o processo, representando seus associados e qualificando o debate para esse novo momento.

Outro tema fundamental que carregamos é o licenciamento ambiental. Como se trata de aplicações relativamente novas para alguns setores e regiões do país, este é um dos gargalos mais sensíveis para o avanço das tecnologias e estamos trabalhando intensamente nele.

Por fim, se eu puder acrescentar mais uma prioridade, é a qualificação do debate público. À medida que a sociedade começa a ouvir falar mais sobre essas tecnologias, vemos uma proliferação de desinformação. Não podemos correr o risco de falhar na entrega da descarbonização por ficarmos presos a discussões sem embasamento técnico. Portanto, a comunicação e a difusão de informação qualificada continuam sendo pilares extremamente relevantes e presentes nas atividades da associação.

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