ENERGEO VÊ POTÊNCIAL EXPRESSIVO NA MARGEM EQUATORIAL E EM PELOTAS E REFORÇA PAPEL DA GEOCIÊNCIA EM NOVAS FRONTEIRAS
A Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas estão entre as áreas mais promissoras para a expansão da exploração de petróleo e gás no Brasil, na avaliação da EnerGeo Alliance. Em entrevista ao Petronotícias, o Vice-Presidente Sênior de Políticas Globais da associação, Dustin Van Liew, destacou que ambas as regiões apresentam características geológicas favoráveis e potencial significativo de recursos. “A capacidade do Brasil de realizar plenamente esse potencial depende em parte da qualidade e disponibilidade dos dados geocientíficos, e é exatamente aí que a EnerGeo Alliance e nossos membros estão focados”, disse. Contudo, o executivo também ressaltou que o avanço dessas fronteiras dependerá não apenas da geração de dados geocientíficos de qualidade, mas também de condições regulatórias e ambientais que permitam o desenvolvimento dos projetos. “O Brasil é um dos mercados de exploração offshore mais estrategicamente importantes do mundo, e há motivos para otimismo quanto ao seu potencial de longo prazo”, acrescentou.
Para começar, poderia relembrar aos nossos leitores como se dá a atuação da EnerGeo Alliance? Poderiam detalhar especialmente como tem sido a atuação no Brasil, destacando as principais iniciativas e parcerias no país?
A EnerGeo Alliance é a associação comercial global para a indústria de energia, geociências e exploração. Nossas empresas associadas ocupam o que consideramos a posição mais fundamental em toda a cadeia de valor energética; energia começa com a geociência. Antes que um único barril de petróleo seja produzido ou que um parque eólico seja instalado, os geocientistas já estão trabalhando para entender o subsolo, caracterizar recursos e gerar os dados que tornam possível o desenvolvimento energético responsável. Por isso, nossa missão é simples, mas significativa: tornamos a energia possível.
Nossos membros atuam nas regiões de exploração mais estrategicamente significativas do mundo, incluindo os EUA, Oriente Médio, África, Norte da Europa, Sudeste Asiático e Austrália, além de toda a América Central e Latina, incluindo México, Brasil, Uruguai, Argentina e Peru. Em cada uma dessas regiões, a EnerGeo Alliance apoia os esforços de nossos membros para realizarem atividades de exploração de forma responsável e na geração de dados geocientíficos confiáveis que possam informar os processos de exploração e produção, além de objetivos de sustentabilidade.
Estamos presentes e engajados no Brasil há mais de uma década. Uma das nossas iniciativas mais significativas no país é o Programa Netuno, estabelecido por volta de 2016. Netuno é um programa de banco de dados ambiental – conhecido também como Banco de Dados Ambientais (BDA) Netuno — desenvolvido para cumprir a exigência do IBAMA e oficialmente sancionado em 2018. Desde então, todos os dados ambientais coletados durante as operações de sísmica marítima no Brasil vêm sendo disponibilizados e armazenados nesse banco de dados. O programa abriga os projetos ambientais exigidos como condição das licenças de levantamento sísmico, incluindo não apenas os dados padrão dos projetos, mas também estudos de linha de base e dados de monitoramento contínuo. O Netuno foi concebido por nossas empresas associadas como uma solução colaborativa e de toda a indústria, e é com orgulho que a EnerGeo sedie e gerencia o banco de dados até hoje, em estreita colaboração com o regulador e os participantes do programa. O programa é um exemplo do que a cooperação intersetorial pode alcançar quando a indústria e os reguladores trabalham para realizar metas ambientais e energéticas compartilhadas.
Quais são os próximos planos, novidades e ações da EnerGeo Alliance previstas para o Brasil?
Uma das nossas iniciativas de curto prazo mais significativas no Brasil é o Relatório de 10 Anos do Projeto Netuno. Neste documento, analisamos uma década de dados marinhos extraídos do Banco de Dados Ambiental Netuno – um marco importante que reflete tanto a longevidade do programa quanto a dimensão do registro ambiental que ele acumulou.
