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ROSATOM APONTA PARA TECNOLOGIA INOVADORA QUE PODE VIABILIZAR NOVOS PROJETOS DE MINERAÇÃO DE URÂNIO NO BRASIL

No contexto do crescente interesse do Brasil no desenvolvimento da energia nuclear e de sua própria base de recursos, o mercado global de urânio entra em uma nova fase. Segundo projeções da Associação Nuclear Mundial, até 2040 a demanda global por urânio deve mais que dobrar, dos atuais 67 mil para cerca de 150 mil toneladas por ano. Ao mesmo tempo, já no início da próxima década, pode surgir um descompasso entre a demanda e os volumes de produção. Nesse cenário, ganham cada vez mais importância as tecnologias que permitem colocar novas capacidades em operação de forma mais rápida e eficiente em especial a lixiviação in situ (ISL), que já se tornou o método dominante na produção mundial de urânio. Sobre como o mercado está mudando e quais oportunidades isso abre para países com grande base de recursos, como o Brasil, conversamos com Alexander Boytsov, assessor do primeiro vice-diretor geral da Tenex, empresa do grupo estatal russo Rosatom, que participou hoje (24) do evento Nuclear Summit 2026, no Rio de Janeiro.

Quais são as principais tendências e tecnologias que hoje determinam o desenvolvimento da mineração de urânio no mundo?

A principal tendência é o rápido crescimento da demanda por urânio, impulsionado por planos ambiciosos de expansão da energia nuclear. Nos próximos 15 anos, a demanda global por esse recurso estratégico deve mais que dobrar. Ao mesmo tempo, já a partir do final da década de 2020, ela pode superar a oferta assegurada por projetos de mineração em operação, em construção e em fase de planejamento. Segundo estimativas da Associação Nuclear Mundial, esse déficit pode chegar a até 75 mil toneladas até 2040, um volume comparável ao da produção mundial atual.

Mas é importante entender que o problema não é a escassez absoluta de urânio. A base global de recursos é estimada em cerca de 8 milhões de toneladas e, em teoria, é suficiente para várias décadas. No entanto, a parcela das reservas de baixo custo, que podem ser exploradas de forma rápida e economicamente eficiente, está diminuindo. De acordo com projeções, até 2040 uma parte significativa desses recursos estará praticamente esgotada. Como resultado, o setor passará a depender cada vez mais de depósitos mais caros, complexos e menos explorados. É por isso que dizemos que a era do “urânio barato” está chegando ao fim.

Diante das limitações da base mineral de urânio natural, alguns países como Rússia, China e Índia estão considerando o desenvolvimento de tecnologias de reatores rápidos com ciclo do combustível nuclear fechado, o que também permite reduzir a demanda por urânio natural para o parque de reatores existente, substituindo o natural por urânio regenerado.

O setor de urânio passa por uma reestruturação tecnológica e econômica, acompanhada por um aumento no volume de investimentos. Nos últimos quinze anos, o mercado global de urânio passou por um período de preços baixos, o que levou à paralisação ou conservação de minas com capacidade total de cerca de 20 mil toneladas, enquanto os investimentos em exploração geológica caíram quase 80%. Hoje, o setor enfrenta um ciclo de investimento longo: da descoberta de um depósito até o início da produção, normalmente são necessários pelo menos 10 a 15 anos. Isso aumenta a relevância de tecnologias que permitem acelerar a implementação de projetos e reduzir os investimentos de capital.

É nesse cenário que a lixiviação in situ (ISL) ganha protagonismo. Se, em 2005, ela representava cerca de 20% da produção global, hoje já ultrapassa 55%, e em alguns países especialmente no Cazaquistão essa participação é ainda maior. A mudança não é só quantitativa. Ela altera o modelo do setor. A ISL permite trabalhar com depósitos de menor teor, reduz os investimentos de capital, encurta os prazos de entrada em operação e diminui significativamente o impacto ambiental. Em um contexto de acesso limitado a recursos de baixo custo e de exigências crescentes em termos de sustentabilidade e eficiência, essa tecnologia vem se consolidando como um novo padrão da indústria.

Em que consiste o princípio da tecnologia de lixiviação in situ? Em quais condições geológicas ela é realmente eficiente?

A essência do método é que o urânio é extraído sem lavra a céu aberto e sem mineração subterrânea por meio de processos físico-químicos controlados diretamente no subsolo. A rocha não é trazida à superfície: por meio de um sistema de poços de injeção e produção, um reagente é introduzido no horizonte produtivo, geralmente uma solução diluída de ácido sulfúrico com concentração em torno de 0,5% a 1%. Essa solução percorre a rocha permeável, interage com os minerais de urânio e os transforma em uma forma solúvel. Em seguida, a solução enriquecida é bombeada para a superfície, onde o urânio é extraído por meio de processos hidrometalúrgicos, como a troca iônica. Depois disso, a solução purificada retorna ao reservatório, o ciclo é fechado e se repete múltiplas vezes.

O processo exige controle rigoroso. Todo o sistema opera dentro de um circuito hidrogeológico rigorosamente controlado: a pressão, a composição das soluções e o movimento das águas subterrâneas são monitorados continuamente. Ao redor da área, é criada uma rede de poços de monitoramento, o que permite acompanhar em tempo real o estado dos aquíferos. Graças a isso, a ISL é hoje considerada um dos métodos de menor impacto ambiental para a produção de urânio: não há remoção de estéril, nem pilhas de rejeitos ou barragens de resíduos, e o impacto na superfície é mínimo.

