PRESIDENTE DA ABDAN DEFENDE REFORMA DO MARCO LEGAL E NOVAS USINAS PARA QUE O SETOR NUCLEAR GANHE ESCALA NO BRASIL
Embora seja apontada como estratégica e crucial para a segurança energética, a fonte nuclear vive um momento de impasse no Brasil. Diante da indefinição do governo sobre a conclusão de Angra 3, representantes da indústria defendem uma revisão do marco legal para ampliar a participação da iniciativa privada no segmento. Para o presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), Celso Cunha, a modernização da legislação pode abrir caminho para novos investimentos e ajudar o setor a ganhar escala.
“O primeiro ponto que nós precisamos resolver é a questão do marco legal. É necessário ter um marco legal moderno para o setor, de forma que a iniciativa privada possa entrar de forma pujante”, afirmou Cunha nesta sexta-feira (25), durante participação no evento CNN Talks Energia.
O presidente da ABDAN lembrou que um estudo do BNDES estima em R$ 25 bilhões o valor necessário para concluir Angra 3. Em contrapartida, seriam R$ 23 bilhões para descomissionar o projeto. “Então, não existe nenhuma fonte capaz de entregar 1,4 GW por uma diferença de apenas R$ 2 bilhões. É uma discussão eminentemente política”, ponderou.
Ao comentar as críticas relacionadas ao custo da geração nuclear, Cunha argumentou que a falta de escala é um dos principais fatores que pressionam os preços. Segundo ele, a sucessão de incertezas e interrupções na construção de usinas impede que a indústria aproveite ganhos de escala. Nesse contexto, o executivo defendeu que a sinalização de novos projetos poderia contribuir para reduzir os custos da energia nuclear no país. “Outro dia me perguntaram como é que a gente barateia o custo de Angra 3. Eu falei: faz Angra 4. O grande problema é escala”, ponderou. Para Cunha, a mesma lógica ajuda a explicar o avanço dos pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês), cuja produção em escala poderia reduzir gradualmente o custo da tecnologia.
Ainda sobre Angra 3, o presidente da ABDAN afirmou que a demora na definição sobre o futuro do projeto contribui para elevar as despesas. “Quanto mais tempo você demora, mais caro fica e mais você gasta. Só para termos uma ideia, são R$ 1,2 bilhão por ano apenas para armazenar os equipamentos que estão lá. E hoje você tem quase 90% dos equipamentos, todos modernos, já no local”, disse.
RETOMADA GLOBAL
Cunha também destacou o movimento de retomada da energia nuclear em diferentes países. Segundo ele, o mundo conta atualmente com cerca de 377 GW de capacidade nuclear, distribuídos por 413 usinas em operação, enquanto outras 72 estão em construção. Ao todo, seriam 35 países com usinas nucleares em funcionamento e outros 60 em processo de entrada no setor.
O executivo citou ainda a recente decisão da Itália de retomar sua aposta na fonte, após movimentos semelhantes envolvendo Alemanha e Canadá. Para Cunha, a retomada internacional está relacionada principalmente à busca por segurança energética e ao crescimento da demanda associada aos data centers e à inteligência artificial.
“Esse processo de retomada é impulsionado pela segurança energética e pela expansão dos data centers e da inteligência artificial. Existe toda uma nova trilha sendo construída para a energia nuclear”, afirmou.
Nesse cenário, os pequenos reatores modulares aparecem como uma das alternativas para ampliar a presença da fonte em diferentes aplicações. Cunha citou dados recentes sobre os custos iniciais da tecnologia, ressaltando que os primeiros projetos ainda apresentam preços elevados, mas que a tendência histórica de outras tecnologias indica redução significativa dos custos à medida que a produção ganha escala.
“O primeiro reator ainda custa caro. Estamos falando de uma energia em torno de US$ 100, algo próximo de R$ 500. Mas a história mostra que, à medida que a tecnologia entra em escala, esse custo cai para menos da metade. E, quando você compra, não vai comprar um único reator, mas uma quantidade”, concluiu.

publicada em 25 de setembro de 2026 às 15:00 