Esses dados foram gerados por meio dos requisitos de monitoramento e coleta de dados vinculados às Permissões de Pesquisa Sísmica no Brasil, conforme determinado pela IBAMA. Ao longo de dez anos, o banco de dados cresceu e se tornou um repositório centralizado e abrangente, não apenas uma ferramenta de gestão para membros e IBAMA, que não apenas cumpre requisitos regulatórios, mas também torna esses dados ambientais acessíveis ao público, representando uma contribuição significativa para a transparência científica e a tomada de decisões informadas. A revisão de dez anos nos permite tirar conclusões significativas deste conjunto de dados longitudinal e avaliar tendências na biodiversidade marinha, demonstrando o valor da colaboração ambiental sustentada em toda a indústria. É um marco do qual nos orgulhamos, e acreditamos que reforçará a credibilidade e a importância do modelo Netuno tanto no Brasil quanto como um possível ponto de referência para outros países.
Poderia compartilhar conosco a sua leitura sobre o setor de geociência no Brasil? Como esse segmento será importante na exploração de novas reservas de petróleo e gás no país ao longo dos próximos anos?
O Brasil ocupa uma posição única no cenário energético global. Sua matriz energética está entre as mais diversificadas do mundo, combinando um setor offshore de petróleo e gás de classe mundial, ao lado de energia hidrelétrica, eólica, solar, biomassa e derivados da cana-de-açúcar que juntos formam a espinha dorsal do fornecimento energético interno. Nessas fontes de energia, a geociência desempenha um papel fundamental. Seja caracterizando reservatórios subterrâneos para produção de petróleo e gás, avaliando condições geológicas para o desenvolvimento geotérmico ou informando a localização e segurança de infraestrutura de energia alternativa em grande escala, o conhecimento técnico e científico que a geociência fornece é fundamental para o desenvolvimento energético de forma eficiente, segura e sustentável.
O Brasil é um dos mercados de exploração offshore mais estrategicamente importantes do mundo, e há motivos para otimismo quanto ao seu potencial de longo prazo. A indústria continuou a desbloquear valor significativo das bacias pré-salinas, e a atenção agora está cada vez mais próxima à fronteira – a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas.
Há ampla confiança técnica de que as condições geológicas são favoráveis e que o potencial de recursos é substancial em ambas as novas fronteiras. Neste estágio inicial do ciclo de exploração, a geociência é fundamental: imagens sísmicas de alta qualidade, análise de bacias, caracterização do subsolo e interpretação geológica integrada são as ferramentas fundamentais que determinarão se a promessa da fronteira se traduz em desenvolvimento comercialmente viável e oportuno. A capacidade do Brasil de realizar plenamente esse potencial depende em parte da qualidade e disponibilidade dos dados geocientíficos, e é exatamente aí que a EnerGeo Alliance e nossos membros estão focados.
Além disso, com a implementação iminente de um mercado regulado de carbono no Brasil, esperamos que as atividades de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) se expandam significativamente pelo país, tornando a imagem sísmica uma ferramenta crítica para caracterização, monitoramento e verificação do local.
Quais são as próximas tendências e novidades da indústria de geociência que devem ajudar na evolução de novas fronteiras exploratórias?
Estamos genuinamente entusiasmados com o ritmo do avanço tecnológico na indústria de exploração e geociências. Nossas empresas associadas são ativas em todos os segmentos do processo de exploração, desde aquisição de dados e levantamento sísmico até interpretação subterrânea e caracterização de reservatórios, e em todas essas áreas estamos vendo inovação significativa e investimento sustentado em novas tecnologias.
