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EL NIÑO DE GRANDE INTENSIDADE ENTRA NO RADAR DO SETOR ELÉTRICO POR POSSÍVEIS IMPACTOS NA TARIFA DE ENERGIA

O avanço das projeções climáticas para a formação de um fenôeno El Niño no segundo semestre de 2026 já começa a influenciar as expectativas do setor elétrico brasileiro. De acordo com modelos acompanhados pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), existe 82% de probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre maio e julho e 96% de chance de permanência durante o verão de 2026/2027. Parte das projeções já considera a possibilidade de um evento de grande intensidade, chamado de “Super El Niño”, quando o aquecimento do Pacífico Central e Oriental ultrapassa 2°C e permanece nesse nível por pelo menos três meses consecutivos.

O fenômeno costuma provocar redução das chuvas nas regiões Norte e Nordeste, atraso do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste e aumento da frequência de eventos climáticos extremos no Sul. Para o sistema elétrico brasileiro, que ainda possui forte dependência hidrológica, o cenário representa um potencial aumento dos riscos operacionais e econômicos ao longo do segundo semestre. Com isso, cresce também o risco de acionamento de bandeiras tarifárias vermelhas e de alta nos preços da energia no mercado de curto prazo. Matheus Machado (foto principal), especialista em inteligência de mercado do Grupo Bolt, afirma que o quadro climático deve pressionar diretamente os preços da energia nos próximos meses, que respondem rapidamente às perspectivas meteorológicas.

Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste ainda operam em níveis relativamente confortáveis, mas o atraso das chuvas e as temperaturas elevadas devem acelerar o consumo dessas reservas ao longo do segundo semestre. Com Norte e Nordeste enfrentando seca prolongada, aumenta a dependência do subsistema Sul, que possui predominância de usinas a fio d’água e menor capacidade de armazenamento. Esse desequilíbrio eleva a necessidade de acionamento de térmicas, pressionando o mercado spot e aumentando o custo da energia para consumidores e empresas”, disse o especialista.

Embora os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste ainda operem em patamares próximos de 66% da capacidade armazenada, segundo dados do ONS, o mercado já acompanha os possíveis impactos de um período prolongado de redução das afluências associado ao crescimento estrutural da demanda por energia e às temperaturas acima da média.

Os impactos do El Niño devem ocorrer de maneira desigual no território nacional. Enquanto Norte e Nordeste tendem a registrar estiagens mais intensas e redução das afluências, afetando diretamente a geração hidrelétrica dessas regiões, o Sul pode enfrentar aumento das precipitações e eventos extremos, com reflexos sobre infraestrutura e logística. Já no Centro-Oeste e Sudeste, a combinação de temperaturas acima da média e maior risco de queimadas deve pressionar as redes de distribuição e ampliar a demanda por energia destinada à refrigeração.

Na avaliação de analistas do setor, o segundo semestre de 2026 deve recolocar em evidência o debate sobre segurança energética, previsibilidade de preços e resiliência do modelo elétrico brasileiro, em um contexto de crescente instabilidade climática e expansão estrutural da demanda.

Além da pressão sobre os preços, especialistas alertam para uma transformação mais profunda: eventos climáticos extremos passam a exercer influência crescente na precificação de risco do setor elétrico. Historicamente, o modelo brasileiro foi estruturado com base em séries hidrológicas de longo prazo e em premissas estatísticas de recorrência climática. Entretanto, o aumento da frequência de secas severas, ondas de calor e eventos extremos simultâneos em diferentes regiões começa a desafiar essas premissas, elevando a sensibilidade do sistema a choques antes considerados improváveis.

O setor elétrico brasileiro ainda carrega forte exposição hidrológica. Em um cenário de maior instabilidade climática, energia deixa de ser apenas uma linha operacional e volta a se tornar uma variável crítica de previsibilidade de caixa e proteção financeira para as empresas“, disse Philipe Kilzer (foto ao lado), Diretor de Operações Estruturadas, Grupo Bolt

Na avaliação de Kilzer, esse movimento deve acelerar a procura das empresas por estruturas de proteção energética. Companhias mais expostas ao mercado regulado ou à volatilidade do curto prazo tendem a sentir de forma mais intensa os ciclos de estresse hidrológico, aumentando a importância de estratégias como autoprodução, contratos estruturados de longo prazo e mecanismos de redução de exposição tarifária.

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