VOLTXS APOSTA EM USO ESTRATÉGICO DE BATERIAS PARA NEUTRALIZAR NOVAS TARIFAS SOBRE RENOVÁVEIS E PROJETA CRESCIMENTO
Em vigor há três anos, a Lei 14.300/2022, que instituiu o Marco Legal da Micro e Minigeração Distribuída no Brasil, trouxe muitos desafios, mas também oportunidades para empresas do setor de energia. Para o Grupo Voltxs, que já acumula 40 anos de atuação no mercado, a nova legislação está sendo usada como alavanca de rentabilidade em grandes indústrias. A companhia afirma que seu modelo de Energy Advisor já gera R$ 13,3 milhões anuais em economia comprovada para clientes com contas acima de R$ 200 mil por mês. O grupo tem apostado no uso estratégico de baterias e engenharia tarifária de alta complexidade para neutralizar o impacto da cobrança do “Fio B”. A Voltxs utiliza as baterias para armazenar energia no momento da geração e despachá-la nos horários de maior custo, reduzindo despesas com demanda e encargos. “Assim, é possível reproduzir, de forma estruturada, um efeito semelhante ao da GD1 (projetos protocolados até 07/01/2023) mesmo utilizando ativos classificados como GD2 (protocolados depois de 8/02/2023) ou GD3 (usinas de grande porte). Esse é o diferencial estratégico”, explica o Business Developer do Grupo Voltxs, Gabriel Passos. Já o Diretor de Operações da companhia, Matheus Teixeira, comentou sobre as projeções de crescimento da companhia: “Gerimos 6,7 milhões de kWh/mês em mais de 1.300 unidades consumidoras. Nossa meta é elevar essa gestão para 10 milhões de kWh/mês”, estimou.
Para começar, poderia fazer um balanço dos três anos do marco legal da geração distribuída?
Gabriel: Na verdade, o Marco Legal produziu impactos mesmo antes de entrar em vigor. Desde a promulgação da lei, em 2022, iniciou-se a corrida pela chamada GD1. Já naquele momento, houve forte impacto, com todos os players de geração distribuída buscando protocolar o maior número possível de projetos para garantir o direito adquirido.
Nos últimos três anos, observamos o movimento inverso. Diversos players deixaram de priorizar novos projetos e passaram a concentrar esforços naqueles que já haviam sido protocolados. Nesse período, estivemos em discussão constante com as distribuidoras de energia para reavaliar projetos protocolados, tentar reverter casos de inversão de fluxo e lidar com as obras das concessionárias, que também foram impactadas pelo elevado volume de solicitações. Assim, a atuação dos players de GD nos últimos três anos esteve muito mais voltada à gestão do que foi realizado entre 2022 e 2023 do que, propriamente, ao desenvolvimento de novos projetos.
Agora, com o fade out dos projetos implementados na GD1, todo o mercado — incluindo a Voltxs — busca se reinventar e encontrar novas soluções que garantam a viabilidade dos negócios.
Matheus: Outro ponto de vista relevante é que a Lei 14.300 traz, em sua essência, o conceito de isonomia, ao prever a cobrança de encargos de quem não possui geração distribuída. Trata-se de um princípio legítimo, com o qual sempre concordamos. No entanto, a implementação ocorreu de forma abrupta. A lei encerrou, na prática, diversas modalidades de negócio, como a locação. A conta deixou de fechar.
Medidas abruptas tendem a não funcionar adequadamente, e a própria história do setor energético brasileiro demonstra isso. Não é possível instituir um mecanismo dessa natureza de forma repentina. Havia, de fato, uma necessidade técnica. Existiam muitos projetos em análise com incertezas quanto à conexão, o que poderia gerar impactos relevantes no Sistema Interligado Nacional.
Embora o projeto previsse um escalonamento, na prática esse escalonamento também se mostrou abrupto e resultou em inviabilidade financeira, especialmente em razão do impacto do Fio B. Naturalmente, algumas regiões foram menos afetadas e outras mais, a depender do percentual aplicado. O entendimento é que a lei era necessária, mas a forma de implementação poderia ter sido diferente.
De que forma a Voltxs tem trabalhado para ajudar clientes a neutralizar o impacto da cobrança do Fio B (taxa sobre o uso da rede de distribuição de energia aplicada a geradores solares (GD2) homologados após 7 de janeiro de 2023)?
Gabriel: Do ponto de vista técnico, a inviabilização dos novos projetos de GD decorre, principalmente, da cobrança do Fio B. As operações remotas, nas quais 100% da geração precisa ser injetada para posterior compensação por meio do SCEE (Sistema de Compensação de Energia Elétrica), tornaram-se economicamente inviáveis. Há, contudo, a questão da simultaneidade — isto é, o percentual de energia que é gerada e consumida (ou armazenada) in loco antes de passar pelo medidor, nos modelos conhecidos como behind-the-meter. Nesses casos, a energia gerada mantém equivalência direta com a energia da rede, neutralizando a incidência do Fio B. Consumidores com alta simultaneidade — ou seja, com elevado consumo orgânico durante o dia — já se beneficiam naturalmente desse mecanismo. Aqueles que não possuem esse perfil podem recorrer à criação de uma simultaneidade artificial.