Avanços em inteligência artificial, aprendizado de máquina, computação de alto desempenho e tecnologia de sensores estão transformando coletivamente o que é possível em termos de qualidade dos dados, velocidade de processamento e precisão interpretativa. Essas ferramentas permitem que os geocientistas trabalhem com maior precisão e eficiência. A indústria também está vendo uma integração crescente entre as disciplinas tradicionais da geociência e campos adjacentes, como ciência ambiental e análise de dados, o que está ampliando tanto o escopo quanto o valor social do que a geociência exploratória pode oferecer. Vemos essa convergência de disciplinas e tecnologias como uma das características definidoras da próxima geração de exploração.
Como a EnerGeo Alliance avalia o potencial da Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas? Do ponto de vista geológico, quais são os principais aspectos que criam a grande expectativa em torno dessas duas novas fronteiras?
Em termos de potencial do subsolo, a Margem Equatorial é uma fronteira que traz uma perspectiva promissora. Sua posição ao longo da margem do Atlântico, que está geologicamente conectada ao mesmo sistema petrolífero que gerou descobertas transformadoras na Guiana e no Suriname, e refletida na margem conjugada da África Ocidental, fornece bases geológicas encorajadoras para confiança e há amplo consenso técnico de que as rochas são boas.
A Bacia de Pelotas está em um estágio inicial do ciclo de exploração, mas está atraindo um interesse crescente e bem fundamentado. A descoberta de recursos significativos de petróleo na Namíbia – uma região que apresenta notáveis semelhanças geológicas com a Bacia de Pelotas, com sequências sedimentares e condições estruturais comparáveis – proporcionou motivos para um otimismo cauteloso, mas genuíno. O nível de investimento de grandes players globais, incluindo Shell, Petrobras e Chevron, que coletivamente investiram em mais de 40 blocos exploratórios na região, é por si só um indicador significativo do potencial percebido.
Dito isso, boa geologia por si só não é suficiente para desbloquear uma fronteira de exploração. Os termos fiscais devem ser competitivos, e os marcos regulatórios e de políticas devem ser facilitadores. O Brasil demonstrou um compromisso genuíno e louvável com a sustentabilidade ambiental ao lado do desenvolvimento de petróleo e gás, e iniciativas como o Programa Netuno são evidências do que é possível quando indústria, governo, reguladores e academia trabalham juntos de forma construtiva. Esse modelo colaborativo é exatamente o que será necessário para navegar pelo processo de licenciamento ambiental para a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas de uma forma que seja ao mesmo tempo confiável e oportuna.
Qual o papel da inteligência artificial e da computação avançada na interpretação geológica?
O progresso tecnológico sempre foi um motor definidor do avanço em levantamentos sísmicos e interpretação geológica, e a atual onda de inovação em inteligência artificial e computação avançada representa o potencial para um dos saltos mais significativos que a indústria já viu. A inteligência artificial (IA) e a computação de alto desempenho estão contribuindo para múltiplas dimensões do fluxo de trabalho de exploração, desde melhorias nos instrumentos usados para adquirir dados sísmicos e processamento e condicionamento de dados mais sofisticados até técnicas automatizadas de interpretação e modelagem subterrânea aprimorada. O efeito cumulativo é uma melhoria na precisão e na velocidade com que os geocientistas podem caracterizar o subsolo e identificar alvos de exploração.
É importante, no entanto, enquadrar esses avanços no contexto adequado. IA e computação avançada são ferramentas poderosas que complementam e apoiam o trabalho de profissionais altamente qualificados em geociências e não substituem a expertise e o insight interpretativo que profissionais experientes trazem para o processo. A aplicação mais eficaz dessas tecnologias é aquela que combina poder computacional com profundo conhecimento do domínio, permitindo que os geocientistas concentrem sua expertise onde mais importa, enquanto aproveitam a tecnologia para lidar com volumes de dados e tarefas de processamento que de outra forma seriam impraticáveis. Nesse sentido, os avanços que estamos vendo devem ser melhor entendidos como uma expansão do que é possível para a profissão de geociências, e não como uma substituição.

publicada em 19 de junho de 2026 às 5:00 




