RENASCIMENTO DA ENERGIA NUCLEAR CHAMA A ATENÇÃO DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS E MOVIMENTA ASSOCIAÇÕES DO SETOR
O setor financeiro começa a reconhecer que a energia nuclear entrou em uma fase de renascimento. Um novo relatório publicado pelo BTG Pactual indica que, após décadas de estagnação, o segmento nuclear volta ao centro do debate à medida que a transição energética evidencia os limites das fontes renováveis intermitentes. O relatório destaca que a energia nuclear é considerada necessária para um cenário Net Zero de carbono até 2050. Além disso, empresas de tecnologia e conglomerados industriais firmam contratos de longo prazo para compra e venda de energia e parcerias, garantindo demanda, financiamento e divisão de riscos em projetos nucleares.
“Em nossa visão, após quase três décadas de estagnação, a energia nuclear retorna ao centro das políticas públicas globais, apoiada pelo compromisso da COP de triplicar a capacidade nuclear até 2050. Metas climáticas mais rígidas, a necessidade de geração firme e o crescimento estrutural da demanda elétrica – impulsionado por eletrificação, data centers e IA – reforçam o papel da energia nuclear como essencial na transição energética global”, ressaltou o BTG.
O estudo do banco lembra ainda que a evolução do preço do urânio reflete uma inflexão estrutural do mercado. Isso porque, em fevereiro de 2019, o urânio era negociado por aproximadamente US$ 27,75 por libra. Desde então, o preço avançou mais de 250%, atingindo US$ 101 por libra na máxima histórica (janeiro de 2024), evidenciando a mudança estrutural na dinâmica de oferta e demanda da commodity.
O BTG realça ainda que, desde 2022, o avanço dos investimentos em inteligência artificial e data centers pelos hyperscalers reforçou a necessidade de geração contínua, previsível e de baixa emissão para as cargas de trabalho de IA. Nesse contexto, a energia nuclear retorna ao centro do planejamento energético das big techs, como complemento estrutural ao gás natural, combinando confiabilidade e menor emissão de carbono.
No entanto, um dos grandes desafios relacionados à expansão da energia nuclear recai nos altos volumes de investimentos necessários para viabilizar os empreendimentos. Ainda assim, o BTG aponta que a vida útil superior a 60 anos dos reatores nucleares permite diluir os elevados investimentos iniciais ao longo de décadas de operação contínua. Com custos operacionais relativamente baixos em relação as demais fontes de energia fósseis, a energia nuclear reduz o custo econômico ao longo do ciclo de vida do reator para os operadores.
Há ainda uma nova fronteira de possibilidades no radar. Os pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) introduzem uma lógica industrial distinta das usinas nucleares tradicionais. Enquanto as usinas convencionais são projetos de grande escala, próximas a 1.000 MW por unidade, construídas de forma customizada e com elevado investimento inicial, os SMRs operam entre 50 MW e 300 MW por unidade e são projetados para fabricação em série. “Essa estratégia reduz os riscos de execução dos projetos e aumenta a previsibilidade dos custos dos projetos”, finalizou o BTG Pactual.
ASSOCIAÇÕES SE MOVIMENTAM PARA ESTIMULAR NOVOS INVESTIMENTOS
Em meio ao renascimento da energia nuclear, entidades representativas do setor estão buscando uma maior cooperação para estimular novos investimentos. Como noticiamos recentemente, um grupo de 25 associações assinou, durante um evento na França, uma declaração conjunta reafirmando o papel da energia nuclear como um dos pilares de sistemas energéticos sustentáveis, seguros e resilientes.
Uma das entidades signatárias é a Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN). O presidente da entidade, Celso Cunha (foto à direita), afirmou que a assinatura desse documento reforça o entendimento de que a energia nuclear tem papel relevante na transição energética global. “Para o Brasil, trata-se de uma fonte estratégica, capaz de contribuir para a segurança do sistema elétrico e para a redução das emissões. O país reúne condições para ampliar o uso dessa tecnologia, contribuindo para a segurança energética e para os objetivos de descarbonização”, declarou Cunha.
A declaração conjunta reconhece o papel da energia nuclear como uma solução fundamental para reduzir progressivamente a intensidade de carbono dos sistemas energéticos, garantindo, ao mesmo tempo, uma geração de eletricidade confiável, contínua e em larga escala.
“A transição para sistemas energéticos com menor carbono deve ser justa, ordenada e equitativa, considerando as capacidades nacionais, as prioridades de desenvolvimento e as realidades socioeconômicas. A energia nuclear representa, nesse sentido, uma ferramenta estrutural para apoiar a diversificação energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis”, afirma o documento.

publicada em 20 de março de 2026 às 14:00 





