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PRIMEIRA OPERAÇÃO COM BIOETANOL NO BRASIL ABRE CAMINHO PARA BUNKER ONE NEGOCIAR NOVOS ACORDOS COM GRANDES ARMADORES GLOBAIS

A Bunker One deu um novo passo em suas operações no Brasil em julho, ao concluir o primeiro abastecimento com bioetanol de uma embarcação de longo curso na América Latina. Ao todo, a empresa forneceu 635 mil litros de etanol anidro ao navio CMA CGM IRON, no Porto de Santos. Agora, após a operação pioneira, a companhia já trabalha para ampliar os negócios relacionados aos biocombustíveis e afirma manter conversas com grandes armadores interessados em replicar a experiência. “Recentemente, tivemos contato com armadores asiáticos que também demonstraram interesse em avaliar a possibilidade de replicar a operação com etanol”, contou o CEO da Bunker One, Flavio Ribeiro. “Temos acordos firmados e trabalhos sendo conduzidos neste exato momento com grandes armadores globais alinhados a essa temática de biocombustíveis”, acrescentou.

O head de operações da Bunker One, Daniel Caldas, ressalta, por sua vez, que a empresa aguarda o avanço das regulamentações técnicas e ambientais para o uso do etanol e de outros combustíveis renováveis no setor marítimo. “A uniformização das regras traz o conforto jurídico necessário para que os armadores tomem a decisão de investir em novas embarcações que consomem esses biocombustíveis, criando o volume e a tração de mercado de que o setor precisa”, declarou.

Para começar, poderiam falar um pouco do pioneirismo dessa primeira operação de abastecimento com bioetanol?

Daniel Caldas, head de operações da Bunker One

Flavio Ribeiro: O etanol já é um combustível muito corriqueiro no Brasil e vem ganhando espaço globalmente em diversas aplicações. Contudo, para o mercado marítimo, trata-se de uma grande novidade.

A oportunidade para realizar essa operação de abastecimento com bioetanol surgiu como consequência do entendimento de que as embarcações projetadas internacionalmente para consumir metanol também podem utilizar o etanol, dado que são moléculas muito semelhantes. Isso se torna um grande catalisador para o mercado brasileiro, pois nosso país é um produtor de larga escala, disputando a liderança global na produção de etanol diretamente com os Estados Unidos. 

Agora, o grande desafio passa para os reguladores internacionais, especificamente a IMO (International Maritime Organization), para chancelar o uso do etanol como um combustível que efetivamente registra a redução de emissões exigida para os próximos anos. Nós já conhecemos as virtudes do etanol no Brasil desde a época do Proálcool, mas ver esse combustível ser adotado nesse patamar do transporte marítimo é um marco extremamente interessante.

E do ponto de vista técnico? Quais foram os principais destaques dessa operação?

Daniel Caldas: Trata-se do primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres de longo curso na América Latina, uma das maiores embarcações em operação nesta região. O diferencial foi introduzir esse combustível em um navio de linha regular (liner), que escala os portos brasileiros periodicamente. 

Isso abre para o Brasil, e para o Porto de Santos em particular, a oportunidade de se consolidar como um hub para abastecimento de biocombustíveis. Já existe capacidade logística instalada em Santos, com terminais habituados a manusear o produto, dutos ligando as usinas ao porto e estrutura de armazenagem. 

Qual foi o balanço dessa operação e como está a expectativa para realizar novos abastecimentos?

Balsa Dona Isa foi usada durante a operação de abastecimento com bioetanol

Flavio Ribeiro: Como fornecedores de combustível para a navegação e líderes globais na comercialização de bunker, mantemos uma relação permanente com nossos clientes e acompanhamos de perto suas demandas e necessidades de informação. Recentemente, tivemos contato com armadores asiáticos que também demonstraram interesse em avaliar a possibilidade de replicar a operação com etanol. Eles solicitaram mais detalhes sobre a operação, incluindo a origem das moléculas, sua movimentação ao longo da cadeia de suprimento e os respectivos certificados de qualidade dos produtos.

Nós sabíamos que, no momento em que a operação ganhasse visibilidade na imprensa, haveria esse gatilho de interesse por parte dos armadores em relação ao etanol. Hoje, por questões de confidencialidade (NDA), não podemos revelar nomes, mas temos acordos firmados e trabalhos sendo conduzidos neste exato momento com grandes armadores globais alinhados a essa temática de biocombustíveis.  

Poderiam falar um pouco sobre quais foram as adaptações técnicas que a empresa precisou realizar antes de executar esse abastecimento?