É nesse contexto que surge a estratégia do BESS (Battery Energy Storage System). O sistema de armazenamento é instalado na unidade consumidora e passa a atuar como uma carga artificial, absorvendo a energia no momento da geração. Posteriormente, em horários de pico — como no caso de fábricas ou indústrias com operação noturna, que não seriam atendidas pela GD1, mas pela injeção de energia de uma GD2 — essa energia pode ser despachada, reduzindo custos. Assim, é possível reproduzir, de forma estruturada, um efeito semelhante ao da GD1 mesmo utilizando ativos classificados como GD2 ou GD3. Esse é o diferencial estratégico. Atualmente, o mercado concentra atenção no BESS, que tende a ganhar relevância nos próximos anos.
Como a Voltxs avalia o papel das baterias no sistema elétrico brasileiro?
Gabriel: Ao observarmos as curvas de adesão ao armazenamento em mercados mais avançados, como o Chile, percebemos um comportamento semelhante ao que ocorreu com a energia solar no Brasil em 2018 e 2019. Trata-se, neste momento, de um mercado ainda marcado pela inovação, mas a Voltxs está confiante de que o armazenamento é uma solução estrutural e veio para permanecer. A tendência é que se torne uma das principais alternativas para enfrentar os desafios das redes de distribuição e transmissão.
O armazenamento contribui para mitigar os desafios atuais do SIN ao achatar a curva de demanda sob a ótica do ONS, ampliar a disponibilidade de energia e reduzir restrições para os geradores. Assim como ocorreu com a queda de custos da energia solar a partir de 2018, a tendência é que o BESS se torne economicamente viável para um número crescente de empresas.
Matheus: O posicionamento empresarial do grupo traz três pilares: custo, segurança e sustentabilidade. Estamos antenados com as mudanças regulatórias para entender os impactos e garantir segurança jurídica aos clientes. Hoje, a inovação tecnológica do BESS correu muito mais rápido do que a regulação, mas trazemos nossa expertise para propiciar soluções inclusive com Capex Zero (sem investimento inicial do cliente). Estamos nos posicionando como pioneiros, inclusive no Nordeste.
Além das baterias, outra aposta da Voltxs é a chamada engenharia tarifária. Poderia explicar esse conceito?
Gabriel: A engenharia tarifária entra em cena quando essa energia armazenada também é utilizada para reduzir a demanda contratada. Em um estádio de futebol, por exemplo, com demanda contratada de 3.000 kW mensais e carga predominantemente noturna, o BESS pode operar em conjunto com a geração local para fornecer energia à noite e reduzir a curva de demanda. Com essa redução, torna-se possível renegociar o contrato junto à distribuidora. Para consumidores com perfil de alta demanda contratada, a economia pode alcançar 50% ou 60% do valor total da fatura.
Por fim, quais são os próximos objetivos da empresa?
Gabriel: Nosso foco para 2026 é expandir a carteira de assessoria, com a meta de atender 100 grandes grupos empresariais, priorizando a região Nordeste, mas com atuação em todo o território nacional. A estratégia contempla o agronegócio, especialmente em regiões como o oeste da Bahia, onde o armazenamento pode viabilizar a ampliação da capacidade produtiva em áreas ainda não plenamente atendidas pela rede; o setor industrial, com soluções voltadas à melhoria da qualidade da energia, mitigando quedas, sobretensões e variações de frequência por meio do uso de armazenamento; e o varejo e as instituições de ensino, como escolas e faculdades que, muitas vezes, não recebem a devida atenção de grandes grupos.
O direcionamento da empresa está alinhado ao seu lema, “todas as possibilidades de energia em um só lugar”. O diferencial da Voltxs é oferecer a “cabeça” dos nossos diretores pensando como se fossem diretores da própria empresa do cliente. Colocamos 40 anos de experiência à disposição para entender o que é melhor para o cenário do cliente, e não apenas vender um produto.
Matheus: Diferente de empresas que querem apenas vender equipamentos, a Voltxs atua como o “CFO da Energia”. Fazemos análises e propiciamos soluções de economia com base em success fee em cima do êxito das operações. Gerimos 6,7 milhões de kWh/mês em mais de 1.300 unidades consumidoras. Nossa meta é elevar essa gestão para 10 milhões de kWh/mês. Hoje o grupo possui mais de R$ 200 milhões investidos em ativos e tecnologia própria. O investimento vai desde engenharia de software e aprendizado de máquina até usinas de geração distribuída e projetos de geração centralizada. Acreditamos que, com essas soluções de assessoria energética, conseguiremos crescer o volume da nossa gestão.

publicada em 26 de fevereiro de 2026 às 5:00 






