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STONEX AVALIA QUE BRASIL JÁ ASSUME PAPEL DE DESTAQUE NAS EXPORTAÇÕES DE PETRÓLEO DIANTE DE IMPASSE NO ESTREITO DE ORMUZ

A guerra no Irã causa muita preocupação e tensão não apenas pela questão humanitária, mas também pelos efeitos econômicos e logísticos. Com o Estreito de Ormuz vivendo um período de tráfego extremamente reduzido desde o início do confronto, os preços do barril saltaram para um patamar acima dos US$ 100 — embora as cotações tenham voltado para a casa dos US$ 90 no início desta semana, diante de notícias sobre avanços nas negociações entre a Casa Branca e Teerã. Para a analista de inteligência de mercado da StoneX, Isabel Garcia, o Brasil pode ganhar bastante nesse cenário, uma vez que assume uma posição mais elevada entre os fornecedores de petróleo neste momento. “Os últimos dados da balança comercial já mostram essa demanda pelo petróleo brasileiro: as exportações acumuladas até abril registram crescimento de 30% frente ao ano passado e devem se manter em patamar mais elevado”, afirmou. Isabel também avalia que, por mais que outros produtores se esforcem para ampliar a própria produção, trata-se de um choque de oferta de petróleo praticamente impossível de ser superado rapidamente sem o apoio da retomada dos fluxos por Ormuz. A especialista acredita ainda que, mesmo que haja um acordo de paz nas próximas semanas, a restrição de oferta observada atualmente não seria resolvida imediatamente. “Até que todas as peças voltem a operar normalmente, o mercado global seguirá dependendo mais dos estoques e do crescimento da exportação de outros fornecedores, como mencionado anteriormente”, concluiu.

⁠As negociações entre Irã e EUA continuam em andamento, mas ainda não há uma expectativa clara sobre o fim do conflito. Quais serão os principais impactos para o mercado internacional daqui em diante?

Conforme a navegação pelo Estreito de Ormuz siga interrompida, a corrida por outros fornecedores e medidas de contenção de consumo deve seguir ganhando força, especialmente no contexto de crescimento sazonal da demanda por petróleo entre o segundo e o terceiro trimestres.

Por mais que outros produtores se esforcem para ampliar a sua própria produção, é um choque de oferta de petróleo praticamente impossível de superar rapidamente sem se apoiar na retomada dos fluxos por Ormuz. O fato de o mundo ter contado com estoques bastante elevados antes do início da guerra tem ajudado a garantir uma maior disponibilidade de petróleo nesses primeiros meses de conflito, mas a cada semana que as operações no Oriente Médio não se regularizam aumenta a pressão sobre os mercados físicos.

Então, de maneira resumida, o mercado internacional segue muito sensível ao que for decidido no Oriente Médio e, enquanto não se encontra uma resolução, a alternativa tem sido recorrer a novos fornecedores (com destaque para os Estados Unidos e o Brasil, que vêm aumentando suas exportações), usar os estoques disponíveis e desenhar medidas para diminuir a demanda em regiões mais sensíveis ao choque de oferta (notavelmente o continente asiático).

⁠Essa situação deve gerar choques de oferta de longo prazo no balanço global mesmo após a reabertura do Estreito de Ormuz?

Mesmo que se tenha um acordo nas próximas semanas, a restrição de oferta que se observa atualmente não seria resolvida imediatamente. Primeiramente, destacam-se os riscos de navegação, uma vez que o vai e vem recente entre EUA e Irã torna bastante frágil a confiabilidade dos acordos. Logo, pode levar um pouco mais de tempo para que essa rota volte a ser vista como segura.

Mas, naturalmente, o maior impeditivo estaria na frente de infraestrutura. Desde o início da guerra, vários complexos produtivos foram alvo de ataques do Irã, por exemplo, e, até que se tenha a normalização das atividades, a oferta de países do Oriente Médio deve seguir mais limitada, mesmo com o fim das hostilidades. Isso vale tanto para refinarias quanto para poços de petróleo, que, mesmo que não tenham sido atingidos, ainda enfrentam paralisação de atividades por conta da dificuldade de escoamento, o que implica também um período maior, a partir da reabertura, para voltar aos níveis produtivos de antes.

Até que todas as peças voltem a operar normalmente, o mercado global seguirá dependendo mais dos estoques e do crescimento da exportação de outros fornecedores, como mencionado anteriormente.

⁠Diante do bloqueio imposto pelos EUA contra os portos iranianos, há o risco de o Irã possivelmente precisar começar a fechar poços. O que isso representaria de impactos para o mercado e para o próprio Irã?

O petróleo é a principal fonte de financiamento do Irã, então um impedimento de exportações faria o país ter mais dificuldade de sustentar a guerra. Mas essa vulnerabilidade ganharia mais forma se for um bloqueio prolongado. Para o mercado de petróleo, o bloqueio representa mais um fechamento de oferta em um contexto de estresse elevado. A manutenção das exportações trazia algum alívio para compradores na ordem de quase 2 mbpd, que com a pressão dos EUA se retira junto com os 11 mbpd do Golfo Pérsico. Em geral, torna-se um fator de apoio para preços mais altos, tendo realmente menos alívios na frente de oferta de petróleo.

⁠Embora seja difícil fazer projeções diante de um cenário geopolítico tão complexo, poderia avaliar se o mercado deve esperar por um período prolongado de alta no preço do barril de petróleo, com cotações acima de US$ 100?

O direcional de preços vai realmente depender da evolução dos fluxos em Ormuz. Enquanto esses barris seguirem retidos, o mundo se esforça para compensar mais de 10% da oferta global em pouco tempo, então é possível imaginar uma média de preços superior a US$ 100/bbl nesse cenário. Entretanto, qualquer sinal de alívio das tensões, no sentido da formulação de um acordo, pode pressionar as cotações (como a gente observa neste momento após as falas de Trump). Isso pode trazer turbulências pontuais ao mercado, mas preços significativamente mais baixos irão depender, de fato, da retomada, das exportações pelo Estreito de Ormuz, mesmo que gradual.

⁠E como vê o papel do mercado de óleo e gás do Brasil e da Petrobrás diante desse cenário de alta nos preços do barril?

O Brasil tem bastante a ganhar nesse cenário, uma vez que assume uma posição mais elevada entre os fornecedores de petróleo neste momento. Contamos com uma produção crescente, fruto de investimentos intensivos no setor nos últimos anos, com esse aumento se revertendo em vendas para o mercado estrangeiro. Além disso, é um país que conta com riscos de oferta pouco relevantes, com relativa estabilidade política e financeira, o que reforça a segurança de adquirir nosso petróleo.

Os últimos dados da balança comercial já mostram essa demanda pelo petróleo brasileiro: as exportações acumuladas até abril registram crescimento de 30% frente ao ano passado e devem se manter em patamar mais elevado. O Brasil, portanto, não é capaz de atender o vácuo de oferta deixado pela guerra, mas passa a ocupar mais espaço e se aproveita de preços mais elevados para a venda desses barris.

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