Daniel Caldas: O etanol é um combustível de baixo ponto de fulgor e consideravelmente mais inflamável do que os combustíveis que costumamos manusear no Brasil e na América Latina. Como a Bunker One possui uma empresa de navegação própria no Brasil, a Nova Offshore, tivemos a base para realizar esses testes.

Atualizamos os procedimentos operacionais e adequamos a balsa Dona Isa. Todos os equipamentos elétricos instalados na área operacional e na “área quente” da embarcação — desde refletores até painéis elétricos — foram substituídos por equipamentos intrinsicamente seguros, que não geram faíscas nem risco de explosão. Esse foi um dos principais investimentos de CAPEX do projeto.

Além disso, reforçamos os cuidados com o controle de eletricidade estática a bordo e realizamos uma rigorosa avaliação de risco (risk assessment) conduzida pela equipe de QSMS (Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde). Analisamos previamente todos os cenários possíveis — riscos de incêndio, explosão, vazamento na água ou inalação por tripulantes — para garantir a total segurança da operação.

E como foi o preparo da equipe que atuou diretamente na operação?

Daniel Caldas: O processo exigiu alguns meses de preparação intensa e um aprendizado prático significativo para a nossa equipe. Aplicamos novos treinamentos específicos para o manuseio desse combustível, instruindo o time sobre a rotina operacional em um ambiente sujeito a um produto de alta inflamabilidade. Realizamos simulações frequentes de emergência e contratamos uma empresa especializada para elaborar um plano de resposta dedicado.

Diferentemente das operações com combustíveis fósseis — nas quais a maior preocupação da análise de risco é a contenção da poluição hídrica para proteção da fauna e da flora —, no caso do etanol, o foco principal é o combate ao incêndio. A operação contou com 3 técnicos de QSMS e 4 brigadistas extras dedicados exclusivamente aos equipamentos de combate a incêndio, equipados com canhões e pistolas de espuma especial desenvolvida especificamente para combater o fogo.

Qual é o balanço das operações da Bunker One no primeiro semestre, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina? Quais são as expectativas para o restante do ano?

Flavio Ribeiro: Temos uma visão bastante positiva em relação ao futuro. O desenvolvimento e os investimentos portuários que vêm ocorrendo no Brasil apontam para uma clara tendência de incremento na atividade econômica dos portos. Quanto mais essa atividade cresce, maior é a exigência por uma operação de alta confiabilidade e regularidade na ponta para o fornecimento de combustível.

Além do Brasil, a nossa operação se estende ao Uruguai, onde possuímos uma subsidiária de navegação 100% própria — modelo idêntico ao que mantemos no Brasil com a Nova Offshore —, o que nos permite gerir a logística dentro dos padrões rigorosos em que nos sentimos confortáveis. Cobrimos também a Colômbia, tanto por Buenaventura quanto por Cartagena das Índias.

Crescemos bastante no ano passado, acompanhando a alta do mercado de derivados. A expectativa é de crescimento contínuo, mapeando constantemente as oportunidades no mercado para tomar as decisões certas. Estamos bastante otimistas.

Olhando para o futuro, quais são os próximos passos ou principais projetos da companhia?

Flavio Ribeiro: Em relação aos novos projetos, estamos ampliando as oportunidades relacionadas ao bioetanol. 

Também acreditamos fortemente no potencial do biodiesel para a matriz marítima. No entanto, ele ainda enfrenta barreiras regulatórias adicionais, especialmente na União Europeia, em razão das exigências de rastreabilidade da origem da soja utilizada em sua produção. O etanol enfrenta menos barreiras nesse aspecto.

De toda forma, continuaremos trabalhando para contribuir para que o Brasil se consolide como uma importante matriz global de produção de combustíveis renováveis e para ampliar sua participação nesse mercado.

Daniel Caldas: A Bunker One conquistou, em 2024, as certificações ISCC (International Sustainability and Carbon Certification). Essa habilitação nos autoriza a comercializar biocombustíveis no setor marítimo para promover a sustentabilidade das operações. Agora, para que essa estrutura ganhe escala, é necessário que a demanda comercial acompanhe o processo, o que exige avanço regulatório.

Como o Flavio mencionou, órgãos como a IMO e a própria União Europeia precisam concluir as regulamentações técnicas e ambientais para o uso do etanol e outros produtos renováveis. A uniformização das regras traz o conforto jurídico necessário para que os armadores tomem a decisão de investir em novas embarcações que consomem esses biocombustíveis, criando o volume e a tração de mercado de que o setor precisa.

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