No entanto, a ISL não é aplicável em qualquer lugar. Ela requer condições geológicas e hidrogeológicas específicas: aquíferos permeáveis, presença de camadas naturais de confinamento e um tipo adequado de mineralização principalmente depósitos do tipo roll-front (infiltração). Onde essas condições estão presentes, a tecnologia demonstra alta eficiência. Já em depósitos de rocha dura, com baixa permeabilidade ou sem isolamento natural adequado, os métodos tradicionais de mineração continuam sendo mais apropriados.

O Brasil possui reservas significativas de urânio, mas muitos depósitos ainda não foram desenvolvidos industrialmente. A lixiviação in situ pode mudar a economia desses projetos?

Potencialmente, sim. Uma das principais vantagens da ISL é que essa tecnologia permite viabilizar o desenvolvimento de depósitos que, com métodos tradicionais, seriam considerados complexos demais ou economicamente inviáveis. Isso inclui, por exemplo, jazidas com baixo teor de urânio, alto grau de saturação de água ou condições geológicas e de mineração mais desafiadoras.

O modelo econômico aqui é diferente: não são necessárias operações de remoção de estéril, nem pilhas de rejeitos, nem barragens ou infraestrutura logística complexa. Os principais investimentos concentram-se na perfuração da malha de poços e na criação de uma planta tecnológica compacta. Como resultado, os custos de capital podem ser significativamente menores, e os prazos de implementação dos projetos, mais curtos. Isso é especialmente relevante no cenário atual de mercado, em que a janela de oportunidade é definida não apenas pela disponibilidade de recursos, mas também pela velocidade com que eles entram em produção, como já mencionado, um déficit de oferta pode surgir já no final desta década.

Em um contexto em que a participação das reservas de baixo custo está diminuindo globalmente, tecnologias como a ISL ganham ainda mais importância, pois permitem trabalhar com recursos mais complexos e de menor teor. Para o Brasil, onde uma parte significativa dos depósitos de urânio ainda não alcançou a fase de desenvolvimento industrial, isso abre a possibilidade de reavaliar o portfólio de projetos à luz do crescimento global dos preços e da demanda. Naturalmente, tudo depende das condições geológicas específicas, mas, de forma geral, a ISL amplia o conjunto de depósitos que podem ser considerados economicamente viáveis.

A Rosatom acumulou experiência na aplicação dessa tecnologia, inclusive na Rússia e no Cazaquistão. Quais lições-chave e soluções tecnológicas foram desenvolvidas ao longo dos anos?

A ISL é uma tecnologia que exige alta disciplina e controle preciso. Ela envolve um trabalho rigoroso de geologia, hidrogeologia, química e gestão digital. Por isso, em nossos ativos de mineração de urânio, utilizamos a plataforma digital “Mina Inteligente”, que permite monitorar o movimento das soluções, a pressão no sistema e evitar sua saída dos limites do horizonte produtivo.

A segunda conclusão importante é que o monitoramento ambiental não deve ser tratado como elemento adicional, mas como parte integrante do projeto. Para isso, é criada uma rede de poços de monitoramento ao redor da área, e os parâmetros das águas subterrâneas são acompanhados de forma contínua.

A experiência de escala também é relevante. Nos últimos 15 anos, a produção de urânio nas operações da Rosatom mais do que dobrou e, em 2024, atingiu cerca de 8,6 mil toneladas. Ao mesmo tempo, a participação do urânio produzido por ISL aumentou de 17% para 88%. Na prática, isso representa uma transição quase completa para outro arranjo tecnológico.

Além disso, esse crescimento ocorreu em um contexto de mercado volátil e durante um longo período de preços baixos, quando o setor como um todo reduzia investimentos. Isso demonstra que a ISL se mostrou viável sob os pontos de vista tecnológico e econômico. Os projetos permaneceram rentáveis mesmo em condições de mercado desfavoráveis. Em conjunto, esse é o principal indicador de maturidade da tecnologia, sua capacidade de escalar, garantir produção estável e se adaptar a mudanças no mercado.

A América Latina pode, no futuro, se tornar um dos novos polos globais de produção de urânio?

Brasil tem várias áreas potenciais para mineração de urânio

O potencial para isso, sem dúvida, existe. A região possui uma base de recursos relevante e, sobretudo, a oportunidade de desenvolver o setor já com base em modelos modernos, sem precisar seguir os caminhos tradicionais do passado. Para isso, são necessários três elementos: exploração geológica consistente, regulação clara e tecnologias capazes de conciliar o desenvolvimento industrial com a responsabilidade ambiental.

Se essas condições forem atendidas, a América Latina pode se tornar uma nova e importante região de crescimento no setor. E o Brasil, considerando a escala de sua base de recursos e o interesse no desenvolvimento da energia nuclear, tem plenas condições de desempenhar um papel de destaque nesse processo.

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Ronaldo Garcia
Ronaldo Garcia
1 mês atrás

Brasil exportando urânio bruto como commodity. Parabéns aos inimigos do desenvolvimento da indústria nacional! A INB caminha para ser uma administradora de fazendas de urânio. Já podem ir preparando o descomissionamento das ultracentrífugas. O futuro do programa nuclear brasileiro, que foi fruto de tanto esforço do Almirante Álvaro Alberto, não tem horizonte para o progresso.