PETROBRÁS DIZ QUE ACOMPANHA DESDOBRAMENTOS NO MERCADO APÓS DEPOSIÇÃO DE MADURO
Nesta segunda-feira (5), primeiro dia útil após a operação dos Estados Unidos que depôs Nicolás Maduro da presidência da Venezuela, o mercado ainda fazia cálculos e análises sobre os impactos que a crise política no país sul-americano trará para o setor mundial de óleo e gás. No Brasil, a Petrobrás não sente efeitos diretos dos acontecimentos recentes em Caracas, mas está de olho em possíveis desdobramentos. Questionada pela reportagem do Petronotícias sobre os acontecimentos na Venezuela, a empresa reforçou que não possui operações no país vizinho, mas que “permanece acompanhando o mercado“.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, Maduro passou hoje pela primeira audiência judicial após sua prisão. Capturado no sábado (3) em Caracas pelas forças americanas, o venezuelano se declarou inocente de todos os quatro crimes dos quais foi acusado: Narcoterrorismo; Conspiração para o tráfico de cocaína; Posse de armas e explosivos; e Conspiração para a posse de armas e explosivos. Uma nova audiência com Maduro deverá acontecer no dia 17 de março, quando ele e sua esposa, Cilia Flores, também presa nos EUA, prestarão depoimento.
Em meio à turbulência política na Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo, os preços da commodity oscilaram para cima nesta segunda-feira. Os contratos futuros do petróleo tipo Brent terminaram o dia com uma alta de US$1,01 (1,66%), sendo cotados a US$ 61,76 por barril. Já o petróleo WTI subiu US$1(1,74%), chegando a US$ 58,32.
Para o analista Gustavo Vasquez (foto abaixo, à esquerda), gerente de petróleo e GLP da consultoria Argus, o impacto imediato na produção de petróleo venezuelana é caracterizado por incerteza quanto às exportações e risco de interrupções na produção, embora mudanças diretas ainda não tenham se concretizado. Ele aponta que antes do ataque militar dos EUA, o aumento das tensões entre os EUA e a Venezuela contribuiu para preços mais firmes do petróleo. “No entanto, imediatamente após o ataque militar e a captura de Maduro, a reação dos preços foi contida, diante da ampla oferta global de petróleo”, ponderou.
Vasquez considera que a perspectiva imediata para as exportações da Venezuela é incerta. “Antes do ataque, fornecedores de petróleo venezuelano já estavam relutantes em oferecer cargas após a apreensão de dois navios pelos EUA em dezembro. Vendedores estavam retendo ofertas de petróleo do tipo Merey para chegada no fim de janeiro, antecipando grandes interrupções no fornecimento a partir do final do primeiro trimestre de 2026. Qualquer interrupção sustentada nas exportações de petróleo venezuelano afetaria principalmente o mercado global de petróleo pesado e com alto teor de enxofre”, avaliou.
A Argus aponta que a Venezuela não está totalmente integrada aos mercados globais de petróleo devido às sanções dos EUA. Refinarias independentes na China absorvem a maior parte das exportações de petróleo venezuelano — 430 mil barris por dia em 2025, segundo estimativas da consultoria com base em dados de rastreamento e informações de participantes do mercado. Esse volume representou menos de 20% do processamento de pequenas refinarias privadas (“teapot”) da China em 2025. Os EUA são o segundo maior destino — cerca de 120 mil barris por dia importados em dezembro. A Chevron, que continua operando na Venezuela, é a única importadora de petróleo venezuelano nos EUA.
A consultoria também considera que restaurar a infraestrutura de petróleo da Venezuela a algo próximo da antiga capacidade de cerca de 3 milhões de barris por dia consumiria anos e possivelmente centenas de bilhões de dólares, mesmo no melhor ambiente de investimentos.
Para a Argus, reparar refinarias seria ainda mais difícil. Mesmo em um ambiente político melhor, porém incerto, reparos poderiam levar uma década ou mais. A refinaria de Cardón sofreu mais um grande apagão no ano passado, mesmo após a produção ter caído a uma fração da capacidade nominal.
“Não há perspectiva realista de aumento imediato da produção venezuelana, que foi de 934 mil barris por dia em novembro, segundo média de fontes secundárias da Opep incluindo Argus. Investimentos significativos de empresas internacionais no médio e longo prazo seriam necessários para que a produção retornasse aos patamares anteriores às sanções dos EUA, de 1,2 milhão de barris por dia (em 2018) ou mais. Isso exigiria o fim das sanções e mudanças profundas no ambiente legal e empresarial da Venezuela — uma perspectiva duvidosa diante da provável instabilidade após a deposição de Maduro”, concluiu Vasquez.

publicada em 5 de janeiro de 2026 às 20:00 





